quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O médico e o monstro, Robert Louis Stevenson, 1886

O médico e o monstro ou O estranho caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde, Robert Louis Stevenson, 1886, 160 páginas, tradução de Jorio Dauster, Penguin Companhia. Início: 05/12/2020 - Fim: 06/12/2020. 

Este livro foi lido em um único dia, iniciando de manhã e terminando no começo da noite. Textos acessórios lidos no dia seguinte. Leitura em voz alta, e não conseguimos largar o livro antes do final. 

Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Jekyll e Hyde estão presentes na cultura popular, assim como Frankenstein e Drácula. Na introdução deste volume, Robert Mighall diz que “muitos daqueles que creem que conhecem bem a história, na realidade não leram as cem páginas de que se compõe o romance. Lá encontrariam algo diferente do que imaginam: uma história mais complexa, satisfatória e perturbadora que a versão recebida pela via da cultura popular”. Isto se aplica a praticamente todos os livros famosos dos quais a gente tem uma pequena noção da história, aquela que sobrou na cultura, mas nunca tivemos o interesse de ler a obra literária. 

O livro de Stevenson é muito bom, intrigante, instigante, merece ser lido, e até mais de uma vez, pois haverá detalhes que passam despercebidos em uma primeira leitura. 

É um livro composto por dez capítulos, alguns bem curtos. Os capítulos apresentam títulos e não são numerados. 

Resumo: 

Capítulo 1: A história da porta. O advogado Utterson e seu primo Enfield costumam fazer caminhadas juntos aos domingos. “Muitos tinham dificuldade de explicar o que esses dois viam um no outro ou que assunto em comum conseguiam encontrar.” Quando passam em frente à porta de uma edificação que parece abandonada, Enfield conta como conheceu o senhor Hyde e o viu entrar por aquela porta mais de uma vez. 

Capítulo 2: A busca pelo sr. Hyde. Utterson não disse a Enfield, mas sabe que aquela porta é a porta dos fundos da casa do doutor Jekyll. O testamento de Jekyll está com Utterson, e o incomoda pois nele Jekyll deixa sua herança para o senhor Hyde, sem motivo conhecido. O advogado imagina Jekyll dormindo e sendo acordado por Hyde no meio da noite; a cena lembra muito aquela de Frankenstein, quando Victor desperta e vê a criatura. O advogado imagina que Jekyll está sendo chantageado por Hyde. Utterson vai à casa do doutor Lanyon fazer perguntas sobre o doutor Jekyll e sobre Hyde, encontra Hyde entrando novamente pela porta, vai à casa de Jekyll que não está. 

Capítulo 3: O dr. Jekyll estava muito tranquilo. Em outra visita, Utterson conversa com Jekyll sobre Hyde e diz que ouviu história abomináveis sobre Hyde. Jekyll diz “não é o que você imagina, não é tão mau assim”. 

Capítulo 4: O assassinato de Carew. Um ano depois, de madrugada, perto do rio, Hyde mata cruelmente sir Carew e some. Sir Carew encontrou Hyde na rua, falou com ele cortesmente e foi atacado. 

Capítulo 5: O incidente da carta. Jekyll entrega a Utterson um bilhete de Hyde; a caligrafia do bilhete é semelhante à de Jekyll. 

Capítulo 6: O notável incidente do dr. Lanyon. Jekyll passa uma fase boa e amigável, depois passa a não sair mais de casa. Utterson visita Lanyon que está doente, condenado. Utterson recebe uma carta lacrada de Lanyon para ser aberta apenas após a morte de Jekyll. 

Capítulo 7: O incidente à janela. Utterson e Enfield caminham juntos e veem e conversam com Jekyll, abatido, que estava na janela do laboratório. 

Capítulo 8: A última noite. O mordomo de Jekyll pede que Utterson vá até a casa do médico. Os criados estão com medo e acham que Hyde matou Jekyll e que é Hyde que está trancado no laboratório. Utterson decide mandar arrombar a porta. Entram e Hyde está nos estertores finais, suicidou-se. Nenhum sinal do corpo de Jekyll. Há um novo testamento que deixa a herança para Utterson. 

Capítulo 9: A narrativa do dr. Lanyon. Em sua carta, Lanyon conta como ajudou Hyde, pegando a poção no laboratório para que Hyde tomasse e, na sua frente, Hyde se transformou em Jekyll. Isto abalou a saúde de Lanyon. 

Capítulo 10: O relato completo do caso por Henry Jekyll. A carta de Jekyll conta toda a história, a pesquisa e a poção, o lado bom e o mau que já existiam em Jekyll, as torpezas e maldades que só existiam em Hyde, as metamorfoses que passaram a ser espontâneas, Hyde estava sobrepujando Jekyll, e o fracasso em fazer a poção novamente. 

Notas: 

Stevenson gosta de brincar com nomes. Hyde tem o som de “hide”, esconder. Jekyll pode ser uma mistura de “je”, eu em francês, mais “kill”, matar em inglês, resultando em “eu mato”. Utterson, onde “utter”, total, completo, em inglês, pode significar que só quem saberá a história completa é o advogado. Enfield, o primo que passeia, “en”, do francês, mais “field”, pode significar “em campo”. 

O advogado Utterson, quando inicialmente descrito, parece muito com o advogado Jaggers, do livro “Grandes esperanças” (1860), de Charles Dickens. 

O advogado assume um papel de detetive, investigando a misteriosa história. Nós o seguimos e, como ele, não conhecemos o caso por dentro, vamos juntando os indícios. Somente com a carta final de Jekyll poderemos saber de quase tudo. 

