segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Homem em queda, Don Delillo, 2007

Homem em queda, Don Delillo, 2007, 256 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras. Início: 11/12/2020 – Fim: 15/12/2020. 

Projeto de releitura de livros que tenho nas estantes e dos quais lembro quase nada. O que eu lembrava desse livro de Delillo era pouco. Sabia que falava no 11 de setembro, que havia uma personagem feminina e que não havia gostado do livro no geral, somente isso, absurdo como esse livro não marcou, não ficou na memória, e não havia anotações sobre. Fiz a releitura. 

Não gostei do livro, não leria novamente nem recomendo. Não é um livro essencial, é dispensável. 

Aviso de spoiler: em geral, escrevo sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

O livro é uma tentativa mal sucedida de contar o choque causado a uma família pelo ataque ao World Trade Center, extrapolando o choque particular para o choque nacional. É uma tentativa mal sucedida porque o enredo, ralo, saiu tedioso, monótono, repetitivo. Sim, pode-se pensar que a forma da narração corresponde à forma de agir e pensar de quem está em estado de choque. Todavia, este choque se reveste de monotonia, de cenas sem função na história, e de apatia, e este choque poderia durar menos, não ocupar todas as 256 páginas do livro. 

Keith estava no WTC quando os aviões atacam. Ele desce as escadas atordoado, chega à rua e vai para a casa da ex-mulher, Lianne. Compreende-se o atordoamento de Keith, todavia esse atordoamento não mais o deixa, é para sempre. Lianne recebe o ex-marido, ela também em choque com o atentado, leva-o ao hospital, cuida dele. Nos dias seguintes, Keith não sabe mais o quer da vida, ou não quer nada da vida. Lianne e o filho deles esperam. Esperam até demais, três anos. Keith torna-se um viciado em jogo, vive em cassinos, volta para casa vez em quando. O último capítulo em que Lianne aparece, dá a entender que ela se sente bem e não vai mais querer a presença do amalucado Keith. Ela vai continuar sua vida, somente ela e o filho, de onde parou três anos antes. 

Ao redor desse enredo simples, aparecem a velha e arrogante mãe de Lianne, que está se aproximando da senilidade e da morte, o namorado esporádico da mãe, um comerciante de arte europeu, a turminha que jogava pôquer com Keith em descrições chatíssimas sobre esse jogo chatíssimo, Florence Givens, também uma sobrevivente do ataque com a qual Keith mantém um caso volátil de quinze dias, o pai de Lianne que se suicidou e o Homem em Queda, um artista que faz a performance de se pendurar de cabeça para baixo em pontes e viadutos. 

O melhor personagem é Lianne, a gente torce por ela, a gente gosta de ver que ela caminha para a frente, que ela vai superando a situação, apesar do tom lento e tedioso da narração. Os outros personagens não produzem um milímetro de empatia no leitor. O filho do casal, por exemplo, é um menino distante, antipático, arrogante. Como se pode ver no resumo abaixo, são inúmeras cenas sem consequência, cenas que podem ser retiradas e não mudam em nada a história. 

Abaixo segue resumo de cada capítulo com um ou outro comentário. 

Parte 1. Bill Lawton (saberemos depois que Bill Lawton é como o filho do casal chama a Bin Laden). 

Capítulo 1. Começa no onze de setembro: um homem que conseguiu sair de um dos prédios atacados caminha em meio ao caos, atordoado, como em um sonho ou pesadelo. Saberemos seu nome mais tarde, Keith. 

Capítulo 2. Lianne recebe um cartão postal com um poema de Shelley sobre o Islã, três dias depois do ataque, por coincidência. Lianne e o filho Justin na casa da mãe dela, Nina Bartos. Keith é o ex-marido de Lianne, mas no atordoamento, ele foi para a casa dela. Martin, namorado da mãe, chega da Europa, conversam sobre as torres, casamento, separação. 

Capítulo 3. Lianne leva Keith ao hospital, fragmentos de vidro no rosto, estilhaços orgânicos existem quando há um homem-bomba, conta o médico. Isabel é a mãe dos crianças amigas de Justin. Lianne é revisora, trabalha em casa. Keith trabalhou dez anos no WTC, quando se separou foi morar perto do trabalho. O prédio dele está interditado. 

Capítulo 4. Lianne é voluntária em um grupo de pacientes de Alzheimer, para escrever e conversar. Homem em Queda é um artista, sua performance é se pendurar de cabeça para baixo, terno e pasta, como as pessoas que pularam do WTC. Lianne foi pegar a mãe na estação de trem e viu o Homem em Queda. Ela dorme com o ex-marido, tensão sexual leve. Keith pegou uma pasta qualquer durante a descida da escada do WTC e levou para casa, não era dele. As crianças usam um binóculo para procurar aviões. O pai de Lianne se matou antes da senilidade. Martin Ridnour no apartamento da mãe, nada mais parece exagerado, eles dizem; ora, hoje temos a pandemia, a história sobrepuja acontecimentos. Nada é grandioso demais, espetacular demais. A mãe de Lianne, rigorosa, agora está envelhecendo, fraquejando. 

Capítulo 5. Keith vai à casa da dona da pasta, Florence Givens, ela conta como foi a fuga no WTC. Keith no parque com Justin, Lianne no grupo de Alzheimer, escrevem sobre onde estavam quando aconteceu. Lianne tem insônia, a música árabe da vizinha Elena a incomoda. Lianne e Keith fazem sexo, o mais carinhoso que já fizeram. As crianças procuram aviões, Bill Lawton é Bin Laden. 

Na Marienstrasse. É um capítulo sem número sobre muçulmanos. Hammad conversa com um antigo soldado iraquiano de Saddam, a guerra Irã x Iraque, apartamento na Marienstrasse onde planejam os ataques, capítulo inútil, mostra a conversão de Hammad à jihad, o que pode Delillo saber sobre a mente de um muçulmano jihadista, me pergunto. 

Parte 2. Ernst Hechinger (saberemos depois que este é o verdadeiro nome de Martin, namorado da mãe de Lianne, mas isso não tem nenhuma importância para o livro). 

Capítulo 6. Keith com Florence, revivem o trauma, fazem sexo, Florence descrita como negra de pele clara, desajeitada, feiosa. Lianne no grupo de Alzheimer. Keith chuta a porta de Elena, a da música árabe. Longas descrições sobre a bobagem do pôquer, essas homices de amigos do pôquer. Jantar em família, falam em férias, filho chato, arrogante, o passado antes da separação quando qualquer pergunta era hostilidade, Lianne presta atenção em Keith, estão cuidadosos, se dedicam ao outro, ele usa a palavra “realmente”, ela nota que era a palavra que ele usava antes quando mentia, ela tem o impulso de querer saber tudo sobre a pasta e mais. Keith com Florence e um vago desconforto. 

Capítulo 7. Na casa da mãe de Lianne, a discussão repetitiva sobre Islã x Ocidente. Lianne agride Elena, a vizinha da música, sem consequências. Recordações de Keith e Rumsey, colega do pôquer e do trabalho. Lianne no grupo de Alzheimer, ela conta ao grupo onde estava no dia do ataque. Keith recorda do pai, Keith se acha nascido para ser velho, o pai tem satisfação com a velhice, memórias do pôquer, o colega Terry Cheng. Lianne recorda o suicídio do pai. Keith com Florence na loja de colchões, briga com cara que falou de Florence, sem nenhuma consequência. Keith e Lianne assistindo os aviões batendo nas torres, de novo. 

