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domingo, 27 de dezembro de 2020

Museu

 Isabel Castellar escreveu:

Museu, sou contra museus, museu em último caso, museu é para dia de chuva ou de neve, inverno no hemisfério norte, temporada de chuvas no hemisfério sul, museu em dia de sol, belo dia de sol, de primavera, outono ou verão, é perda de tempo, é perda de vida, perda da beleza dos dias nas ruas, nas praias. Museu de noite também vale, museu é para de noite. Também, se só tenho aquela oportunidade de ver uma obra famosa, “Moça com brinco de pérola”, sacrifico um pouquinho do ar livre para entrar no museu. Museu é para, no máximo, uma hora, uma hora e meia. Depois disso, a gente não entende mais nada do que está vendo. Museu é para entrar e ver somente uma, duas, três obras importantes, no máximo cinco, degustar de verdade essas tais obras. Entrar e ver um Canaletto, que nem é “artista maior’, ver um Cabanel, que nem é artista maior, museu para ver um quadro só, uma escultura só, de nada adianta ver cem peças de arte, cérebro nenhum, sensibilidade nenhuma suporta isso.

Porque falei em museu, me ocorreu, será que alguém no mundo, alguém de bom senso, alguém que tem um pouquinho de sensibilidade, acha bonita alguma pintura de Tarsila? Tudo ruim, tudo primário, qualquer feira de interior se encontra algo semelhante, infantil. Mas vale milhões. Vá entender.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Fedra de Cabanel

Capítulo 23.1 – Fedra de Cabanel 

Instruções para observar Fedra de Cabanel, ao modo de Cortázar, sem a verve de Cortázar. 

Phèdre, 1880, óleo sobre tela, Alexandre Cabanel, Musée Fabre, Montpellier, altura: 194 cm, largura: 286 cm. 

Entrar no museu exclusivamente para visitar Fedra. A gente dirige horas de atenção a filmes e livros, mas não faz o mesmo com pinturas. Os museus, com suas centenas ou milhares de obras expostas, induzem o espectador a passar somente alguns segundos na frente de um quadro. Mais é melhor, mais paga o ingresso. Caso não possa visitar o museu, use a internet. 

Saber algo dos mitos: Fedra, filha de Minos, rei de Creta, foi dada em casamento ao herói Teseu, mas se apaixonou por Hipólito, filho dele com uma amazona. Hipólito detestava as mulheres e não correspondeu à paixão da madrasta. Fedra, temendo que Hipólito denunciasse ao pai o ardor com que ela o perseguia, preparou uma farsa. Acusou Hipólito de tentar seduzi-la; então, Teseu suplicou a Poseidon que fizesse morrer o filho, o que lhe foi concedido. Fedra enforcou-se, não conseguindo resistir ao desespero e ao remorso. (Dicionário da mitologia grega e romana, Pierre Grimal, esgotado). 

Tecer considerações próprias sobre a tela em questão. 

Não ler, ou ler por sua conta e risco, as minhas considerações. 

A representação de Cabanel não traz referências diretas ao mito, e assim parece estranha. A moça está nua, pensativa, deitada em seu leito, uma criada dorme sentada e outra observa a moça, aparentemente com uma lágrima no rosto. 

A cor da pele de Fedra difere grandemente daquela das criadas: Fedra é pálida, aquela pele que os livros antigos chamavam de alabastro. As criadas apresentam uma tez de bronze que se aproxima daquilo que se pode pensar sobre Creta, ilha solar no Mediterrâneo. A palidez do corpo de Fedra, embora comum na obra de Cabanel, prenuncia a morte que se aproxima. 

Fedra se cobre com um tecido transparente da cintura para baixo. O torso nu e o rosto conformam o centro da imagem. Destaca-se o corpo comum da moça, sem a perfeição que se nota na pintura dos séculos passados, e até em outros quadros do pintor: é famoso o seu Nascimento de Vênus que está no Musée d’Orsay. 

O seio direito está levemente prensado contra a cama e o esquerdo pende sobre o direito, parcialmente coberto pelo braço esquerdo. A moça tem longos cabelos ruivos e aquele nariz que se dizia grego. A carne do torso apresenta leves dobras, sente-se o peso do seio e da barriga, um corpo jovem, mas humano. 

A mão que apoia a cabeça, o rosto e o olhar, mostram a concentração do pensamento em algum projeto malévolo: há decisão e melancolia. A atmosfera simultaneamente tranquila e ansiosa, como antes de uma borrasca, anuncia a tragédia. 

A presença das criadas é misteriosa em sua inatividade. A criada que dorme está em uma posição que sugere não o sono, mas o suicídio. 

O braço direito de Fedra, para cima, indica as maquinações no cérebro da moça; o braço esquerdo caído e vertical aponta para o Hades. O capacete de Teseu, no alto à direita, com o olhar fixo para baixo, confirma o destino da moça, e sinaliza o luto diante das mortes precoces e indesejadas.