A história de Stevenson deixa muitos enigmas, muitas suspeitas no ar. Ao contar sobre vidas duplas, aparências duvidosas, Stevenson insinua mais do que declara. Da maldades de Hyde, conheceremos apenas o pisoteamento da menina e o assassinato de Carew. Sabemos que Hyde “extraía prazer do sofrimento dos outros”. Mas quais seriam as torpezas, os prazeres indignos e monstruosos, as infâmias, as abominações que Hyde tanto cometia? Stevenson deixa para a imaginação do leitor. Um dos tipos de torpeza deve ser o relacionamento sexual entre homens, que era proibido por lei e que levou, na mesma época, Oscar Wilde para a cadeia por dois anos. Stevenson insinua que ninguém ali é bonzinho totalmente. Enfield voltava para casa às três da manhã, vindo de “algum fim de mundo”. Sir Carew caminhava de madrugada perto do rio, o que fazia ali, por que abordara com cortesia um sujeito mal-encarado como Hyde. O que havia entre Utterson e Enfield que ninguém conseguia explicar? 

Importante destacar que Jekyll não era o lado bom. Ele afirma que cometia atos indignos escondido e que havia prazer na maldade nele. A poção apenas fez com que o lado mau adquirisse corpo e vida. Aquele lado mau, Hyde, foi se fortalecendo e não queria mais ser bloqueado, quis e quase conseguiu se tornar o lado preponderante.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Frankenstein ou o Prometeu moderno, Mary Shelley, 1818

Frankenstein ou o Prometeu moderno, Mary Shelley, 1818, 417 páginas, tradução de Christian Schwartz, Penguin Companhia. 

Aviso de spoiler: vou falar do enredo do livro sem restrições, continue por sua conta e risco. 

Impressionante que uma moça de dezenove anos tenha concebido e escrito tal história. 

Ao ler um original tão famoso, que deu origem a outras histórias e a tantos filmes, e que se incorporou à cultura popular, constatamos que certos aspectos foram deturpados ao longo do tempo: 

- A criatura não tem nome, sendo referenciada como “criatura”, “monstro”, “demônio”; todavia, o nome do cientista migrou para a criatura. 

- A autora não descreve os procedimentos utilizados por Victor Frankenstein para criar o monstro e dar-lhe vida. Há vagas referências a necrotérios, mas nem mesmo se descreve o laboratório do cientista, tampouco se fala em “eletricidade” ou alguma forma de energia ou de química que dispare a fagulha de vida na criatura. Para a criação da segunda criatura, uma fêmea, sequer haveria “material” disponível, visto que Victor estava em uma ilha isolada com somente cinco habitantes – os quais ele não usou como matéria-prima, ressalte-se. 

- A criatura não é lenta e inepta como se vê em algumas representações. O “monstro” é sobre-humano, repito um ser super-humano, praticamente um super-herói ou um supervilão, como se quiser. A criatura é maior, mais forte, mais veloz na terra e na água, mais resistente à fome e ao frio, possivelmente mais inteligente que os humanos. A gente pensa na criatura como o Superman ou, melhor, o Hulk. É possível que a ideia de super-heróis tenha se originado da criatura de Frankenstein. 

Aqui em casa, nós fizemos a leitura deste clássico em voz alta, em nove noites. A leitura em voz alta parece espantar um possível enfado de algumas passagens descritivas e de outras repetitivas. Sim, o livro de Mary Shelley poderia ter algumas partes cortadas e resumidas sem prejuízo da história. 

As melhores partes do livro se referem ao embate entre criador e criatura, à responsabilidade do criador em relação ao que criou, ao desenvolvimento de tecnologia sem princípios éticos. A narrativa remete, evidentemente, à nossa situação de criaturas abandonadas por um criador mudo, distante, ou inexistente. O capítulo em que a criatura consegue conversar com o criador, expor seus sentimentos, cobrar responsabilidade do criador é excelente. 

Victor Frankenstein é um crápula, um irresponsável, egoísta, megalomaníaco, covarde. Dá nojo no leitor quando alguns personagens se referem a Victor como alguém grandioso e digno. Sujeitinho desclassificado. 

A criatura é o melhor personagem, tenta ser amável e delicada, é rejeitada por todos, alimenta ódio, vingança e remorso. 

Ao final, um livro muito bom, vale a pena ler, diverte e faz pensar. 

Resumo. 

Volume um. 

O livro inicia com cartas de Robert Walton para sua irmã Margaret. Ela está na Inglaterra e ele na Rússia. 

Na Carta I, sabemos que Walton é um herdeiro do primo, está em São Petersburgo, e que pretende cruzar o polo norte de barco. 

Na Carta II, Walton está em Arcangel, comprou um barco, prepara uma tripulação, e conta a história do contramestre: este doou sua fortuna para que jovem pobre pudesse se casar com uma moça rica, na qual o contramestre estava interessado. 

Na Carta III, Walton já está em altas latitude e envia a carta por meio de um mercador. 

A Carta IV, como não foi enviada, se tornou uma reunião de notas de Walton. O barco fica preso no gelo e a tripulação avista no horizonte gelado um trenó puxado por cães e guiado por “um ser com a forma aparente de um homem, mas de estatura desmesurada”. No dia seguinte, encontram um grande pedaço de gelo flutuante com um trenó, um cão e um homem, que trazem para bordo. O homem enfraquecido vai melhorando com o passar dos dias e vai contar a sua história. Percebe-se que Walton é um duplo do homem enfraquecido, o homem misterioso percebe que Walton tem objetivos grandiosos que quer alcançar a todo custo e decide adverti-lo com seu exemplo. 

Capítulo I. O pai do homem ainda sem nome salva da miséria e casa com Caroline que, por sua vez, salva da miséria a menina órfã Elizabeth e a leva para criar. Caroline tem três filhos, Victor, William e Ernest. 

Capítulo II. O amigo Clerval e o interesse pela alquimia. 

Capítulo III. Morte de Caroline por escarlatina, ida de Victor para estudar em Ingolstadt, conhece o professor Krempe e o professor Waldman; este é químico e não renega tudo da alquimia. 

Capítulo IV. Os anos de estudo, a busca por criar vida. 

Capítulo V. A autora não detalha como Victor conseguiu criar um ser, H. G. Wells vai usar o mesmo recurso em seus livros, pular a parte técnica. Ela insinua visitas a necrotérios, mas não há descrição conseguir corpos ou parte de corpos, tampouco de como despertar a criatura. A criatura adquire vida, Victor foge horrorizado, a criatura foge do laboratório. Victor passa meses doente. 