Capítulo 8. Keith com Florence, os dias seguintes do dia do ataque, distanciar-se e analisar os acontecimentos. Carol, a editora, e um livro sobre os sequestros. Lianne no grupo d Alzheimer, Keith na academia, Lianne na casa da mãe, conversam sobre Martin, uma tem raiva da outra. Novamente o pôquer. Lianne com Elena na lavanderia. Dia de chuva, Lianne na rua, prédio dos irmãos buscar o menino, Lianne desequilibrada quase ataca a menina amiguinha do filho. 

Capítulo 9. Lianne no grupo de Alzheimer, Keith no parque com o garoto, Florence é um duplo de Keith, diz o autor, Keith disse a Florence que acabou. Lianne na rua, Keith enumera as possíveis consequências de contar sobre Florence a Lianne, não vai contar. Lianne vê o Homem em Queda. Keith e Justin indo em direção a Lianne, encontram-se na rua, possivelmente a única cena quase feliz da história. 

Em Nokomis. Capítulo sem número sobre os terroristas. Hammad e os terroristas na Flórida. No momento em que se está executando aquilo que foi longamente planejado, não há mais nada para pensar. 

Parte 3. David Janiak (saberemos que é o nome do Homem em Queda). 

Capítulo 10. Três anos depois do ataque, a mãe de Lianne morreu faz quatro meses, Lianne e Justin em uma passeata, muito se faz pelos filhos sem ter a mínima vontade. Ela tem uma rotina discreta e protegida, gosta da rotina, o garoto é muito chato, não dá para o leitor gostar desse garoto antipático, egoísta, arrogante. Lianne recorda quando esteve no Egito, Lianne se preocupa com a sua genética e o Alzheimer. Keith, o fraco, se tornou um viciado em jogo, passa os dias em cassinos, Las Vegas e outras cidades, e apenas alguns dias com Lianne e Justin. Avisado da morte da mãe de Lianne, veio Martin, conversa babaca sobre a relevância da “América”, dá nojo essa norte-americanice, não é só ser o centro do mundo (talvez), é se achar o centro do mundo. Martin gostava de Nina porque a conversa entre eles nunca terminou. 

Capítulo 11. Keith nos cassinos, encontra Terry Cheng, outro personagem que termina viciado, outro duplo de Keith, falta de criatividade. Neste enredo, ninguém consegue se libertar do choque do ataque, Keith conversa com Lianne ao telefone. 

Capítulo 12. Lianne em uma exposição de Morandi, Keith nos cassinos, os dois juntos mais uma vez: ela tem necessidade da presença dele e, diz, quer formar a família de novo. os dois se desestruturaram, mas ele não se recompôs; há coisas que não são ditas. 

Capítulo 13. Lianne encontra o obituário de David Janiak, o Homem em Queda, o artista performático, morreu aos trinta e nove anos de causas naturais, ela busca e lê informações sobre ele. 

Capítulo 14. Keith nos cassinos, é como se fosse um funcionário do cassino, o vício, não consegue deixar o vício, recorda de Florence, foram somente quatro ou cinco encontros, mas pensa nela quase todos os dias, nunca mais falou com ela, o vício está mais arraigado. Lianne recorda do pai, sabe de gente que está lendo o Corão, tentativa de entender, ela corre de manhã cedinho, pensa em se preparar para a maratona do ano que vem, vai à missa algumas vezes, sem acreditar, tentando encontrar ou compreender, compreende que se sente bem consigo mesma: o final do capítulo dá a entender que ela não vai querer mais Keith de volta, na casa, que vai continuar a vida, ela e o garoto, de onde parou três anos antes; bom, melhor assim, Keith é um fraco. 

No corredor do rio Hudson. Capítulo final. Hammad no avião, o impacto contra o prédio, Keith em sua sala, o caos, Rumsey morto, a descida pelas escadas, a rua, o estado de choque no qual ele quis permanecer para sempre, ele sempre foi um fraco, um personagem vazio. Fim. 

Trecho: 

Antes Keith queria mais do mundo do que havia tempo e meios para adquirir. Agora não queria mais isso, fosse o que fosse o que ele queria antes, em termos reais, coisas reais, porque ele jamais soubera de verdade.

Agora se perguntava se havia nascido para ser velho, para ser velho e só, satisfeito com uma velhice solitária, e se todo o resto, todos os olhares ferozes e explosões de raiva que haviam ricocheteado naquelas paredes, eram apenas meios de fazê-lo chegar lá.

Era seu pai se manifestando pelas frestas, sentado em sua casa no oeste da Pensilvânia, lendo o jornal matutino, dando uma caminhada à tarde, um homem amoldado pela rotina suave, viúvo, jantando, sem nenhuma confusão, vivo, cercado por sua pele verdadeira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, 1890

O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, 1890, 224 páginas, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Via Leitura. Início: 08/12/2020 - Fim: 16/12/2020.

Aviso de spoiler: em geral, escrevo sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Havia lido este livro muito cedo na vida, adolescência, e não recordava detalhes, mas sabia o geral da história. Ou sabia pela cultura popular, pois a história do retrato que envelhece no lugar do retratado é de amplo conhecimento. 

É um livro relevante, deve ser lido e vale a pena ser lido. É um livro irregular. 

O pintor Basil Hallward está terminando o retrato do jovem Dorian Gray, que posa para ele, na presença de Lorde Henry Wotton. Henry é um cético e um cínico e faz ver a fatuidade da juventude ao ingênuo Dorian. Ao ver o quadro terminado, a beleza de seus traços jovens perfeitamente representados e preservados, Dorian diz que daria a alma para permanecer jovem enquanto o retrato envelheceria. De algum modo misterioso, a permuta é aceita. O jovem percebe a primeira modificação no quadro e se assusta terrivelmente, pensa em ser bom e virtuoso, mas daí por diante suas maldades, infâmias, pecados e crimes se multiplicam. Passam-se os anos. Dorian, com trinta e oito anos continua a parecer um jovem de vinte. O retrato, por outro lado, está cada vez mais hediondo: a imagem não apenas envelhece, mas também exibe a maldade acumulada do rapaz. Cruel e covarde, Dorian mata Basil, o pintor que fez o quadro, atribuindo ao artista a culpa por seu destino. Pouco tempo depois, desiludido com sua própria capacidade de se tornar virtuoso, Dorian ataca o quadro com uma faca. Os criados ouvem o grito e sobem, o quadro mostra um Dorian Gray jovem e belo, enquanto jaz no chão um homem envelhecido e terrível com uma faca no coração. 

O livro tem cenas muito divertidas com Lorde Henry e seus epigramas amorais, espirituosos e sua visão cínica dos seres humanos e da sociedade. Dorian Gray oscila entre a ingenuidade e a perversidade. As infâmias, as perversões, as maldades, praticadas por Dorian não são descritas. De acordo com Wilde, cada um de nós deve ver seus próprios pecados em Dorian Gray. O final do livro me parece excessivamente moralista; não parece combinar com a ausência de escrúpulos do personagem – na maior parte do tempo – e na contínua pregação de Lorde Henry, um alter ego de Wilde. Dorian Gray, criminoso, hedonista e sempre impune não teria motivos tão fortes para destruir a magia de sua permanente juventude. Talvez o cansaço, talvez já ter experimentado todas as perversões, talvez ele não esperasse que a tentativa de destruição do retrato resultaria em sua própria morte. 

