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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

the lovely bones

quando meses atrás eu assisti o filme "the lovely bones", li depois que o livro era um bom livro, e que talvez até o filme fosse inferior ao livro - como em geral acontece. isso é o que recordo, não sei se foi assim. recordo ainda que procurei o livro algumas vezes, poucas, na livraria cultura e não encontrei. gostei do filme - de peter jackson - gostei muito da menina que faz o papel de susie salmon. se não me engano redondamente, ela se chama saiorse ronan. hoje, na livraria cultura, depois de ter dado uma escutada básica em alguns cds - e não gostei de nenhum - e de ter dado uma folheada no livro do gênesis, de robert crumb (um parêntese grande, gosto do desenho sujo de crumb e de suas mulheres fartas, gostosas, bundudas, mas não gostei do livro, inclusive a capa é feinha feinha, imho), pois bem, depois disso, eis que encontrei perdido em uma prateleira o livro de alice sebold, the lovely bones. nem tava procurando. comprei. custou dezoito reais. gostei dessa introdução, que ocupa uma página única antes de o livro efetivamente começar. segue abaixo e depois a minha tradução, de pé-quebrado, claro.
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Inside the snow globe on my father's desk, there was a penguin wearing a red-and-white-striped scarf. When I was little my father would pull me into his lap and reach for the snow globe. He would turn it over, letting all the snow collect on the top, then quickly invert it. The two of us watched the snow fall gently around the penguin. The penguin was alone in there, I thought, and I worried for him. When I told my father this, he said, "Don't worry, Susie; he has a nice life. He's trapped in a perfect world."
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Dentro do globo de neve que ficava sobre a mesa do meu pai, havia um pinguim usando um cachecol listrado de vermelho e branco. Quando eu era pequena, meu pai me puxava para o seu colo e eu alcançava o globo de neve. Ele virava o globo de cabeça para baixo, deixando toda a neve acumular no topo, então ele rapidamente o invertia. Nós observávamos a neve cair suavemente ao redor do pinguim. O pinguim estava sozinho lá dentro, eu pensava nisso, e eu me preocupava com ele. Quando eu contei isso ao meu pai, ele disse, "Não se preocupe, Susie, ele tem uma vida bacana. Ele está preso em um mundo perfeito."

porra, é um começo muito legal para esse livro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

mark haddon

tou gostando demais do livro de mark haddon, uma história que às vezes causa profunda estranheza, em mim, por sua cotidianidade com humor e compreensão dos contraditórios humanos.

"george leu o livro de peter ackroyd em um longo almoço numa pizzaria cheia e ligeiramente inferior à média em westgate. sempre havia achado os comensais solitários tristes. mas agora que ele era um comensal solitário, na verdade se sentia superior." 

(mark haddon - uma coisa de nada)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

revolutionary road - rua revolucionária


Revolutionary Road
Richard Yates
Tradução de José Roberto O'Shea
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Os sons finais e agonizantes do ensaio geral deixaram os atores do Grupo de Teatro Laurel sem mais o que fazer senão ficar ali, calados e imóveis, piscando os olhos diante das luzes do palco e do auditório vazio. Mal ousavam respirar, enquanto a figura diminuta e solene do diretor emergia dentre os assentos desocupados para se juntar à trupe no palco, arrastando uma escada dos bastidores e subindo alguns degraus para dizer-lhes que eram um grupo supertalentoso, um grupo maravilhoso com o qual se trabalhar.
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- O trabalho não tem sido fácil - ele disse, os óculos cintilando sobriamente pelo palco. - Tivemos muitos problemas e, francamente, eu já tinha até me conformado em não esperar demais. Mas ouçam bem; talvez seja piegas dizer isso, mas algo aconteceu aqui esta noite. Hoje, sentado ali, de repente eu percebi que vocês todos estavam se entregando ao trabalho com todo o coração pela primeira vez.
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Espalmou os dedos de uma das mãos sobre o bolso da camisa, para mostrar como o coração era algo simples, físico; em seguida, transformou a mão num punho, sacudido lentamente, em silêncio, em meio a uma pausa longa e dramática, fechando um dos olhos e deixando o lábio inferior, umedecido, enrugar-se e formar uma careta de triunfo e orgulho.
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- Repitam isso amanhã à noite - ele disse - e teremos uma baita apresentação.
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Quase choraram de alívio. Em vez disso, trêmulos, aplaudiram, riram e trocaram apertos de mão e beijos, alguém saiu para comprar uma caixa de cerveja e cantaram em volta do piano que havia no auditório até que chegou a hora, segundo o consenso geral, de parar e ter uma boa noite de sono.