Capítulo VI. Victor recuperado com a ajuda de Clerval. 

Capítulo VII. Carta do pai, o irmão William foi assassinado, Victor volta a Genebra, vê a criatura perto do local onde o irmão foi morto. Justine é presa pelo crime. 

Capítulo VIII. Julgamento de Justine, culpada, morte de Justine na forca. 

Volume dois. 

Capítulo I. Victor viaja pelos Alpes. 

Capítulo II. Victor encontra a criatura e tenta lutar com ela, a criatura pede para contar a sua história. 

Capítulo III. A criatura faz a narração, fala do horror dos humanos, a estadia junto ao chalé, onde habitam Agatha, De Lacey, Felix. 

Capítulo IV. A criatura permanece escondida junto ao chalé, aprende algumas palavras. 

Capítulo V, chega ao chalé a árabe Safie, noiva de Felix, a criatura aprende mais assistindo as aulas que dão para Safie. 

Capítulo VI. A criatura conta a história da família do chalé e da turca Safie. É um ninho de histórias: Victor conta a sua história para Walton, na qual a criatura conta a sua história e, dentro desta, a criatura conta a história da família do chalé. 

Capítulo VII. A criatura se apresenta a De Lacey, o velho cego do chalé, que o recebe bem, mas quando os jovens retornam, arma-se a confusão, a criatura é atacada e foge. 

Capítulo VIII. A família do chalé abandona a casa, a criatura queima o chalé e parte na direção de Genebra em busca do criador. Encontra e mata William e coloca o pingente no bolso de Justine. A criatura termina de contar sua história e pede que Victor lhe faça uma companheira. 

Capítulo IX, a criatura argumenta e convence Victor a prometer que lhe fará uma companheira. 

Volume três. 

Capítulo I. Victor procrastina começar a nova criatura, viaja para Londres com Clerval. 

Capítulo II. Victor vai para a Escócia e, depois, para uma ilha isolada nas Órcades, e lá trabalha na nova criatura e está adiantado no processo. 

Capítulo III. Quando Victor vê a criatura na janela, destrói a nova criação. A criatura diz que vai se vingar. Victor sai de barco e joga os despojos no mar, dorme, perde o rumo e aporta na Irlanda. É acusado de assassinato e preso. 

Capítulo IV. O juiz leva Victor para ver o morto, é Clerval, Victor adoece por dois meses na prisão, o pai chega à prisão, não há julgamento porque se comprova que ele estava na ilha (nem deveria ter sido preso, falhas do romance). Viagem de volta. 

Capítulo V. Em Genebra, casamento e viagem de lua de mel, de barco, para Evian. 

Capítulo VI. A criatura mata Elizabeth, Victor volta para Genebra, deixa o corpo de Elizabeth, o pai morre poucos dias depois. 

Capítulo VII. Victor persegue a criatura por meses até o oceano congelado no Ártico, até ser encontrado pelo navio de Walton. A narração volta a ser feita por Walton, escrevendo para a irmã. 

Anotação de 26 de agosto. Victor vê que Walton tomava notas sobre a história e as corrige e amplia. Victor, mais fraco, porém continua a obsessão de perseguir a criatura. 

Anotação de 2 de setembro. O navio está preso no gelo, Walton teme um motim. 

Anotação de 5 de setembro. O navio ainda preso, motim, a tripulação quer voltar se o navio se soltar do gelo, Victor faz um discurso inútil para que tenha coragem e continuem o propósito. 

Anotação de 12 de setembro. O navio se soltou e começam a voltar para o sul. Victor morre. A criatura sobe a o navio e entra na cabine onde está o corpo de Victor. Fala com Walton. Fala do ódio, dos crimes e dos remorsos. Avisa que vai se dirigir ao norte, fazer uma pira funerária (com que madeira?) e se matar. Vai embora do navio. Fim. 

Trechos do diálogo da criatura com o criador: 

“Eu esperava ser assim recebido”, disse o monstro. Os miseráveis são odiados por todos os homens; quão odiado devo ser eu, por conseguinte, miserável para além de todas as coisas! E tu, no entanto, meu criador, detestas e rejeitas esta tua criatura, à qual tua arte te liga por laços que somente é possível romper pelo aniquilamento de um de nós. Estás disposto a me matar. Como te atreves a brincar assim com a vida? Cumpre tua obrigação comigo e cumprirei a minha contigo e com o restante da humanidade.

[...]

“Condenas-me por te haver criado; pois vem, então, que haverei de extinguir a centelha de vida que tão negligentemente apliquei em ti.”

[...]

“Já não sofri o bastante para que tentes agravar a minha infelicidade? Tenho apreço pela vida, ainda que ela não passe de um acúmulo de angústias, e a defenderei.”

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A revoada, Gabriel García Márquez, 1955

A revoada, Gabriel García Márquez, 1955, 142 páginas, tradução de Joel Silveira, Record.

Início: 28/11/2020 - Fim: 01/12/2020

Quando comecei a ler, percebi que já havia lido este livro muito tempo atrás, pois já havia sido lançado com outro nome, “O enterro do diabo”. Este nome atual é mais adequado pois o título original é “La hojarasca”. 

Foi o primeiro livro publicado por GGM e já é livro de um autor maduro e competente. A história é narrada por três visões próximas e dessemelhantes, embora com alguns pontos de contato. A narração segue os pensamentos de três personagens: um menino, a mãe e o avô dele. O avô está providenciando o enterro de um homem, o menino e a mãe foram convocados pelo avô para acompanhar o enterro. A história se passa em Macondo. Os pensamentos do menino estão mais ligados ao presente e ao passado próximo, os dias mais recentes, os amigos. A mãe e o avô recordam fatos acontecidos ao longo dos últimos vinte e cinco anos no povoado, enquanto o morto não inicia sua última viagem. 

Aviso de spoiler: vou resumir o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

O livro tem capítulos, mas sem numeração. Vou numerá-los, mas isso não existe no livro. 