Lorde Henry pode ser visto como um demônio, visto que é por meio de sua “filosofia” de vida que Dorian Gray sugere trocar a alma pela juventude. É estranho não haver um pacto formal que conceda a Dorian o que ele desejou. Também incomoda ao leitor o fato de que ninguém faz observações acerca da disparidade entre a idade de Dorian, 38 anos, e a sua aparência eterna. Somente no penúltimo capítulo, Lorde Henry pergunta qual o segredo da juventude do rapaz. 

Resumo: 

Capítulo I. Lorde Henry Wotton e o pintor Basil Hallward conversam sobre pintura, sociedade, e sobre Dorian Gray, um rapaz que o pintor conhecera e que estava servindo de modelo a um quadro. Basil sente necessidade da amizade de Dorian e o vê todos os dias. 

Capítulo II. Dorian Gray chega ao estúdio de Basil para posar. Lorde Henry fala para Dorian sobre a juventude e a tragédia do envelhecimento. Basil termina o quadro e Dorian diz que daria a alma para permanecer jovem e somente o quadro envelhecer. Henry e Dorian combinam de ir ao teatro à noite e saem do estúdio. 

Capítulo III. Lorde Henry visita o tio, Lorde Fermor, para saber mais sobre a família de Dorian Gray. A mãe do rapaz, Margaret Devereux fugiu para casar com um rapaz pobre, o pai dela, Lorde Kelso, mandou matar o genro, ela teve o bebê e morreu pouco depois, Dorian foi criado pelo avô. Henry vai almoçar com tia Agatha, Dorian Gray já está lá, outros da sociedade, aforismos e ditos espirituosos, pilhérias sobre os norte-americanos. 

Capítulo IV. Dorian Gray conhece a esposa de Lorde Henry. Declara estar apaixonado por Sibyl Vane, atriz, pobre, faz papéis de Julieta e de Desdêmona, entre outros. No final do capítulo, anuncia que vai se casar com Sibyl. 

Capítulo V. Na casa de Sibyl Vane, ela feliz, feliz; a mãe, atriz fracassada, resmungona, interesseira; o irmão James vai embarcar para a Austrália, ele e Sibyl passeiam no parque, passa Dorian em uma carruagem. 

Capítulo VI. Lorde Henry, Basil Hallward e Dorian Gray jantam juntos e conversam sobre o casamento. Chegam ao teatro para ver Sibyl. 

Capítulo VII. Sibyl interpreta pessimamente o papel de Julieta. Lorde Henry e Basil retiram-se. Dorian vai ao camarim e humilha a moça, diz que não a ama mais. A moça explica que não conseguira interpretar o papel porque agora ama na realidade e o palco perdeu a força da ilusão para ela. Dorian passa a noite pela rua, vai para casa e o retrato se modificou, adquirindo as marcas da maldade de Dorian. 

Capítulo VIII. Dorian acorda tarde, confirma que o retrato se alterou, escreve uma carta apaixonada para Sibyl. Lorde Henry chega e conta que Sibyl morreu, suicídio com ácido. Dorian considera o fato uma tragédia maravilhosa, ópera à noite. 

Capítulo IX. Visita de Basil, que pensa que Dorian estava abalado, mas que nada. O biombo esconde o quadro, Basil quer ver, Dorian diz que ele nunca vai ver o quadro de novo, e decide esconder o quadro. 

Capítulo X. Dois homens levam o quadro para o sótão, a chave fica com Dorian. A investigação conclui que a morte de Sibyl foi acidental. Ele recebe um livro que o interessa sobre um parisiense que experimenta todos os pecados e paixões, seja lá o que isso for. Jantar com Henry. 

Capítulo XI. Longo e tedioso, as ocupações de Dorian ao longo dos anos, desnecessário, o quadro continua piorando. 

Capítulo XII. Dorian faz 38 anos no dia 10 de novembro. Basil visita-o preocupado com todos os boatos que correm, está de partida para Paris. Dorian vai mostrar a Basil sua verdadeira “alma”. 

Capítulo XIII. Sobem ao sótão e Dorian mata Basil em frente ao retrato. 

Capítulo XIV. Dorian manda chamar Alan Campbell, químico, que tem um laboratório particular, conta o assassinato, faz uma chantagem misteriosa e obriga Campbell a fazer o corpo desaparecer, lá no sótão, com química e fogo. 

Capítulo XV. Jantar com Henry na casa de Lady Narborough. Dorian destrói objetos de Basil na lareira, sente necessidade de ópio, sai de casa. 

Capítulo XVI. Casa de ópio nos cafundós perto do rio. Dorian encontra Adrian Singleton ao qual destruiu, assunto de um desfalque ou falsificação; uma mulher o chama de Príncipe Encantado. O marinheiro James Vane ouve, vai atrás dele e vai matá-lo, mas Dorian diz que é muito jovem para ter sequer conhecido Sibyl Vane, e James o liberta. Depois, a mulher diz a James que Dorian não envelhece e que a destruiu faz dezoito anos. 

Capítulo XVII. Dorian na propriedade Selby Royal com muitos convidados. Dorian vê o rosto de James Vane no vidro do orquidário e desmaia. 

Capítulo XVIII. Durante uma manhã de caçada em Selby Royal, Lorde Geoffrey atira em uma lebre e mata um homem. Esse homem era James Vane e Dorian se sente salvo. 

Capítulo XIX. Dorian quer se tornar bom, poupou a jovem camponesa Hetty de ser desonrada. Conversa com Lorde Henry sobre o desaparecimento de Basil, o suicídio de Alan Campbell em seu laboratório. 

Capítulo XX. O retrato está mais e mais horrendo e há mais sangue. A decisão de Dorian de se tornar bom não afetava o retrato, a decisão era hipocrisia, vaidade, curiosidade. Dorian ataca o retrato com a faca. Um grito pavoroso. Os empregados sobem e veem o retrato esplêndido de um rapaz jovem e belo e, no chão, um homem morto com uma faca no coração, “seco, enrugado, com um rosto odioso. Só quando examinaram seus anéis reconheceram quem era.”

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O mal-estar na cultura, Sigmund Freud, 1930

O mal-estar na cultura, Sigmund Freud, 1930, 191 páginas, tradução de Renato Zwick, L&PM. 

Não sou especialista na área do famoso doutor. A leitura que fiz dos livros dele foi uma leitura de conhecimento, uma leitura para conhecer um pouco o pensamento dele, e é como a um pensador da modernidade que me refiro ao famoso doutor. Modernidade de 1930 mas que também é a nossa, noventa anos depois, em certa medida. 

Acerca da psicanálise, não tenho conhecimento para opinar, então minha opinião é achismo. Que seja. Os livros do pensador estão aí para ser lidos e cada um pode ter sua opinião. Os livros dele não são livros de matemática ou de química, para os quais a discussão deveria ser técnica. Acerca da psicanálise, ainda, acho até que funciona, mas que não é ciência, nem mesmo ciência médica. Por sorte funciona, por acaso funciona. Talvez funcione porque as pessoas precisam de alguém com quem debater e expurgar seus problemas, culpas, “pecados”, crimes, desejos, safadezas. Antes, quem fazia esse papel eram os sacerdotes, os pajés, os tambores, os cânticos, as oferendas. Ainda fazem, é certo. 

Robert Louis Stevenson dividiu a psique do doutor Jekyll em duas partes, a boa e a má, e a parte boa controlava a má. Com a poção, o doutor conseguiu que a parte má adquirisse vida própria e não fosse mais controlada pela parte boa. Hyde era o mal puro. Por seu lado, o doutor Jekyll continuava com a psique dividida em duas partes. 

