ricardo hoje está se despedindo do mundo. hoje em dia. ele vem se despedindo do mundo - assim como o personagem de roth em "fantasma sai de cena". exit ghost.
ricardo, você já sabe, não lê jornais, não vê notícias de tv, mais relê que lê, mais ouve as velhas músicas que as músicas novas.
naquilo que se refere a algo assim chamado arte contemporânea, ele hoje não tem mais nenhum interesse nisso, nem mesmo curiosidade. ele se interessa por boa arte, se houver, bidimensional de preferência, desenho e fotografia, ambos em preto e branco, de preferência.
hoje, ainda, ele parece prescindir da aprovação de qualquer pessoa, pares ou não, amigos ou não.
ele simplesmente desenha e desenha e quando está disposto escaneia e coloca em álbum virtual para que os desconhecidos vejam. não avisa a amigos ou conhecidos, não tem interesse em expor, não tem interesse no mundo real, qualquer deles.
não tem mais interesse no mundo cotidiano real, se houver, de aspirações, de bravatas, de fortes emoções. suas maiores lutas se desenvolvem em dois campos: no papel com a caneta nanquim preta e no tabuleiro de xadrez.
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terça-feira, 30 de junho de 2009
domingo, 28 de junho de 2009
fantasma sai de cena - trecho
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henrique sábado domingo. dias que passaram em branco. henrique fez desenhos, esses ele ainda não escaneou. entabulou jogos de xadrez. leu livros, trechos. pensou na morte próxima. pensou na morte que se aproxima. sonhou com a morte, era uma mulher. a mulher, que era a morte, no sonho, se aproximava da cama na qual henrique dormia. ao mesmo tempo em que dormia via que a mulher se aproximava da cama. ela se curva um pouco para acordá-lo, e na vida real, o sonho acaba, ele acorda. sonhos sempre esquisitos, misturam tempo espaço.
outro sonho. existe uma mulher, não é a morte-mulher, uma mulher que na vida real ele não conhece, mas no sonho conhece e parece que conhece há muito tempo. há um sensação dolorosa de tempo. de querer aquela mulher há muito tempo. no sonho, ele tenta falar com a mulher muitas vezes (muitos dias? em um só dia?). o sonho é angustiado, ele não sabe onde a mulher está, não consegue lhe falar. não sabe se ela dorme, não sabe se está morta, não conhece o quarto em que ela dorme, se dorme.
depois de tentar falar-lhe tantas vezes, procurá-la, consegue encontrá-la, é uma sala de paredes de vidro com cadeiras pretas. henrique está sentado em uma das cadeiras, ela está na sala mas ele não a vê, ouve apenas sua voz. discutem. ele diz que estava angustiado, preocupado, sem saber dela, sem saber se estava viva ou morta. ela diz que ele é quem se afastou e a deixou só, ela responde com uma frase que encerra o sonho, e quando henrique acorda essa frase fica ressoando na sua cabeça. ela disse:
"tudo que tenho é a sua ausência".
henrique encontrou o seguinte trecho no livro de roth, "fantasma sai de cena":
"(...) desde que voltara ao quarto, só fizera me sentar diante da pequena escrivaninha junto à janela, olhar para o trânsito da 53rd street e registrar mais uma vez, no papel de carta do hotel, o mais depressa possível, a conversa que eu não tinha tido com jamie. no meu caderno de tarefas eu anotava o que tinha feito e o que precisava fazer, para ajudar a memória cada vez mais fraca; esta cena de diálogos jamais ocorridos registrava o que não fora feito e não ajudava nada, não aliviava nada, não realizava nada. no entanto, tal como na noite da eleição, me parecera terrivelmente necessário escrever assim que entrei no quarto, pois as conversas que não tive com ela me emocionam mais do que as conversas que tivemos de fato, e a "Ela" imaginária ocupa um lugar intenso no meio da personalidade dela que a "ela" verdadeira jamais ocupará.
mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? não para algumas pessoas. para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante."
domingo, 21 de junho de 2009
fantasma sai de cena - philip roth

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essa imagem acima, um desenho virtual criado no longínquo
ano de 2005, outubro, é um mapa onde, em amarelo,
aparece o caminho que vai da casa onde H morava até o
cemitério da sua cidade.
em azul, o rio capibaribe.
parece ser uma boa imagem para acompanhar o parágrafo
do livro "fantasma sai de cena", de philip roth, que vou
transcrever, já que esse livro fala do final da vida, do final
das aspirações, talvez.
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seguem o primeiro e o segundo parágrafos:
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"fazia onze anos que eu não ia a nova york. com exceção da viagem a boston para remover uma próstata cancerosa, eu passara aqueles onze anos praticamente sem sair de casa numa estrada rural nos montes berkshire, e além disso pouco lia jornal ou ouvia o noticiário, desde o onze de setembro, três anos antes; sem nenhuma sensação de perda - apenas, no início, uma espécie de ressecamento interior - eu deixara de habitar não apenas o mundo maior mas também o momento presente. o impulso de estar nele e fazer parte dele, eu já havia matado muito antes.
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agora, porém, peguei o carro e fui até o mount sinai hospital, em manhattan, uma distância de duzentos e dez quilômetros, para consultar um urologista que se especializara em uma técnica voltada para milhares de homens como eu, vitimados pela incontinência urinária causada pela cirurgia da próstata. introduzindo um cateter na uretra e injetando uma forma gelatinosa de colágeno no ponto onde o colo da bexiga se encontra com a uretra, ele havia conseguido melhoras significativas em cerca de cinquenta por cento de seus pacientes. não era uma estatística muito animadora, ainda mais porque as "melhoras significativas" não passavam de um alívio parcial dos sintomas - a incontinência grave se transformava em incontinência moderada, ou a moderada em leve. assim mesmo, como os resultados obtidos por ele eram melhores do que os de outros urologistas que empregavam mais ou menos a mesma técnica (não havia nada a fazer sobre a outra sequela da prostatectomia radical que eu, como dezenas de milhares de pacientes, não tivera a sorte de evitar - lesão dos nervos resultando em impotência), fui a nova york para consultá-lo, quando me considerava adaptado havia muito tempo às inconveniências práticas da incontinência."
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