Capítulo 1. O menino, a mãe Isabel, e o avô, o coronel, estão na casa do morto (saberemos mais tarde que é o doutor). O leitor vai conhecendo o enredo lentamente, por meio dos pensamentos de cada um dos três. O avô se encarregou do enterro que ninguém queria fazer, o homem se suicidara, a cidade odiava o morto, pois era médico e se recusou a atender feridos, no passado. O alcaide tenta impedir ou atrasar o enterro, a cidade gostaria de sentir o fedor da decomposição. 

Capítulo 2. Recordam-se de Meme, a índia guajira que foi morar com o doutor e desapareceu há onze anos. O alcaide é subornado para permitir o enterro. Recorda-se o dia em que o doutor chegou na casa do coronel vinte e cinco anos atrás. 

Capítulo 3. Naquele mesmo dia, chegaram a Macondo o doutor francês e o padre Cachorro. Conta-se a história paralela da mulher que ocupava o quartinho da igreja. 

Capítulo 4. O menino pensa em seus passeios com os amigos. Recorda-se o dia em que o doutor chegou e pediu capim cozinhado para comer. Ficou morando na casa do coronel e atendendo a população. 

Capítulo 5. A mãe do menino pensa nos habitantes da vila, o que estão fazendo naquela hora, e o menino pensa no colega Abraão e nos mortos. 

Capítulo 6. O doutor tinha muitos pacientes, mas a companhia bananeira absorveu todos, e o doutor deixou de atender, ficava trancado no quarto. Isabel recorda de Martín, um rapaz que apareceu na cidade e com quem se casou, e que foi embora faz nove anos. Tudo é irreal e nebuloso. 

Capítulo 7. Recorda-se o curto período em que o doutor resolveu sair do quarto, se arrumava e ia até a barbearia. A filha do barbeiro era atormentada por um espírito. Isabel recorda quando a madrasta lhe falava sobre Meme e o doutor, enquanto costuravam o vestido de noiva. 

Capítulo 8. Isabel recorda o casamento com Martín. O coronel recorda a conversa com o doutor sobre deus e sobre o padre Cachorro. 

Capítulo 9. O coronel recorda quando Meme ficou grávida, e o doutor mudou-se para a casa da esquina, de onde nunca mais saiu. Martín era um metido a esperto e foi embora em busca de negócios. Meme fazia sexo com muitos homens, não somente o doutor. 

Capítulo 10. O menino recorda quando ia com Abraão ver Lucrécia, mulher que se exibe para eles, levantando a camisola. O coronel recorda quando foi na casa do doutor com o Cachorro, depois que Meme desapareceu. A mãe recorda quando Genoveva voltou, cheia de filhos, e achou o menino parecido com Martín. 

Capítulo 11. O coronel sofrera uma queda e ficara muito mal, três anos antes, o doutor cuidou dele, salvou-lhe a vida, e pediu para que o coronel o enterrasse. O alcaide autorizou o enterro, os índios fecham o caixão, abrem as portas, o enterro vai sair às ruas, ficam perguntas e melancolia. 

Gostei muito da história, é plena de tristeza, de melancolia, de uma angústia seca. O povoado parou, as vidas estão paradas, muitos assuntos não são falados, há ódios antigos e incrustados, incompreensões, enigmas. O coronel é impressionante, digno, reto, corajoso. A mãe do menino, ainda jovem, é quem mais sente o peso opressor do povoado, da decadência, da ausência de respostas. Vale demais ler este livro de García Márquez. 

Primeiros parágrafos: 

“Pela primeira vez vi um cadáver. É quarta-feira, mas sinto como se fosse domingo porque não fui à escola e me fizeram vestir esta roupa de veludo verde que me aperta em algum lugar. Levado pela mão de mamãe e seguindo meu avô, que tateia a cada passo com a bengala para não tropeçar nas coisas (ele não enxerga bem na penumbra, e além disso claudica), passei diante do espelho da sala e me vi de corpo inteiro, vestido de verde e com este laço branco e engomado que me aperta de um lado do pescoço. Vi-me na redonda lua manchada e pensei: "Este sou eu, como se hoje fosse domingo." 

Viemos à casa onde está o morto.” 

Trechos: 

“– Mas uma noite como esta não lhe dá medo? Não tem a sensação de que existe um homem maior que todos os outros caminhando pelas plantações enquanto nada se move e todas as coisas parecem perplexas ante a passagem desse homem?

[...]

– Pode acreditar, coronel, não sou ateu. O que acontece é que me perturba tanto pensar que Deus existe como pensar que não existe. Então prefiro não pensar nisso.”

[...]

‘É um perturbado de Deus’, pensei [...]”

Andaimes, Mario Benedetti, 1996

Andaimes, Mario Benedetti, 1996, 246 páginas, tradução de Mario Damato, Mundaréu, releitura.

Início: 05/11/2020.

Fim: 13/11/2020.

 

Aviso de spoiler: vou resumir o enredo do livro, continue por sua conta e risco.

 

Não é uma biografia, mas tem recordações do autor, exilado também. Muitos diálogos parecem artificiais. A ligação com Artigas e figuras longínquas da história uruguaia será real nas pessoas comuns, aqueles que não são personagens literários? O Brasil não tem isso. Livro fragmentado, muitas conversas artificiais, as pessoas não falam daquela forma, citando livros e acontecimentos históricos, os sonhos descritos não tem significação para a história. Há poemas, cartas, a fragmentação não é o problema, mas a irrelevância de alguns elementos para a narrativa. Reflexões sobre a cidade de Montevidéu e o país e governos e democracia e a América. Por que matar Rocío? Não parece necessário à estrutura do romance, demonstra o acaso das vidas. Foi mais um “castigo” para quem já fora tão castigada. A fraqueza de Javier em não se impor frente ao pusilânime Vargas. A injusta morte do pai de Javier e a injusta morte de Rocío.