Sigmund, a quem sua mamãe chamava “meu Sig de ouro”, dividiu a psique humana em três partes, o “eu”, o “isso” e o “supereu”. Talvez tal divisão seja útil para o entendimento que ele queria ter do ser humano. Eu, do alto da minha arrogância misturada com ignorância, também posso dividir a psique humana em partes teóricas – qualquer um de nós pode fazer isso, visto que a psique não é concreta, é uma abstração. Eu quero agora dividir a psique humana em quatro partes: o “eu”, o “isso”, o “aquilo” e o “infraeu”. Ou dividir em sete partes, denominadas de A até G. Nada impede. A psique abstrata, fantasmática, pode ser fatiada como quisermos, a possível “divisão” não decorre de um fato médico ou científico. O fato do pensamento de Freud funcionar em certa medida não significa que aquela divisão aleatória proposta é real. 

Bem, sobre o livro a que me refiro, essa é a segunda leitura que fiz dele. Como livro de um pensador, de alguém que pensa a cultura, os seres humanos, suas ações e sensações, é um bom livro, instigante, faz o leitor pensar também, não é tedioso e apresenta aspectos que não percebíamos antes. Como ciência, é impreciso e vago. Mesmo como livro de ensaios de um pensador, alguns aspectos causam espanto: 

- A grande quantidade de imprecisões, representadas por expressões como “talvez” e “parece”.

- A ausência de definições acerca de termos ou expressões.

- A enorme carga de preconceito e eurocentrismo (próprios da época do autor, é evidente). 

Já no primeiro parágrafo do livro, encontra-se exemplo do que foi citado acima. O autor diz: “É impossível escapar à impressão de que os seres humanos geralmente empregam critérios equivocados, de que ambicionam poder, sucesso e riqueza para si mesmos e os admiram nos outros, enquanto menosprezam os verdadeiros valores da vida.” Ora, o que significa a expressão “os verdadeiros valores da vida”? 

É evidente que, para cada ser humano, esta pergunta vai resultar em respostas diversas. Se alguém responder “deus” como um dos verdadeiros valores, já sabemos que esse não é um valor para Sigmund de ouro, tampouco para este que aqui escreve. Para alguém, um dos verdadeiros valores da vida será a amizade, mas para outro, como Oscar Wilde, será o desprezo, ou a indiferença. Em suma, não existem, de forma generalizada, os tais “verdadeiros valores da vida”. Para Freud, seriam o conhecimento, o estudo, mas para alguém poderia ser, com igual validade, o dinheiro. Não há absoluto neste ponto. A própria vida humana é um valor? Não para mim, de modo geral. Em particular, a vida é um valor para mim: a minha vida, a dos meus filhos. De modo universal, a vida humana não é um valor: o ser humano pode, deveria até, desaparecer do planeta, ou do universo, que não faria falta, não haveria qualquer abalo na força. Não há “deus”, para Freud e para mim, não há um plano para o ser humano, o que faz da vida humana um acaso, não um valor. 

Machismo: Freud diz que “as mulheres representam os interesses da família e da vida sexual; o trabalho da cultura se tornou sempre mais um assunto de homens, coloca-lhes tarefas sempre mais pesadas, força-os a sublimações dos impulsos de que as mulheres são pouco capazes.” E mais: “a mulher se vê relegada a um segundo plano pelas exigências da cultura e entra em uma relação hostil com esta.” É evidente que Freud era homem do seu tempo, a desvalorização das mulheres era comum. Isso não significa que se possa desculpar a curta visão do doutor, deveria ter enxergado além de seu tempo. 

Outro defeito grave inerente ao pensamento de Sigmund é que ele se mete na antropologia – e em outros campos de ciências – sem ter a devida capacidade e formação. A parte em que ele sugere a forma como os humanos dominaram o fogo é bizarra e ingênua. Qualquer um de nós pode escrever um ensaio, e é isso que Freud fez nesse livro. Todavia, o problema que decorreu dos ensaios de Sigmund é que seus seguidores, e ele mesmo, passaram a achar que tudo ali estava bem correto e fundamentado, e isso está muito longe de corresponder à verdade. 

“Ensaio é uma obra de reflexão que versa sobre determinado tema, sem que o autor pretenda esgotá-lo, exposta de maneira pessoal ou mesmo subjetiva. Ao contrário do estudo, o ensaio não é investigativo, podendo ser impressionista ou opinativo.” 

O grande problema com Freud é que, detestando a religião e deus, ele originou, por sua vez, uma religião. Esse pessoal que segue as ideias de Freud parece um bando de fanáticos religiosos, e ninguém pode sequer discordar dos dogmas do Moisés-Sigmund. É o que me parece. 

O lado bom deste livro instigante é a análise que o autor faz acerca da felicidade, da impossibilidade de sermos felizes (não está no plano da “criação” a felicidade dos humanos), acerca do sofrimento e acerca do delírio religioso. A parte em que Freud se coloca contra o ingênuo preceito de “amarás a teu próximo como a ti mesmo”, e demonstra o absurdo de uma tal proposta, e ainda aponta que o próximo é digno de hostilidade e mesmo de ódio, é sensacional e divertida. Iconoclasta, aquele que se tornou um ícone. 

Vale a pena ler Freud, todavia com muito bom senso e senso crítico, não se pode engolir tudo o que ele inventava na cabecinha de menino mimado de mamãe que ele tinha. 

Primeiro parágrafo e trecho. 

“É impossível escapar à impressão de que os seres humanos geralmente empregam critérios equivocados, de que ambicionam poder, sucesso e riqueza para si mesmos e os admiram nos outros, enquanto menosprezam os verdadeiros valores da vida. No entanto, ao efetuar qualquer juízo geral desse tipo, corre-se o risco de esquecer a variedade do mundo humano e de sua vida psíquica. Há alguns poucos homens aos quais não é negado o respeito de seus contemporâneos, ainda que a sua grandeza resida em qualidades e realizações inteiramente alheias às metas e aos ideais da multidão. Não será difícil supor, porém, que apenas uma minoria reconheça esses grandes homens, enquanto a grande maioria nada queira saber deles. Mas as coisas podem não ser tão simples assim, graças às discrepâncias entre o pensar e o agir dos seres humanos e à multiplicidade de seus desejos.” 

“É particularmente digno de nota o caso em que um grande número de pessoas empreende conjuntamente a tentativa de obter garantias de felicidade e proteção contra o sofrimento mediante uma transformação delirante da realidade. Precisamos caracterizar também as religiões da humanidade como delírios coletivos desse tipo. E quem toma parte no delírio, obviamente nunca o reconhece como tal.”

O Aleph, Jorge Luis Borges, 1949

O Aleph, Jorge Luis Borges, 1949, 146 páginas, tradução de Flávio José Cardozo, Editora Globo. Início: 05/12/2020 – Fim: 10/12/2020. 

No Clube de Leitura, conversamos sobre o conto “O imortal”, de Borges e o conto “O imortal”, de Machado. A conversa, como sempre, demonstrou visões particulares, convergentes, divergentes, concomitantes e enriquece a compreensão da obra. A conversa seguiu por tópicos como mortalidade e imortalidade, transitoriedade, o possível enfado que a imortalidade causaria, as diferenças entre as abordagens machadiana e borgeana, a coincidência de métodos para adquirir e perder a imortalidade, a arquitetura sem fim dos imortais, os setenta anos no poço, as mentiras de Borges (mas todo escritor de ficção é um mentiroso), a constatação de que os três primeiros contos do livro “O Aleph” discorrem sobre a morte (O imortal, O morto, Os teólogos), o recurso utilizado por Borges do “manuscrito encontrado”, que também é usado em inúmeras obras, a opção de Machado em mostrar a tentativa de decapitação do imortal. Durante a conversa, outros autores forma chamados a participar, como H. P. Lovecraft, Sigmund Freud, Milan Kundera, Mary Shelley, Vladimir Nabokov. 