rua revolucionária - revolutionary road


um trecho do livro "revolutionary road" de richard yates - tradução de josé roberto o'shea - quando o personagem frank wheeler está recordando o tempo que passou em paris, durante a segunda guerra, nas folgas do exército.
depois que a esposa, april, diz que ele conhece a cidade...
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Ele disse para si mesmo que, afinal, aquilo era em grande parte verdadeiro. Sabia onde se situava a maioria dos "cartões-postais" da cidade, por força das diversas licenças de três dias gozadas em Paris anos atrás; também sabia como ir de qualquer um daqueles locais turísticos até o Post Exchange norte-americano e o Clube da Cruz Vermelha, e como chegar à praça Pigalle, como escolher uma prostituta e que cheiro teria o quarto dela. Sabia dessas coisas, e sabia também que a melhor região de Paris, a região onde as pessoas sabiam viver, começava em torno de Saint-Germain-des-Prés e se estendia para o sudeste (ou seria sudoeste?) até o Café Dome. Mas essa última informação baseava-se mais na leitura de "O sol também se levanta", quando ele estava no ensino médio, do que em suas incursões pelo bairro, na maioria das vezes desacompanhado e com dores nos pés. Ele admirara a delicadeza antiga dos edifícios e o modo como a iluminação pública provocava leves explosões de verde-claro nas árvores à noite, e o modo como as varandas compridas dos cafés sempre revelavam um mar de rostos inteligentes e falantes enquanto ele passava; mas vinho branco lhe causava dor de cabeça, e os rostos falantes, vistos de perto, pareciam de homens barbudos e arrogantes ou de mulheres cujos olhos o avaliavam e descartavam em menos de um segundo. A cidade lhe propiciara a sensação de que a sabedoria ficava além de seu alcance, de que um charme indescritível ficava logo adiante de cada esquina, mas ele apenas caminhava até quase perder as forças pelas infindáveis ruas azuladas, e aquelas pessoas que sabiam viver guardavam para si o segredo, e muitas vezes ele acabava bêbado e vomitando da boléia do caminhão que o transportava sacolejando de volta para o alojamento do Exército.

domingo, 28 de junho de 2009

fantasma sai de cena - trecho


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henrique sábado domingo. dias que passaram em branco. henrique fez desenhos, esses ele ainda não escaneou. entabulou jogos de xadrez. leu livros, trechos. pensou na morte próxima. pensou na morte que se aproxima. sonhou com a morte, era uma mulher. a mulher, que era a morte, no sonho, se aproximava da cama na qual henrique dormia. ao mesmo tempo em que dormia via que a mulher se aproximava da cama. ela se curva um pouco para acordá-lo, e na vida real, o sonho acaba, ele acorda. sonhos sempre esquisitos, misturam tempo espaço.
outro sonho. existe uma mulher, não é a morte-mulher, uma mulher que na vida real ele não conhece, mas no sonho conhece e parece que conhece há muito tempo. há um sensação dolorosa de tempo. de querer aquela mulher há muito tempo. no sonho, ele tenta falar com a mulher muitas vezes (muitos dias? em um só dia?). o sonho é angustiado, ele não sabe onde a mulher está, não consegue lhe falar. não sabe se ela dorme, não sabe se está morta, não conhece o quarto em que ela dorme, se dorme.
depois de tentar falar-lhe tantas vezes, procurá-la, consegue encontrá-la, é uma sala de paredes de vidro com cadeiras pretas. henrique está sentado em uma das cadeiras, ela está na sala mas ele não a vê, ouve apenas sua voz. discutem. ele diz que estava angustiado, preocupado, sem saber dela, sem saber se estava viva ou morta. ela diz que ele é quem se afastou e a deixou só, ela responde com uma frase que encerra o sonho, e quando henrique acorda essa frase fica ressoando na sua cabeça. ela disse:
"tudo que tenho é a sua ausência".
henrique encontrou o seguinte trecho no livro de roth, "fantasma sai de cena":
"(...) desde que voltara ao quarto, só fizera me sentar diante da pequena escrivaninha junto à janela, olhar para o trânsito da 53rd street e registrar mais uma vez, no papel de carta do hotel, o mais depressa possível, a conversa que eu não tinha tido com jamie. no meu caderno de tarefas eu anotava o que tinha feito e o que precisava fazer, para ajudar a memória cada vez mais fraca; esta cena de diálogos jamais ocorridos registrava o que não fora feito e não ajudava nada, não aliviava nada, não realizava nada. no entanto, tal como na noite da eleição, me parecera terrivelmente necessário escrever assim que entrei no quarto, pois as conversas que não tive com ela me emocionam mais do que as conversas que tivemos de fato, e a "Ela" imaginária ocupa um lugar intenso no meio da personalidade dela que a "ela" verdadeira jamais ocupará.
mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? não para algumas pessoas. para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante."

terça-feira, 15 de maio de 2007

a ilustre casa de ramires

gracinha, personagem da ilustre casa de ramires,
eça de queirós
irmã de gonçalo
é personagem quase sem voz
mas que protagoniza uma cena belíssima,
profundamente poética e melancólica

gracinha na juventude teve um namoro rápido
com o andré cavaleiro, mas que não se concretiza
em casamento, como sói acontecer na época

depois, ela casa com o josé barrolo, o barrolinho,
personagem simpático,
e casada sofre o assédio do galã de província
andré cavaleiro

não saberemos o que de fato aconteceu entre os dois

certo dia, gonçalo vai à casa de gracinha
e ao se aproximar do mirante,
construção no quintal da casa,
ouve os sussurros de gracinha e andré
entre “sim meu amor” e “não, não”

gonçalo foge

depois, o andré cavaleiro viaja
e afasta-se de gracinha

o mirante é demolido por barrolinho
e o divã que lá havia, velho,
é queimado em uma fogueira

essa é a cena a que me refiro

"Na outra primavera o Barrolo, agora escravizado pela paixão de obras, imaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com um repuxo entre palmeiras, que formaria um “jardim de inverno catita”.