 

Apesar da fragmentação e da irrelevância de alguns capítulos, gostei de ler este livro que fala da ditadura e da história do Uruguai, fala de amor, casamento, separação, da amizade, de traumas do passado, de democracia, melancolia, desilusão.

 

Resumo dos capítulos.

 

1. Javier voltou ao Uruguai depois de exilado dez anos na Espanha por causa da ditadura, e vive como anacoreta em uma praia distante. Não procurou os amigos da luta contra a ditadura, ele fugiu do país, alguns ficaram, outros escaparam. Conversa com Fermín e recebe notícias breves do pessoal. Separou-se da esposa, Raquel, que ficou com a filha em Madri. Esquecer ou não esquecer. “Democracia é amnésia, não sabia?”

 

2. Javier recorda como conheceu Raquel, adolescente, em uma praia, “bem instalada na adolescência, com uma aura de virgindade”.

 

3. Javier encontra Gaspar na rua, este fugiu para o Brasil e trabalhou como fotógrafo. O presídio se chama Libertad; em Recife, a penitenciária fica na Avenida Liberdade.

 

4. Na escola, o menino Javier tentou fazer com que Nieves, a mãe viúva, se interessasse pelo Professor Ángelo, solteirão, “um dos mais ambiciosos projetos de sua vida”.

 

5. Carta de Raquel, fala da vida em Madri. “Agora, por exemplo, não estou no cio, mas nunca se sabe.”

 

6. Javier no bar, observa a cidade e medita. “Agora, a luta armada é entre torcedores.” “Então, como éramos? Mais amáveis, menos ásperos? Mais sinceros, menos hipócritas? Quem sabe fôssemos menos desagradáveis, Ok, provavelmente ainda hoje somos menos soberbos que os portenhos. Diz Quino que um uruguaio é um argentino sem complexo de superioridade.”

 

7. Memórias de quando Javier exercia o jornalismo. “Um dos enfermeiros confirmou que estava morta. [...] Não podia deixar de olhar a cabeça da menina, que tinha ficado inclinada em direção a ele. De repente, viu que aqueles lábios sem cor esboçavam um sorriso, que os olhos se abriam e lhe davam uma piscada quase cúmplice. Em seguida se fecharam.”

 

8. Reunião dos velhos amigos em torno do Anarcoreta, a primeira vez de cada um. “[...] o Velho cumpria assim com o seu firme propósito de sempre: não fazer confidências. Nem políticas nem pessoais. Era o tipo mais reservado do mundo e seus arredores.”

 

9. No videoclube, sábado de manhã, a visita de Egisto. “Contudo, minha especialidade jornalística não é o esporte, mas sim a corrupção generalizada, que já adquiriu uma importância olímpica e mundial.”

 

10. Reencontro com Professor Ángelo.

 

11. Início do relacionamento com Raquel.

 

12. Vizinho na praia, cachorro, serviços públicos.

 

13. Reencontro com Alejo que conta sobre o tempo na prisão. Arrependimento do que não leu por prazer. Pensamentos suicidas na prisão.

 

14. Rocío visita Javier e iniciam um relacionamento. Nunca havia sido bonita. Prisão, medo. Classe média. Perder a transformação cotidiana da filha.

 

15. Atemporal, na praia, no frio, gaivotas. Uruguai não é Paraguai.

 

16. O que prevalece no relacionamento com Rocío. Em busca do tempo perdido. Rocío nua é mais atraente e desejável do que parece ser quando vestida.

 

17. Reflexões sobre o Uruguai.

 

18. O amigo Eduardo Vargas convertido em deputado, situando-se na esquerda da direita.

 

19. Sonho com trem e mala, Roma, Montevidéu. Sonho estranho, engana o leitor e resulta em nada.

 

20. Artigo sobre Montevidéu. Menos estresse e menos urgência que em outras capitais.

 

21. Coronel Bejarano quer se encontrar com Fermín. Coordenou torturas, não parece arrependido, faz ameaças.

 

22. Nieves, a solidão, os irmãos, o professor. Os irmãos Gervásio e Fernanda, EUA, esqueceram da mãe. A doença da mãe é solidão. Ela se interessara pelo professor, que morreu de solidão.

 

23. Fermín recebe o recado do Coronel. Fermín não sabe se quer encontrar o Coronel.

 

24. Carta bobinha da filha Camila.

 

25. Rocío, Nieves, rádio e medo. Necessidade de mulher e de solidão.

 

26. Segunda visita do Coronel. Os norte-americanos não deveriam ter se metido nas nossas encrencas.

 

27. Artigo recusado, países não morrem.

 

28. Visita ao Jardim Botânico. Animal urbano. A hora do angelus dá raiva, a morte.

 

29. O velho Leandro e sua irmã Teresa. O inferno somos nós mesmo. O Mercosul é uma jaula com dois linces e uns gatinhos.

 

30. Reflexões sobre a história do Uruguai, o Maracanã, o futebol.

 

31. Visita dos irmãos “norte-americanos”, interesseiros. Caricatos demais.

 

32. Testamento, herança de Nieves, interesse dos irmãos.

 

33. Fax de Raquel, está com um namorado galego.

 

34. Noite, lua e mormaço, vontade de fazer poesia, amanhã.

 

35. Poema sobre o corpo em relação a Raquel e a Rocío.

 

36. O testamento, com Nieves e Rocío, a mesquinharia dos irmãos.

 

37. Coronel Bejarano se mata.

 

38. Carta do Coronel Bejarano para Javier. Até o cão o abandonou.

 

39. Outro sonho com trem, maleta e Rita.

 

40. Fermín e a carta do Coronel.

 

41. Fax de Raquel sobre Roma e Mussolini.

 

42. Rocío, memórias do cárcere.

 

43. Artigo de Javier sobre as máfias legais, como a Fifa.

 

44. Galeria de arte, exposição de Cláudio Merino.

 

45. Fax para Raquel: Rocío e ceticismo.

 

46. Visita à casa de Fermín, filhos chatos.

 

47. Poema para o corpo em relação a Rocío.

 