Depois da releitura daquele conto, deu vontade de reler todo o livro e foi o que fiz. Havia muito que não voltava a Borges e continuo gostando. Este livro e muitos outros dele merecem ser lidos, os contos são intrigantes, Borges tem uma enorme erudição, os contos discutem a vida e a morte, deus, a literatura, recomendo fortemente. 

Aviso de spoiler: vou descrever resumidamente todos os contos do livro, continue por sua conta e risco. 

O imortal. O prólogo que se passa em Londres, em 1929, e usa o recurso do manuscrito encontrado. Joseph Cartaphilus vende uma edição da Ilíada que contém um manuscrito. Pouco meses depois, Cartaphilus morre no naufrágio do navio Zeus. 

I. Um soldado romano inicia uma expedição com duzentos soldados em busca de um rio que dá a imortalidade, no tempo de Diocleciano (284 – 305), em Tebas Hekatompylos, a cidade das cem portas, Egito. A expedição passa por desertos, perdem-se soldados, motins, pirâmides, torres e labirintos. 

II. A cidade dos imortais seria na África? O romano chega a uma cidade, tribo de trogloditas, é manietado e pula de uma altura de nove metros. Descobrimos que é Marco Flamínio Rufo, tribuno militar romano. Bebe água do arroio sujo. Vai até a cidade de muros impenetráveis. Encontra uma caverna e um poço, escadas, vasta câmara circular subterrânea com nove portas – faz pensar em H. P. Lovecraft – outra câmara e outra e outra, no vertiginoso, no mais alto, vê o céu azul quase púrpura, vertigem para cima, construções anteriores aos homens, anterior à terra, novamente Lovecraft, obra dos deuses, deuses morreram, os deuses estavam loucos, escadas sem sentido de M. C. Escher, essa cidade “contamina o passado e o futuro e compromete os astros”, o personagem volta aos hipogeus. 

III. O troglodita que ficou esperando o romano recebe o nome de Argos, tentativa de ensinar a linguagem a Argos, macaco não fala deliberadamente para não ser obrigado a trabalhar, chove e os trogloditas dançam como coribantes, Argos é Homero. 

IV. Os imortais, a cidade desatinada, deuses irracionais que governam o mundo, os mortais veneram o primeiro século (incompleto até), o prazer do pensamento, a morte torna os homens preciosos, no século dez partem em busca do rio da mortalidade. 

V. As viagens em busca do rio, em 1921 encontrou, tornou-se mortal, dormiu até o amanhecer. Certa confusão nos trechos finais, a separação entre narradores não é clara, era Homero ou o centurião. Há uma revisão do narrador. Depois, um pós-escrito de 1950 discutindo se o manuscrito é apócrifo. 

O morto. Sobre um integrante de bando que tenta sobrepujar o chefe, deixam ele se arvorar em chefe, depois é morto porque sempre esteve morto desde o momento que decidiu tentar ser chefe. 

Os teólogos. Conto confuso sobre dois teólogos que estudam e lutam contra as heresias, um deles condenado pela Inquisição, morre na fogueira, o outro morre em um incêndio, para deus, que não está interessado em diferenças religiosas, eles são a mesma pessoa. 

História do guerreiro e da cativa. Um guerreiro bárbaro muda de lado e defende a cidade de Ravena no século seis. No dezenove, uma inglesa vive como índia no interior da Argentina, histórias antagônicas ou ímpeto secreto. 

Biografia de Tadeo Isidoro Cruz. Um rapaz do interior argentino, vida dura, com elipses, casa, vira soldado, em uma expedição para prender alguém, muda de lado e junta-se a Martín Fierro. 

Emma Zunz. Uma moça descendente de alemães, cujo pai se suicidou por culpa do dono da fábrica onde ela trabalha, arma uma situação em mata o homem e diz que foi atacada e violentada por ele. 

A casa de Astérion. O Minotauro em seu labirinto descreve sua vida solitária. 

A outra morte. Neste conto, as memórias dos personagens em relação à morte de Pedro Damián mudam de forma inexplicável. Borges, também personagem, pensa inicialmente que o passado foi modificado e resultou na criação de dois universos. No final, ele prefere outra explicação para as duas mortes de Damián. Para mim, ficou a pergunta: quem será que explorou pela primeira vez, na literatura, a ideia de que a modificação do passado resultaria em universos paralelos? 

Trecho: “Modificar o passado não é modificar um só fato; é anular suas consequências, que tendem a ser infinitas. Por outras palavras: é criar duas histórias universais.” 

Deutches Requiem. Um nazista, ex-chefe de campo de concentração, agora condenado à morte, tece considerações sobre guerra, destino, judaísmo, a Alemanha, sobre a nova ordem que necessitava destruir para nascer, inclusive destruir a própria Alemanha. Na época do livro, 1949, até fazia sentido como sarcasmo, ironia, não aceitação da derrota, mas hoje com a Alemanha poderosa, não faz tanto sentido. 

A busca de Averróis. Borges tenta imaginar como teria sido uma parte da vida de Averróis, o qual tenta descobrir o que significam os termos comédia e tragédia na obra de Aristóteles, e tudo se dissolve no ar. 

O Zahir. O narrador diz que Zahir significa evidente, visível, e que é, também, um dos noventa e nove nomes de deus. O Zahir é um objeto qualquer, aleatório, que depois de visto fica na mente do observador, enlouquecendo-o. 

Trecho: “Terão que alimentar-me e vestir-me, não saberei se é tarde ou manhã, não saberei quem foi Borges. Qualificar de terrível esse futuro é uma falácia, já que nenhuma de suas circunstâncias terá significado para mim. Tanto valeria sustentar que é terrível a dor de um anestesiado a quem abrem o crânio. Já não perceberei o universo, perceberei o Zahir.” 

A escrita do deus. Um sacerdote e um jaguar presos em uma câmara que semelha aquela do conto de Poe, “O poço e o pêndulo”, mas separados por uma parede, durante anos. O sacerdote descobre a escrita de deus, são quatorze palavras de quarenta sílabas, e este conhecimento faz com que não tenha mais conhecimento de sua situação ou forma humana. 

Abenjacan, o bokari, morto em seu labirinto. Um conto sobre troca de identidades, identidades voláteis são tema caro a Borges. Zaid, o vizir de Abenjacan, o trai e foge com seu tesouro, e constrói um labirinto no qual espera que venha encontrá-lo para se vingar. 

Os dois reis e os dois labirintos. Continho curto sobre humilhação, vingança e o deserto como labirinto. 

A espera. Homem espera pela chegada de assassino que vem, aparentemente, para uma vingança, o homem adota o nome do assassino. 

O homem no umbral. Bom conto sobre a vingança da população contra um juiz violento e corrupto. 

O Aleph. O primeiro parágrafo é perfeito. O Aleph é um ponto que proporciona visão de tudo, o universo inteiro e cada detalhe, tudo ao mesmo tempo. O personagem ama incondicionalmente uma mulher que o despreza, em vida e após a morte dela. 

Trecho: “Na ardente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da Plaza Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros vermelhos; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita. Mudara o universo mas eu não, pensei com melancólica vaidade; sei que, alguma vez, minha vã devoção a exasperara; morta, eu podia consagrar-me a sua memória, sem esperança, mas também sem humilhação.” 