Os trabalhadores começaram por esvaziar o Mirante da velha mobília que o guarnecia desde o tempo do tio Melchior; o imenso divã jazeu dois dias no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrolo, impaciente com aquele desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas arrecadações do sótão, mandou que o queimassem com outras cadeiras partidas, numa fogueira de festa, na noite dos anos de Gracinha. E ela andou em torno da fogueira. O estofo puído flamejou, depois o mogno pesado mais lentamente, com um leve fumo, até que uma brasa ficou latejando, e a brasa escureceu em cinza."

A Ilustre Casa de Ramires
Eça de Queirós

segunda-feira, 23 de abril de 2007

ensaio sobre a cegueira - trecho

O mal da rapariga dos óculos escuros não era de gravidade, tinha apenas uma conjuntivite das mais simples, que o tópico ligeiramente recomendado pelo médico iria resolver em poucos dias. Já sabe, durante esse tempo só tira os óculos para dormir, dissera-lhe. O gracejo levava muitos anos de uso, é mesmo de supor que viesse passando de geração em geração de oftalmologistas, mas o efeito repetia-se de cada vez, o médico sorria ao dizê-lo, sorria o paciente ao ouvi-lo, e neste caso valia a pena, porque a rapariga tinha os dentes bonitos e sabia como mostrá-los. Por natural misantropia ou demasiadas decepções na vida, qualquer céptico comum, conhecedor dos pormenores da vida desta mulher, insinuaria que a bonitez do sorriso não passava de uma artimanha de ofício, afirmação maldosa e gratuita, porque ele, o sorriso, já tinha sido assim nos tempos não muito distantes em que a mulher fora menina, palavra em desuso, quando o futuro era uma carta fechada e a curiosidade de abri-la ainda estava por nascer. Simplificando, pois, poder-se-ia incluir esta mulher na classe das denominadas prostitutas, mas a complexidade da trama das relações sociais, tanto diurnas como nocturnas, tanto verticais como horizontais, da época aqui descrita, aconselha a moderar qualquer tendência para juízos peremptórios, definitivos, balda de que, por exagerada suficiência nossa, talvez nunca consigamos livrar-nos. Ainda que seja evidente o muito que de nuvem há em Juno, não é lícito, de todo, teimar em confundir com uma deusa grega o que não passa de uma vulgar massa de gotas de água pairando na atmosfera. Sem dúvida, esta mulher vai para a cama a troco de dinheiro, o que permitiria, provavelmente, sem mais considerações, classificá-la como prostituta de facto, mas, sendo certo que só vai quando quer e com quem quer, não é de desdenhar a probabilidade de que tal diferença de direito deva determinar cautelarmente a sua exclusão do grémio, entendido como um todo. Ela tem, como a gente normal, uma profissão, e, também como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfações às necessidades, as particulares e as gerais. Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí todo o prazer que pode.

Ensaio sobre a cegueira
José Saramago

sexta-feira, 13 de abril de 2007

somerset maugham

Isabel era moça alta, de rosto oval, nariz reto, olhos bonitos e lábios carnudos, traço este que parecia característico da família. Era bonita, se bem que ligeiramente inclinada à obesidade, o que se podia atribuir à idade; achei que afinaria quando ficasse mais velha. Tinha mãos boas, fortes, embora um pouco gordas; as pernas, que a saia curta deixava bem à mostra, eram também um pouco grossas. Tinha boa pele e o corado natural provavelmente estava agora acentuado pelo exercício e pela viagem de volta, em carro aberto. Era animada e viva. Sua exuberância, sua risonha alegria, o gosto pela vida, a felicidade que havia nela causavam prazer à gente. Sua naturalidade era tão grande que fazia com que Eliott, malgrado a sua elegância, parecesse espalhafatoso. Era tal o seu frescor, que a seu lado a Sra. Bradley, de rosto enrugado e pálido, parecia velha e cansada.

W. Somerset Maugham
O Fio da Navalha
The Razor's Edge

somerset maugham

Gray Maturin era mais vistoso que bonito. Tinha um ar rude, inacabado; nariz curto e chato, boca sensual e a pele corada dos irlandeses; grande quantidade de cabelos negros, bem lisos, olhos muito azuis sob as cerradas sobrancelhas. Embora de compleição tão robusta era muito bem proporcionado e, nu, devia ser um belo tipo de homem. Parecia ter muita força. Sua virilidade era impressionante. Fazia com que Larry, que estava sentado a seu lado e tinha somente três ou quatro polegadas menos que ele, parecesse insignificante.

W. Somerset Maugham
O Fio da Navalha
The Razor's Edge