48. O falso mendigo, amigo que decidiu ser mendigo como profissão.

 

49. Conversa com Nieves, rancores, Raquel, Camila, Rocío.

 

50. Táxi, recordação de tigre no zoológico.

 

51. Rocío, impotência contra o mundo gigantesco.

 

52. Artigo rejeitado sobre a publicidade.

 

53. Acordar desorientado, insônia e sexo na madrugada.

 

54. Carta da irmã Fernando, culto ao dinheiro nos Estados Unidos.

 

55. O amigo Lorenzo Carrara, medo, insegurança, recordações.

 

56. Nieves teve um amante, mas preferiu ficar com o marido.

 

57. Mais um sonho com Rita e trem.

 

58. Visita o cemitério, túmulo do pai. Um ramalhete de ódios para Aníbal Frutos.

 

59. Artigo sobre democracia, mas não seria qualquer forma de governo?

 

60. Carta à irmã. Eu não reataria a “amizade”. Hipocrisia.

 

61. Restaurante com Nieves, o assassinato do pai por um acaso até.

 

62. Amigo do filho de Fermín, metido a besta.

 

63. Mais um poema para o próprio corpo.

 

64. Balanço do desexílio.

 

65. Tucán Velasco, informante, conta do Coronel, Otelo x Scilingo.

 

66. Conversa com o barbeiro. Montevidéu, capital, país pequeno, centro político.

 

67. A casa de Nieves, Fernanda, senhora Maruja.

 

68. Reflexões sobre o Uruguai.

 

69. Fax da tola Camila.

 

70. Apartamento cedido em Punta del Este com Rocío.

 

71. Retorno de Punta, acidente semelhante ao de Camus. Não ceder, ficar.

 

72. No hospital.

 

73. No hospital, Rocío morreu.

 

74. Volta para a casa na praia, os amigos, a mãe, fax de Raquel que virá.

 

75. Poema de Hortelan.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Ritual do ciúme em Números

Encontrei em Números o fascinante ritual do ciúme, uma forma de julgamento selvagem, ignara, rudimentar. Este tipo de ordálio constitui-se da seguinte forma:

Se a mulher dormiu maritalmente com um homem, às escondidas de seu marido e não foi surpreendida no ato e não há testemunhas, ou se um espírito de ciúme veio sobre o marido, então:

Deve-se levar a mulher ao sacerdote e o marido faz uma oferenda de farinha de cevada. Esta é a oferenda do ciúme. O sacerdote colocará água em um vaso de barro e pó do chão do Tabernáculo na água, que passa a ser chamada de águas amargas. O sacerdote fará a mulher jurar que não cometeu a falta e, depois, ela beberá as águas amargas.

Se a mulher for inocente, nada acontecerá.

Se a mulher for culpada, seu sexo vai murchar e seu ventre vai inchar.

Não está escrito em Números, mas diz-se que, possivelmente, o sacerdote acrescentava, também, algum produto que tornava a água amarga. Diz-se, ainda, que há simbologia no efeito que se obtinha em caso de “culpa”: se a mulher dormiu maritalmente fora do casamento, seu ventre pode inchar, ou seja, ficaria grávida, e seu sexo pode murchar, por conta de alguma doença venérea.

Este registro em Números é o primeiro, ou um dos primeiros, em que se encontra a forma de julgamento por ordálio, que era uma prática judicial consistindo em submeter o acusado a uma provação dolorosa, desagradável ou perigosa. Por exemplo: caminhar sobre brasas. Se o acusado fosse inocente, nada sofreria.

Prometeu moderno

Frankenstein ou o Prometeu moderno, escreveu a garota de dezenove anos. 

Victor Frankenstein tentou criar um novo ser humano, conseguiu, será que conseguiu. 

Prometeu criou os primeiros homens, que ele moldou na argila. Privilegiou os humanos na partilha da carne de um touro em detrimento de Zeus. O castigo: Zeus retirou o fogo dos humanos. Prometeu roubou partículas de fogo de Apolo e entregou a sua criação.  O castigo: para a humanidade, Zeus enviou Pandora; Prometeu foi acorrentado a uma rocha, uma águia surgia todos os dias e lhe devorava o fígado, que se regenerava. (De fato, o fígado é o único órgão que se regenera, com a capacidade de reconstituir até setenta por cento de seus tecidos, herança de Prometeu ou Zeus). Tempos depois, Prometeu ouviu Zeus falar que ia causar um dilúvio para acabar com a humanidade. Prometeu avisou a Deucalião e sua esposa Pirra e disse-lhes que construíssem uma arca para escapar da inundação. O dilúvio olímpico durou nove dias e nove noites. Quando as águas baixaram, a arca encalhou em uma montanha da Tessália. 

Eu e meu amante nos dedicávamos, certa vez, à leitura de Frankenstein. Eu havia chutado o balde, sabia que era loucura, sabia que era sonho, eu acreditava que havia queimado todos os navios. Incendiária, louca, de correr louca. Na casa dele, além da biblioteca de canto a canto, havia uma grande mesa retangular de madeira, no centro do espaço, era pequeno o espaço, mas a exiguidade de móveis, a composição minimalista que ele, meu amado, adotara, tornavam o espaço aconchegante, austero e aparentemente mais amplo. Cada móvel, cada pequena obra de arte, haviam sido escolhidos por sua qualidade estética e simplicidade. 

Na mesa, somente os livros que estávamos lendo e aqueles que se relacionavam às leituras. Um livro, uma leitura, chamava outras. Mary Shelley, Prometeu, Pandora, Gênesis, Números, Apocalipse, Ulisses, Virginia. Era o meu particular Olimpo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata, 1961

A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata, 1961, 124 páginas, tradução de Meiko Shimon, Estação Liberdade. 

Uma casa que proporciona a homens velhos a oportunidade de passar a noite com jovens mulheres adormecidas. 

Kawabata recebeu o Nobel de Literatura em 1968. Suicidou-se em 1972. Ele buscava uma literatura menos realista, mais lírica e impressionista. Isto se faz notar em seus livros; dele, li também O país das neves, e gostei muito. 