A intrusa. Triste conto em que a amizade entre irmãos leva ao assassinato da mulher amada por ambos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O médico e o monstro, Robert Louis Stevenson, 1886

O médico e o monstro ou O estranho caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde, Robert Louis Stevenson, 1886, 160 páginas, tradução de Jorio Dauster, Penguin Companhia. Início: 05/12/2020 - Fim: 06/12/2020. 

Este livro foi lido em um único dia, iniciando de manhã e terminando no começo da noite. Textos acessórios lidos no dia seguinte. Leitura em voz alta, e não conseguimos largar o livro antes do final. 

Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Jekyll e Hyde estão presentes na cultura popular, assim como Frankenstein e Drácula. Na introdução deste volume, Robert Mighall diz que “muitos daqueles que creem que conhecem bem a história, na realidade não leram as cem páginas de que se compõe o romance. Lá encontrariam algo diferente do que imaginam: uma história mais complexa, satisfatória e perturbadora que a versão recebida pela via da cultura popular”. Isto se aplica a praticamente todos os livros famosos dos quais a gente tem uma pequena noção da história, aquela que sobrou na cultura, mas nunca tivemos o interesse de ler a obra literária. 

O livro de Stevenson é muito bom, intrigante, instigante, merece ser lido, e até mais de uma vez, pois haverá detalhes que passam despercebidos em uma primeira leitura. 

É um livro composto por dez capítulos, alguns bem curtos. Os capítulos apresentam títulos e não são numerados. 

Resumo: 

Capítulo 1: A história da porta. O advogado Utterson e seu primo Enfield costumam fazer caminhadas juntos aos domingos. “Muitos tinham dificuldade de explicar o que esses dois viam um no outro ou que assunto em comum conseguiam encontrar.” Quando passam em frente à porta de uma edificação que parece abandonada, Enfield conta como conheceu o senhor Hyde e o viu entrar por aquela porta mais de uma vez. 

Capítulo 2: A busca pelo sr. Hyde. Utterson não disse a Enfield, mas sabe que aquela porta é a porta dos fundos da casa do doutor Jekyll. O testamento de Jekyll está com Utterson, e o incomoda pois nele Jekyll deixa sua herança para o senhor Hyde, sem motivo conhecido. O advogado imagina Jekyll dormindo e sendo acordado por Hyde no meio da noite; a cena lembra muito aquela de Frankenstein, quando Victor desperta e vê a criatura. O advogado imagina que Jekyll está sendo chantageado por Hyde. Utterson vai à casa do doutor Lanyon fazer perguntas sobre o doutor Jekyll e sobre Hyde, encontra Hyde entrando novamente pela porta, vai à casa de Jekyll que não está. 

Capítulo 3: O dr. Jekyll estava muito tranquilo. Em outra visita, Utterson conversa com Jekyll sobre Hyde e diz que ouviu história abomináveis sobre Hyde. Jekyll diz “não é o que você imagina, não é tão mau assim”. 

Capítulo 4: O assassinato de Carew. Um ano depois, de madrugada, perto do rio, Hyde mata cruelmente sir Carew e some. Sir Carew encontrou Hyde na rua, falou com ele cortesmente e foi atacado. 

Capítulo 5: O incidente da carta. Jekyll entrega a Utterson um bilhete de Hyde; a caligrafia do bilhete é semelhante à de Jekyll. 

Capítulo 6: O notável incidente do dr. Lanyon. Jekyll passa uma fase boa e amigável, depois passa a não sair mais de casa. Utterson visita Lanyon que está doente, condenado. Utterson recebe uma carta lacrada de Lanyon para ser aberta apenas após a morte de Jekyll. 

Capítulo 7: O incidente à janela. Utterson e Enfield caminham juntos e veem e conversam com Jekyll, abatido, que estava na janela do laboratório. 

Capítulo 8: A última noite. O mordomo de Jekyll pede que Utterson vá até a casa do médico. Os criados estão com medo e acham que Hyde matou Jekyll e que é Hyde que está trancado no laboratório. Utterson decide mandar arrombar a porta. Entram e Hyde está nos estertores finais, suicidou-se. Nenhum sinal do corpo de Jekyll. Há um novo testamento que deixa a herança para Utterson. 

Capítulo 9: A narrativa do dr. Lanyon. Em sua carta, Lanyon conta como ajudou Hyde, pegando a poção no laboratório para que Hyde tomasse e, na sua frente, Hyde se transformou em Jekyll. Isto abalou a saúde de Lanyon. 

Capítulo 10: O relato completo do caso por Henry Jekyll. A carta de Jekyll conta toda a história, a pesquisa e a poção, o lado bom e o mau que já existiam em Jekyll, as torpezas e maldades que só existiam em Hyde, as metamorfoses que passaram a ser espontâneas, Hyde estava sobrepujando Jekyll, e o fracasso em fazer a poção novamente. 

Notas: 

Stevenson gosta de brincar com nomes. Hyde tem o som de “hide”, esconder. Jekyll pode ser uma mistura de “je”, eu em francês, mais “kill”, matar em inglês, resultando em “eu mato”. Utterson, onde “utter”, total, completo, em inglês, pode significar que só quem saberá a história completa é o advogado. Enfield, o primo que passeia, “en”, do francês, mais “field”, pode significar “em campo”. 

O advogado Utterson, quando inicialmente descrito, parece muito com o advogado Jaggers, do livro “Grandes esperanças” (1860), de Charles Dickens. 

O advogado assume um papel de detetive, investigando a misteriosa história. Nós o seguimos e, como ele, não conhecemos o caso por dentro, vamos juntando os indícios. Somente com a carta final de Jekyll poderemos saber de quase tudo. 

A história de Stevenson deixa muitos enigmas, muitas suspeitas no ar. Ao contar sobre vidas duplas, aparências duvidosas, Stevenson insinua mais do que declara. Da maldades de Hyde, conheceremos apenas o pisoteamento da menina e o assassinato de Carew. Sabemos que Hyde “extraía prazer do sofrimento dos outros”. Mas quais seriam as torpezas, os prazeres indignos e monstruosos, as infâmias, as abominações que Hyde tanto cometia? Stevenson deixa para a imaginação do leitor. Um dos tipos de torpeza deve ser o relacionamento sexual entre homens, que era proibido por lei e que levou, na mesma época, Oscar Wilde para a cadeia por dois anos. Stevenson insinua que ninguém ali é bonzinho totalmente. Enfield voltava para casa às três da manhã, vindo de “algum fim de mundo”. Sir Carew caminhava de madrugada perto do rio, o que fazia ali, por que abordara com cortesia um sujeito mal-encarado como Hyde. O que havia entre Utterson e Enfield que ninguém conseguia explicar? 

Importante destacar que Jekyll não era o lado bom. Ele afirma que cometia atos indignos escondido e que havia prazer na maldade nele. A poção apenas fez com que o lado mau adquirisse corpo e vida. Aquele lado mau, Hyde, foi se fortalecendo e não queria mais ser bloqueado, quis e quase conseguiu se tornar o lado preponderante.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Frankenstein ou o Prometeu moderno, Mary Shelley, 1818

Frankenstein ou o Prometeu moderno, Mary Shelley, 1818, 417 páginas, tradução de Christian Schwartz, Penguin Companhia. 

Aviso de spoiler: vou falar do enredo do livro sem restrições, continue por sua conta e risco. 

Impressionante que uma moça de dezenove anos tenha concebido e escrito tal história. 

Ao ler um original tão famoso, que deu origem a outras histórias e a tantos filmes, e que se incorporou à cultura popular, constatamos que certos aspectos foram deturpados ao longo do tempo: 

- A criatura não tem nome, sendo referenciada como “criatura”, “monstro”, “demônio”; todavia, o nome do cientista migrou para a criatura. 

