Mostrando postagens com marcador Julio Cortázar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Julio Cortázar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Capítulo 29 – Cronópios e famas

Capítulo 29 – Cronópios e famas 

Fábula: fábulas são composições literárias curtas, escritas em prosa ou versos em que os personagens são animais que apresentam características humanas com o objetivo de passar uma lição de moral; mas, por extensão, fábula também é uma narrativa curta, mesmo sem animais e sem moral. Cortázar intitula “Fábula sem moral” um dos “capítulos” de seu livro Histórias de cronópios e de famas. Na historieta, não há animais nem moral, como diz o título. 

Histórias de cronópios e de famas, JulioCortázar, tradução de Gloria Rodríguez, é um bom livro, curto, 125 páginas, que se poderia ler em uma tarde ou duas. Composto de pequenos “capítulos”, sem numeração, mas sempre com títulos. As historinhas variam entre o absurdo, o surreal, o cômico, a anedota e a observação do comportamento humano. Há pequenas joias como a história do relógio e a da bicicleta. A seção sobre a família que se dedica a atividades inúteis também é boa. Os cronópios, as famas e as esperanças são seres imaginários, com características mais ou menos definidas, e suas histórias compõem a quarta e última parte do livro.

Há muita criatividade e liberdade na composição das fábulas deste livrinho e vale a pena ler e desfrutar lentamente até.   

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Fedra de Cabanel

Capítulo 23.1 – Fedra de Cabanel 

Instruções para observar Fedra de Cabanel, ao modo de Cortázar, sem a verve de Cortázar. 

Phèdre, 1880, óleo sobre tela, Alexandre Cabanel, Musée Fabre, Montpellier, altura: 194 cm, largura: 286 cm. 

Entrar no museu exclusivamente para visitar Fedra. A gente dirige horas de atenção a filmes e livros, mas não faz o mesmo com pinturas. Os museus, com suas centenas ou milhares de obras expostas, induzem o espectador a passar somente alguns segundos na frente de um quadro. Mais é melhor, mais paga o ingresso. Caso não possa visitar o museu, use a internet. 

Saber algo dos mitos: Fedra, filha de Minos, rei de Creta, foi dada em casamento ao herói Teseu, mas se apaixonou por Hipólito, filho dele com uma amazona. Hipólito detestava as mulheres e não correspondeu à paixão da madrasta. Fedra, temendo que Hipólito denunciasse ao pai o ardor com que ela o perseguia, preparou uma farsa. Acusou Hipólito de tentar seduzi-la; então, Teseu suplicou a Poseidon que fizesse morrer o filho, o que lhe foi concedido. Fedra enforcou-se, não conseguindo resistir ao desespero e ao remorso. (Dicionário da mitologia grega e romana, Pierre Grimal, esgotado). 

Tecer considerações próprias sobre a tela em questão. 

Não ler, ou ler por sua conta e risco, as minhas considerações. 

A representação de Cabanel não traz referências diretas ao mito, e assim parece estranha. A moça está nua, pensativa, deitada em seu leito, uma criada dorme sentada e outra observa a moça, aparentemente com uma lágrima no rosto. 

A cor da pele de Fedra difere grandemente daquela das criadas: Fedra é pálida, aquela pele que os livros antigos chamavam de alabastro. As criadas apresentam uma tez de bronze que se aproxima daquilo que se pode pensar sobre Creta, ilha solar no Mediterrâneo. A palidez do corpo de Fedra, embora comum na obra de Cabanel, prenuncia a morte que se aproxima. 

Fedra se cobre com um tecido transparente da cintura para baixo. O torso nu e o rosto conformam o centro da imagem. Destaca-se o corpo comum da moça, sem a perfeição que se nota na pintura dos séculos passados, e até em outros quadros do pintor: é famoso o seu Nascimento de Vênus que está no Musée d’Orsay. 

O seio direito está levemente prensado contra a cama e o esquerdo pende sobre o direito, parcialmente coberto pelo braço esquerdo. A moça tem longos cabelos ruivos e aquele nariz que se dizia grego. A carne do torso apresenta leves dobras, sente-se o peso do seio e da barriga, um corpo jovem, mas humano. 

A mão que apoia a cabeça, o rosto e o olhar, mostram a concentração do pensamento em algum projeto malévolo: há decisão e melancolia. A atmosfera simultaneamente tranquila e ansiosa, como antes de uma borrasca, anuncia a tragédia. 

A presença das criadas é misteriosa em sua inatividade. A criada que dorme está em uma posição que sugere não o sono, mas o suicídio. 

O braço direito de Fedra, para cima, indica as maquinações no cérebro da moça; o braço esquerdo caído e vertical aponta para o Hades. O capacete de Teseu, no alto à direita, com o olhar fixo para baixo, confirma o destino da moça, e sinaliza o luto diante das mortes precoces e indesejadas.






domingo, 11 de outubro de 2020

O relógio de Cortázar

Capítulo 19.1

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio, estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. [...] dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão a marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”