Neste A casa das belas adormecidas, acompanhamos as visitas de Eguchi, um velho de 67 anos, à tal casa, por indicação de um amigo. Poucas características daquele negócio serão apresentadas: há regras, mas não sabemos exatamente quais são, tampouco o que aconteceria se as regras fossem descumpridas. Eguchi, que ainda mantém a potência sexual, não se considera um cliente típico da casa, que seriam velhos impotentes, mas parece se viciar em fazer as visitas. Não conheceremos o funcionamento da casa, como as moças são escolhidas e adormecidas, qual droga se usava, ou se estariam mesmo adormecidas. Acompanhamos cinco visitas que Eguchi faz à casa e conheceremos um pouco da vida dele. 

Eguchi é casado, tem três filhas que já casaram e moram em suas próprias casas. Ele vai à casa e pensa que não voltará, mas retorna várias vezes. De cada vez, a companhia das moças nuas e adormecidas desperta pensamentos e memórias no visitante, também sonhos e pesadelos. É inquietante a atração de Eguchi pela violência, são frequentes os pensamentos dele formas de maltratar as moças. Eguchi também é atraído por pensamentos de morte, pela ideia de suicídio. 

Característicos da cultura japonesa, ao menos na literatura, são os sentimentos de vergonha e de humilhação; estes sentimentos também aparecem na vida e no comportamento de Eguchi. É visível uma certa incompreensão entre as pessoas, conversas que não dizem tudo, situações não discutidas, elipses, silêncios. Para mim, ocidental, há uma permanente estranheza nas histórias contadas por autores japoneses. 

Gostei muito do livro, vale a pena conhecer a obra de Kawabata, bem como de outros escritores japoneses do mesmo nível como Mishima, e Tanizaki. 

Aviso de spoiler: vou resumir o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

O livro é dividido em cinco partes que descrevem as cinco visitas feitas por Eguchi à casa das belas adormecidas. 

1. Eguchi, 67 anos, sexualmente ativo, visita a casa por indicação do velho conhecido Kiga. É casado, tem três filhas e netos. É recebido pela administradora, uma mulher de 45 anos. A moça já se encontra adormecida quando Eguchi entra no quarto, ela deve ter menos de 20 anos. Eguchi sente cheiro de leite e isso lhe traz recordações e pensamentos. Toma comprimidos para dormir, pesadelos. 

2. Segunda visita à casa. É outra garota desta vez. Se ele quisesse a mesma garota, teria que avisar com antecedência de dois ou três dias. A garota se mexe muito e fala, estaria mesmo adormecida? Ele sente falta das filhas. A caçula deixou de ser virgem com um pretendente, mas logo em seguida casou com outro. Eguchi não compreendeu bem a situação. Comprimidos e noite agitada. 

3. Eguchi não resistiu e voltou à casa. Há muitas perguntas em todo o livro e não serão respondidas. A administradora diz que a garota da vez, outra, é mais “experiente”. 

4. A quarta visita. A nova garota é mais corpulenta, Eguchi sente vontade de fazer maldades, a garota tem cheiro intenso e pouco agradável. 

5. Eguchi soube que um velho morreu na casa. O corpo de velho foi levado para uma pousada de águas termais próxima e os jornais não souberam a verdade. Eguchi pensa em morrer ali com uma moça. Nessa noite, serão duas moças no quarto, sem explicação do motivo. Eguchi parece, por vezes, uma pessoa desagradável, comentários inconvenientes. A administradora fala em um “patrão”. Eguchi pensa em demônios, Buda e culpa. Uma das garotas tem aroma doce, a outra tem cheiro forte e selvagem. Esta morre no meio da noite, talvez o narcótico tenha lhe feito mal. Eguchi ouve o corpo da moça sendo levado. 

Trechos: 

“O velho Eguchi ainda não era o que a mulher chamava de ‘clientes que nos deixam tranquilos’, embora pudesse vir a sê-lo.” 

“(O velho Kiga) dissera que ia lá sempre que o desespero de envelhecer se tornava insuportável.” 

“O velho Eguchi pensou que nunca mais retornaria à casa das ‘belas adormecidas’.” 

“A decrepitude hedionda dos pobres velhotes que procuravam aquela casa ameaçava atingi-lo dentro de alguns anos. Quanto da imensurável amplitude do sexo, da insondável profundidade do sexo teria ele tocado na sua vida de 67 anos?” 

“Porém, essa maldade, essa crueldade acompanhada de um terror violento flutuava na mente de Eguchi, sem tomar uma forma definida. Afinal, qual seria a pior maldade de um homem contra uma mulher?” 

“Seriam as ‘belas adormecidas’ uma espécie de Buda? E, além de tudo, um Buda vivo? A pele e o cheiro jovem das garotas seriam, então, o perdão e consolo desses pobres velhotes. [...] chegou a pensar que, como nas lendas antigas, a garota talvez fosse a reencarnação de alguma forma de Buda. Há histórias de prostitutas ou cortesãs que se revelaram, na realidade, reencarnações da divindade.” 

“Não seria aquela casa um local ideal para morrer? Atiçar a curiosidade das pessoas, receber críticas do mundo, não seria, pelo contrário, uma glória após a morte? Seria uma surpresa para os conhecidos. Não era possível calcular quanto desgosto causaria à família e aos parentes. Contudo, ser encontrado morto, espremido entre duas mulheres jovens como nessa noite, não significaria a realização de um sonho para um velho decrépito?” 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet, 2015

Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet, 2015, 408 páginas, tradução de Rosa Freire d’Aguiar, Companhia das Letras. 

Não gostei do tom adotado pelo autor, nem da pretensa sabedoria dele, citações em demasia, semiologia, linguística, filosofia. Tudo raso demais. Irreal demais. O título em francês é A sétima função da linguagem. Livro quase inútil. 