- A autora não descreve os procedimentos utilizados por Victor Frankenstein para criar o monstro e dar-lhe vida. Há vagas referências a necrotérios, mas nem mesmo se descreve o laboratório do cientista, tampouco se fala em “eletricidade” ou alguma forma de energia ou de química que dispare a fagulha de vida na criatura. Para a criação da segunda criatura, uma fêmea, sequer haveria “material” disponível, visto que Victor estava em uma ilha isolada com somente cinco habitantes – os quais ele não usou como matéria-prima, ressalte-se. 

- A criatura não é lenta e inepta como se vê em algumas representações. O “monstro” é sobre-humano, repito um ser super-humano, praticamente um super-herói ou um supervilão, como se quiser. A criatura é maior, mais forte, mais veloz na terra e na água, mais resistente à fome e ao frio, possivelmente mais inteligente que os humanos. A gente pensa na criatura como o Superman ou, melhor, o Hulk. É possível que a ideia de super-heróis tenha se originado da criatura de Frankenstein. 

Aqui em casa, nós fizemos a leitura deste clássico em voz alta, em nove noites. A leitura em voz alta parece espantar um possível enfado de algumas passagens descritivas e de outras repetitivas. Sim, o livro de Mary Shelley poderia ter algumas partes cortadas e resumidas sem prejuízo da história. 

As melhores partes do livro se referem ao embate entre criador e criatura, à responsabilidade do criador em relação ao que criou, ao desenvolvimento de tecnologia sem princípios éticos. A narrativa remete, evidentemente, à nossa situação de criaturas abandonadas por um criador mudo, distante, ou inexistente. O capítulo em que a criatura consegue conversar com o criador, expor seus sentimentos, cobrar responsabilidade do criador é excelente. 

Victor Frankenstein é um crápula, um irresponsável, egoísta, megalomaníaco, covarde. Dá nojo no leitor quando alguns personagens se referem a Victor como alguém grandioso e digno. Sujeitinho desclassificado. 

A criatura é o melhor personagem, tenta ser amável e delicada, é rejeitada por todos, alimenta ódio, vingança e remorso. 

Ao final, um livro muito bom, vale a pena ler, diverte e faz pensar. 

Resumo. 

Volume um. 

O livro inicia com cartas de Robert Walton para sua irmã Margaret. Ela está na Inglaterra e ele na Rússia. 

Na Carta I, sabemos que Walton é um herdeiro do primo, está em São Petersburgo, e que pretende cruzar o polo norte de barco. 

Na Carta II, Walton está em Arcangel, comprou um barco, prepara uma tripulação, e conta a história do contramestre: este doou sua fortuna para que jovem pobre pudesse se casar com uma moça rica, na qual o contramestre estava interessado. 

Na Carta III, Walton já está em altas latitude e envia a carta por meio de um mercador. 

A Carta IV, como não foi enviada, se tornou uma reunião de notas de Walton. O barco fica preso no gelo e a tripulação avista no horizonte gelado um trenó puxado por cães e guiado por “um ser com a forma aparente de um homem, mas de estatura desmesurada”. No dia seguinte, encontram um grande pedaço de gelo flutuante com um trenó, um cão e um homem, que trazem para bordo. O homem enfraquecido vai melhorando com o passar dos dias e vai contar a sua história. Percebe-se que Walton é um duplo do homem enfraquecido, o homem misterioso percebe que Walton tem objetivos grandiosos que quer alcançar a todo custo e decide adverti-lo com seu exemplo. 

Capítulo I. O pai do homem ainda sem nome salva da miséria e casa com Caroline que, por sua vez, salva da miséria a menina órfã Elizabeth e a leva para criar. Caroline tem três filhos, Victor, William e Ernest. 

Capítulo II. O amigo Clerval e o interesse pela alquimia. 

Capítulo III. Morte de Caroline por escarlatina, ida de Victor para estudar em Ingolstadt, conhece o professor Krempe e o professor Waldman; este é químico e não renega tudo da alquimia. 

Capítulo IV. Os anos de estudo, a busca por criar vida. 

Capítulo V. A autora não detalha como Victor conseguiu criar um ser, H. G. Wells vai usar o mesmo recurso em seus livros, pular a parte técnica. Ela insinua visitas a necrotérios, mas não há descrição conseguir corpos ou parte de corpos, tampouco de como despertar a criatura. A criatura adquire vida, Victor foge horrorizado, a criatura foge do laboratório. Victor passa meses doente. 

Capítulo VI. Victor recuperado com a ajuda de Clerval. 

Capítulo VII. Carta do pai, o irmão William foi assassinado, Victor volta a Genebra, vê a criatura perto do local onde o irmão foi morto. Justine é presa pelo crime. 

Capítulo VIII. Julgamento de Justine, culpada, morte de Justine na forca. 

Volume dois. 

Capítulo I. Victor viaja pelos Alpes. 

Capítulo II. Victor encontra a criatura e tenta lutar com ela, a criatura pede para contar a sua história. 

Capítulo III. A criatura faz a narração, fala do horror dos humanos, a estadia junto ao chalé, onde habitam Agatha, De Lacey, Felix. 

Capítulo IV. A criatura permanece escondida junto ao chalé, aprende algumas palavras. 

Capítulo V, chega ao chalé a árabe Safie, noiva de Felix, a criatura aprende mais assistindo as aulas que dão para Safie. 

Capítulo VI. A criatura conta a história da família do chalé e da turca Safie. É um ninho de histórias: Victor conta a sua história para Walton, na qual a criatura conta a sua história e, dentro desta, a criatura conta a história da família do chalé. 

Capítulo VII. A criatura se apresenta a De Lacey, o velho cego do chalé, que o recebe bem, mas quando os jovens retornam, arma-se a confusão, a criatura é atacada e foge. 

Capítulo VIII. A família do chalé abandona a casa, a criatura queima o chalé e parte na direção de Genebra em busca do criador. Encontra e mata William e coloca o pingente no bolso de Justine. A criatura termina de contar sua história e pede que Victor lhe faça uma companheira. 

Capítulo IX, a criatura argumenta e convence Victor a prometer que lhe fará uma companheira. 

Volume três. 

Capítulo I. Victor procrastina começar a nova criatura, viaja para Londres com Clerval. 

Capítulo II. Victor vai para a Escócia e, depois, para uma ilha isolada nas Órcades, e lá trabalha na nova criatura e está adiantado no processo. 

Capítulo III. Quando Victor vê a criatura na janela, destrói a nova criação. A criatura diz que vai se vingar. Victor sai de barco e joga os despojos no mar, dorme, perde o rumo e aporta na Irlanda. É acusado de assassinato e preso. 

Capítulo IV. O juiz leva Victor para ver o morto, é Clerval, Victor adoece por dois meses na prisão, o pai chega à prisão, não há julgamento porque se comprova que ele estava na ilha (nem deveria ter sido preso, falhas do romance). Viagem de volta. 

Capítulo V. Em Genebra, casamento e viagem de lua de mel, de barco, para Evian. 

Capítulo VI. A criatura mata Elizabeth, Victor volta para Genebra, deixa o corpo de Elizabeth, o pai morre poucos dias depois. 

Capítulo VII. Victor persegue a criatura por meses até o oceano congelado no Ártico, até ser encontrado pelo navio de Walton. A narração volta a ser feita por Walton, escrevendo para a irmã. 

