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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Hélio Schwartsman - Olhando de perto

HÉLIO SCHWARTSMAN

Olhando de perto...

SÃO PAULO - Entre os vários problemas que Mitt Romney enfrenta está o fato de ser mórmon. Os americanos nutrem profunda desconfiança em relação a essa fé, fundada por Joseph Smith nos anos 1820.

Eles têm seus motivos, como mostra Christopher Hitchens em "God is Not Great". Uma vez que o mormonismo surgiu em tempos relativamente recentes, quando já havia jornais e uma massa crítica de gente alfabetizada, registraram-se detalhes sugestivos de manipulação e fraude na gênese da nova religião.

Ao contrário do que se dá com outros profetas, a picaretagem de Smith está documentada. Em 1826, ele foi condenado como desordeiro e impostor por um tribunal de Nova York. Admitiu em juízo ter ludibriado seus concidadãos com falsas expedições de mineração e proclamando ter poderes de necromancia.

Quatro anos depois, inspirado no sucesso de pregadores religiosos que abundavam na região, Smith reaparecia nos jornais dizendo ter descoberto "o livro de Mórmon", que restaurava a verdadeira fé cristã e é a base da religião mórmon.

Segundo Smith, um anjo chamado Moroni o visitara três vezes para informá-lo de um livro -escrito em tábuas de ouro- que explicava a existência dos índios nas Américas e reinterpretava os evangelhos.

Alegando ter encontrado as relíquias, Smith arrebanhou ajuda para passar a mensagem para o papel, já que ele próprio era semianalfabeto. Quando lhe pediam para ver as tábuas, dizia que não poderia mostrá-las, pois qualquer outro que olhasse para elas morreria na hora.

A história do mormonismo está cheia de passagens desse quilate, além de providenciais revelações, que ajudaram a tirar a igreja de certas encrencas legais. Mas é só o mormonismo? Se tivéssemos a chance de observar o surgimento das outras religiões com a mesma riqueza de detalhes, será que elas não se tornariam todas igualmente suspeitas?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Hélio Schwartsman - Ingredientes para o desastre

É cedo para tirar conclusões sobre o que causou o acidente com o Costa Concordia. Neste momento, interessa a muita gente lançar o máximo de culpa sobre o comandante. De todo modo, se apenas um quinto das histórias que agora circulam forem, de fato, verdadeiras, o excesso de autoconfiança será um dos ingredientes da tragédia.

Não chega a ser uma surpresa. Acreditar em demasia em si mesmo é uma forma de autoengano, e uma definição possível de desastre é: intrusão violenta e dolorosa da realidade sobre nossas ilusões. Alimentados por doses maciças de autoconfiança, os responsáveis pelo cruzeiro julgavam navegar por águas seguras, até serem desmentidos por uma pedra.

Em seu novo livro sobre o autoengano, o biólogo Robert Trivers mostra como acidentes aéreos (e marítimos, podemos acrescentar), em geral, resultam de múltiplas causas, uma das quais costuma ser as ficções que os principais atores impõem a si mesmos. O melhor remédio para prevenir essas tragédias é aperfeiçoar rotinas que promovam a paranoia e o ceticismo, solapando o faz de conta em que amiúde nos exilamos.

Um caso notável é o da Korean Air. Entre 1988 e 1998, o índice de acidentes da empresa era 17 vezes maior que a média dos EUA, o que levou o Exército norte-americano a proibir seus soldados de viajar pela Korean. O Canadá considerava até banir a aerolinha de seus céus.

Consultores externos foram chamados e uma de suas principais conclusões foi a de que o profundo respeito à hierarquia cultivado pelos coreanos impedia os copilotos de questionar as ações dos comandantes, os quais chegavam a esbofetear seus auxiliares por erros menores. Os consultores recomendaram que a Korean reforçasse a independência dos copilotos e os incentivasse a ser assertivos com seus chefes. Desde a intervenção, não houve acidentes.

Um pouco de insubordinação faz bem às instituições.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

autoengano

da coluna de hélio schwartsman:

O autoengano é fundamental para a sobrevivência. Cientistas que estudam a depressão descobriram que pessoas clinicamente deprimidas fazem uma avaliação surpreendentemente realistas de si mesmas. O fenômeno até foi batizado de realismo depressivo. Não se sabe ainda se é a depressão que leva à percepção mais acurada ou se é a visão mais realista que provoca os pensamentos deprimentes. De qualquer modo, o excesso de realismo não é lá muito saudável.

a coluna completa está aqui.