Resumo: A sétima função da linguagem consiste em uma técnica, ou fórmula mágica, que possibilita convencer os outros com facilidade, ou algo semelhante. Jakobson a descobriu e passou para Barthes. Mitterrand a obteve. Giscard d’Estaing e outros também a querem. Barthes é atropelado para roubarem a sétima função. A confusão toda deriva desse enredo tolo. Substitua “sétima função” por “projeto de arma nuclear”, substitua a xaropada filosófica e semiológica por funções matemáticas e físicas, noções mal explicadas de física nuclear e se saberá o que esse livro tenta ser: um enredozinho de detetive e perseguições misturado com lambidas de falsa erudição. E convenhamos, esse pessoal de semiologia, linguística e afins é de uma baboseira e sexo dos anjos sem tamanho. 

Segue a estrutura do livro. 

Primeira parte. Paris. 

1. Roland Barthes sai de almoço com Mitterrand, caminha distraído e é atropelado.

2. Semiologia.

3. Atropelamento.

4. Roland Barthes e a semiologia.

5. Delegado Bayard no hospital, Barthes passa bem.

6. Delegado pensa.

7. Bayard na aula de Foucault, conversa com Foucault.

8. Bayard consulta livros sobre Barthes.

9. Bayard procura professor de semiologia em Vincennes.

10. Aula de semiologia, James Bond, professor Simon Herzog.

11. Bayard conversa com Simon.

12. Simon convertido em auxiliar de Bayard, visitam o apartamento de Barthes.

13. No Café de Flore.

14. Na sauna gay, Foucault e Hamed.

15. Hamed costuma passear com Barthes e ser recebido no apartamento.

16. No hospital, Barthes no chão, piora em seu estado.

17. Hamed pelas ruas.

18. Entrevista de Bayard e Simon com Deleuze.

19. Estresse de Simon.

20. Com o presidente Giscard d’Estaing.

21. Hamed em uma festa.

22. Mitterrand na tevê.

23. Últimos pensamentos de Barthes.

24. Notícia da morte de Barthes na tevê.

25. Simon lê sobre a morte de Barthes no jornal.

26. Sepultamento em Urt.

27. Preparação da campanha de Mitterrand.

28. Apartamento de Hamed é revirado.

29. Assassinato de Saïd, por engano.

30. Perseguição a Simon e assassinato de Hamed.

31. Perseguição ao homem com as notas de Barthes.

32. Jackobson, as seis funções da linguagem.

33. Clube Logos.

34. Análise da arma apreendida.

35. Conversa de Giscard com dois búlgaros.

36. Conversa de Andropov com Kristoff.

37. Carta de Tatko para Julenka.

38. Um documento para Althusser guardar.

39. Jantar de pensadores metidos a besta.

40. Simon segue o policial e conhece a russa Anastasia.

41. Clube Logos.

42. Bayard entrevista Todorov.

43. Althusser e o documento secreto.

44. Clube Logos, debate e corte de dedos.

45. O autor fala.

46. Barthes em jantar com Mitterrand antes do atropelamento. 

Segunda parte. Bolonha. 

47. Em Bolonha, Umberto Eco, Clube Logos, Bianca, e o atentado na estação central. 

Terceira parte. Ithaca. 

48. Althusser mata Hélene, sua esposa (isso aconteceu de verdade).

49. Giscard, Ornano, Poniatowski.

50. Slimane, amigo de Hamed, faz pesquisa no Beaubourg.

51. Althusser no hospital psiquiátrico.

52. Kristeva, Sollers e o búlgaro no Jardim de Luxemburgo.

53. Slimane com Foucault em Ithaca.

54. Sollers e Kristeva.

55. Bayard faz relatório.

56. Mitterrand enraivecido, campanha para presidência.

57. No avião, Simon, Bayard, Slimane, Foucault.

58. Programação do colóquio.

59. Kristeva e piquenique no campus.

60. Filosofia franco-alemã x anglo-americana.

61. Almoço self-service.

62. Continentais x analíticos.

63. Morris Zapp, vida, literatura, linguagem.

64. Filosofia francesa x norte-americana.

65. Foucault drogado e bêbado em boate gay.

66. Foucault só diz bobagem.

67. Simon e a lésbica judia Judith.

68. Foucault, Slimane e Kristeva no café da manhã.

69. Desconstruir o discurso.

70. Conferência de Searle.

71. Fiat lux.

72. Simon, Searle, minotauro e sexo na biblioteca.

73. Bobagens de Guattari.

74. Simon segue Cordélia, a moça da biblioteca.

75. Conferência de Derrida.

76. Derrida.

77. Festa e sexo na fraternidade e no cemitério, morre Derrida.

78. Enterro de Derrida, Anastasia avisa de reunião do Clube Logos.

79. Searle se mata. 

Quarta parte. Veneza. 

80. Pensamentos finais de Searle.

81. Sollers e Kristeva em Veneza.

82. Frota indo para Lepanto.

83. Simon e Bayard encontram Sollers.

84. Cervantes na frota para Lepanto.

85. Festa do Clube Logos, atentado contra Simon.

86. Frota para Lepanto.

87. Basílica San Zanipolo, a pele de Marcantonio Bragadin.

88. Motim na frota de Lepanto.

89. Carta de Kristeva para Tatko.

90. Batalha, Cervantes, o maneta de Lepanto.

91. La Fenice, disputa do Clube Logos, Simon ganha de um político e chega a tribuno.

92. Clube Logos, Sollers desafiou Protágoras, Umberto Eco, e perdeu os colhões.

93. Simon sequestrado para Murano, vingança do político, mão amputada. 

Quinta parte. Paris. 

94. Debate Giscard e Mitterrand, este usa a sétima função da linguagem, que funciona.

95. Comemoração da vitória de Mitterrand, explica-se como ele obteve a sétima função.

96. Jogo Borg x Lendl, Slimane domina a sétima função e conversa com Simon. 

Epílogo. Nápoles. 

97. Simon escapa da morte quando cai um pedaço de mármore em Nápoles.

98. Simon reencontra Bianca, de Bolonha, sequestro do político a mando de Simon.

99. À borda de um vulcão, a vingança de Simon, morte do político.