Anotação de 26 de agosto. Victor vê que Walton tomava notas sobre a história e as corrige e amplia. Victor, mais fraco, porém continua a obsessão de perseguir a criatura. 

Anotação de 2 de setembro. O navio está preso no gelo, Walton teme um motim. 

Anotação de 5 de setembro. O navio ainda preso, motim, a tripulação quer voltar se o navio se soltar do gelo, Victor faz um discurso inútil para que tenha coragem e continuem o propósito. 

Anotação de 12 de setembro. O navio se soltou e começam a voltar para o sul. Victor morre. A criatura sobe a o navio e entra na cabine onde está o corpo de Victor. Fala com Walton. Fala do ódio, dos crimes e dos remorsos. Avisa que vai se dirigir ao norte, fazer uma pira funerária (com que madeira?) e se matar. Vai embora do navio. Fim. 

Trechos do diálogo da criatura com o criador: 

“Eu esperava ser assim recebido”, disse o monstro. Os miseráveis são odiados por todos os homens; quão odiado devo ser eu, por conseguinte, miserável para além de todas as coisas! E tu, no entanto, meu criador, detestas e rejeitas esta tua criatura, à qual tua arte te liga por laços que somente é possível romper pelo aniquilamento de um de nós. Estás disposto a me matar. Como te atreves a brincar assim com a vida? Cumpre tua obrigação comigo e cumprirei a minha contigo e com o restante da humanidade.

[...]

“Condenas-me por te haver criado; pois vem, então, que haverei de extinguir a centelha de vida que tão negligentemente apliquei em ti.”

[...]

“Já não sofri o bastante para que tentes agravar a minha infelicidade? Tenho apreço pela vida, ainda que ela não passe de um acúmulo de angústias, e a defenderei.”

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A revoada, Gabriel García Márquez, 1955

A revoada, Gabriel García Márquez, 1955, 142 páginas, tradução de Joel Silveira, Record.

Início: 28/11/2020 - Fim: 01/12/2020

Quando comecei a ler, percebi que já havia lido este livro muito tempo atrás, pois já havia sido lançado com outro nome, “O enterro do diabo”. Este nome atual é mais adequado pois o título original é “La hojarasca”. 

Foi o primeiro livro publicado por GGM e já é livro de um autor maduro e competente. A história é narrada por três visões próximas e dessemelhantes, embora com alguns pontos de contato. A narração segue os pensamentos de três personagens: um menino, a mãe e o avô dele. O avô está providenciando o enterro de um homem, o menino e a mãe foram convocados pelo avô para acompanhar o enterro. A história se passa em Macondo. Os pensamentos do menino estão mais ligados ao presente e ao passado próximo, os dias mais recentes, os amigos. A mãe e o avô recordam fatos acontecidos ao longo dos últimos vinte e cinco anos no povoado, enquanto o morto não inicia sua última viagem. 

Aviso de spoiler: vou resumir o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

O livro tem capítulos, mas sem numeração. Vou numerá-los, mas isso não existe no livro. 

Capítulo 1. O menino, a mãe Isabel, e o avô, o coronel, estão na casa do morto (saberemos mais tarde que é o doutor). O leitor vai conhecendo o enredo lentamente, por meio dos pensamentos de cada um dos três. O avô se encarregou do enterro que ninguém queria fazer, o homem se suicidara, a cidade odiava o morto, pois era médico e se recusou a atender feridos, no passado. O alcaide tenta impedir ou atrasar o enterro, a cidade gostaria de sentir o fedor da decomposição. 

Capítulo 2. Recordam-se de Meme, a índia guajira que foi morar com o doutor e desapareceu há onze anos. O alcaide é subornado para permitir o enterro. Recorda-se o dia em que o doutor chegou na casa do coronel vinte e cinco anos atrás. 

Capítulo 3. Naquele mesmo dia, chegaram a Macondo o doutor francês e o padre Cachorro. Conta-se a história paralela da mulher que ocupava o quartinho da igreja. 

Capítulo 4. O menino pensa em seus passeios com os amigos. Recorda-se o dia em que o doutor chegou e pediu capim cozinhado para comer. Ficou morando na casa do coronel e atendendo a população. 

Capítulo 5. A mãe do menino pensa nos habitantes da vila, o que estão fazendo naquela hora, e o menino pensa no colega Abraão e nos mortos. 

Capítulo 6. O doutor tinha muitos pacientes, mas a companhia bananeira absorveu todos, e o doutor deixou de atender, ficava trancado no quarto. Isabel recorda de Martín, um rapaz que apareceu na cidade e com quem se casou, e que foi embora faz nove anos. Tudo é irreal e nebuloso. 

Capítulo 7. Recorda-se o curto período em que o doutor resolveu sair do quarto, se arrumava e ia até a barbearia. A filha do barbeiro era atormentada por um espírito. Isabel recorda quando a madrasta lhe falava sobre Meme e o doutor, enquanto costuravam o vestido de noiva. 

Capítulo 8. Isabel recorda o casamento com Martín. O coronel recorda a conversa com o doutor sobre deus e sobre o padre Cachorro. 

Capítulo 9. O coronel recorda quando Meme ficou grávida, e o doutor mudou-se para a casa da esquina, de onde nunca mais saiu. Martín era um metido a esperto e foi embora em busca de negócios. Meme fazia sexo com muitos homens, não somente o doutor. 

Capítulo 10. O menino recorda quando ia com Abraão ver Lucrécia, mulher que se exibe para eles, levantando a camisola. O coronel recorda quando foi na casa do doutor com o Cachorro, depois que Meme desapareceu. A mãe recorda quando Genoveva voltou, cheia de filhos, e achou o menino parecido com Martín. 

Capítulo 11. O coronel sofrera uma queda e ficara muito mal, três anos antes, o doutor cuidou dele, salvou-lhe a vida, e pediu para que o coronel o enterrasse. O alcaide autorizou o enterro, os índios fecham o caixão, abrem as portas, o enterro vai sair às ruas, ficam perguntas e melancolia. 

Gostei muito da história, é plena de tristeza, de melancolia, de uma angústia seca. O povoado parou, as vidas estão paradas, muitos assuntos não são falados, há ódios antigos e incrustados, incompreensões, enigmas. O coronel é impressionante, digno, reto, corajoso. A mãe do menino, ainda jovem, é quem mais sente o peso opressor do povoado, da decadência, da ausência de respostas. Vale demais ler este livro de García Márquez. 

Primeiros parágrafos: 

“Pela primeira vez vi um cadáver. É quarta-feira, mas sinto como se fosse domingo porque não fui à escola e me fizeram vestir esta roupa de veludo verde que me aperta em algum lugar. Levado pela mão de mamãe e seguindo meu avô, que tateia a cada passo com a bengala para não tropeçar nas coisas (ele não enxerga bem na penumbra, e além disso claudica), passei diante do espelho da sala e me vi de corpo inteiro, vestido de verde e com este laço branco e engomado que me aperta de um lado do pescoço. Vi-me na redonda lua manchada e pensei: "Este sou eu, como se hoje fosse domingo." 

Viemos à casa onde está o morto.” 

Trechos: 

“– Mas uma noite como esta não lhe dá medo? Não tem a sensação de que existe um homem maior que todos os outros caminhando pelas plantações enquanto nada se move e todas as coisas parecem perplexas ante a passagem desse homem?

[...]

– Pode acreditar, coronel, não sou ateu. O que acontece é que me perturba tanto pensar que Deus existe como pensar que não existe. Então prefiro não pensar nisso.”

[...]

‘É um perturbado de Deus’, pensei [...]”