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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Nos dias que correm

Isabel escreveu: “Nos dias que correm (e correm!), estou lendo Mrs. Dalloway, Woolf, Virginia, e o volume 2 da trilogia 1Q84, Murakami, Haruki. Destaco esse trecho de Mrs. Dalloway, quando Peter Walsh volta da Índia, se julgando um fracassado:”

‘E então eles viviam ali, com seus armários de roupa branca e seus mestres antigos da pintura e suas fronhas com renda de verdade, desfrutando de uma renda de cinco mil ou dez mil por ano possivelmente, ao passo que ele, dois anos mais velho que Hugh, tinha de implorar por um emprego.’

É sempre intrigante como, nos séculos antes do vinte, havia gente que vivia sem trabalhar, de “rendas” que provinham de onde? Encontra-se isso em todo canto, em Machado, em Jane Austen. Possivelmente, é a concretização daquele ditado: pai rico, filho nobre, neto pobre. O país está cheio desses netos lascados de antigas famílias dos engenhos, das fazendas – ainda fazendo de conta que são ricos. Em “Anna Kariênina” também temos muito disso; o próprio Vronski, amante de Anna, é um nobre cheio de dívidas. A única pessoa que trabalha em Kariênina é Liev, alter ego de Tolstói. Este é do campo e realmente trabalha em sua fazenda.

Na literatura, era comum o personagem que não trabalhava, e o trabalho era uma vergonha. Mesmo os remediados não trabalhavam, como em Jane Austen, “Orgulho e preconceito”. O pai de Elizabeth não é nobre nem muito rico, mas não se sabe do que ele vivia. De posses? de terras? Assim, em geral. Carlos Eduardo da Maia se forma médico só de brincadeira; uma pessoa da classe dele não trabalharia de médico. Então, parece que era comum esse viver de algum dinheiro de família (embora isso seja literatura).

Hoje, na literatura, os personagens trabalham. E paralelamente, no mundo real, eu não conheço gente que vive dessas rendas misteriosas. É claro que deve existir gente que vive de renda, de heranças, mas não é tão comum como “nos antigamentes”.

Eu, aqui, no meu trabalhinho medíocre de advogada, tenho que dar o sangue, e o suor, para que as moedinhas pinguem na minha conta todos os meses.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Sem laços

Isabel: "Amanhã tem clube de leitura, era para ler alguns contos de Lispector, Clarice, do livro “Laços de família”, eu li quase todos, nunca havia me interessado pela obra dela, e depois de ler esses poucos contos, considero supervalorizada. Os contos são medianos, alguns desinteressantes, alguns bons. Na seara dos contos, muito aquém de, apenas como exemplo, Munro, Alice. Um monte de mulher oprimida pela vida de dona de casa. Não dava para imaginar outras histórias, interrogação. Sim, eu me sinto próxima daquelas mulheres, além de dona de casa, mãe, funcionária, esposa, angustiada, agoniada, insatisfeita, sem saída, sim, sou tudo isso, mas não amei os contos, não se acertaram comigo. No clube, não sei se vou dizer o que achei, às vezes fico calada quase todo o tempo da reunião, tenho vergonha dos meus pensamentos. Quem sabe. Eu sei, que queria ser outra pessoa, mas se eu fosse a outra pessoa, eu teria outro conglomerado abrangente de queixas. Quem sabe. Às vezes, acho que não, que sim. Eu vejo aquela moça que trabalha com livros, eu gostaria sim, eu trabalho com a aridez das leis, o que eu escrevo é “conforme”, “de acordo”, “ademais”, “concomitantemente”, “portanto”, “artigo”, “haja vista”, “inciso”, “parágrafo”. Na juventude, a gente faz muita merda, eu achava bonito as leis, pensava que ia ser juíza e corrigir o mundo. Quase todo mundo é assim, o jovem estudante de engenheiro, como meu marido, pensa que vai construir pontes magníficas, até ligar continentes, depois cai na real, cai no mundo do dinheiro, faz qualquer funçãozinha subalterna na engenharia e levando esporro dos superiores. É assim. Vai demorar muito tempo para que eu dê outra chance a Lispector. Decepcionante."

domingo, 1 de novembro de 2020

Sem mais

Sade: “Afirmo que é preciso que haja infelizes no mundo, que a natureza os quer, exige, e que é ir contra suas leis pretender reconstruir o equilíbrio se ela desejou a desordem.”

Ela chegou um dia em meu estúdio, sem avisar, de forma inconveniente, como uma tempestade, eu me preparava para sair, final da tarde, ela tocou a campainha, fui até o balcão, não entendi a presença dela ali, apertei o botão que abre a porta lá de baixo. Enquanto ela subia a escada helicoidal de pedra, antiga, medieval talvez, tudo é medievo na Rua dos Poços, abri a porta e continuei a cuidar dos preparativos, short, camiseta, cabelo, tênis, e ouvia o salto alto dela nos degraus de pedra, escada estreita e incômoda, perigosa até. Ela entrou no estúdio, eu saí do banheiro, o que houve, querida, eu não suporto mais, eu quero ficar aqui, mas o que aconteceu, nada de especial, mas, espera, senta um pouco, quero sentar, nada de especial, esgotei, esgotada, querida, eu estou de saída, vou jogar vôlei com o pessoal, não posso demorar aqui, espera, um minuto, eu não aguento mais a minha vida, marido, filha, obrigação, eu quero viver aqui com você, eu quero fugir, eu quero uma vida, minha vida de volta, respirei fundo, querida, olha, vou ser bem claro, você não pode ficar aqui, morar comigo ou algo assim, eu não quero viver com você, estou feliz sozinho, adoro viver só, minha vida está perfeita, você é uma excelente companhia eventual; descanse um pouco aqui na minha casa, eu vou para o vôlei, não permito que você interrompa meus planos; a chave está na porta, tranque o estúdio quando você for embora, coloque a chave na caixa de correio. 

Beijei a cabecinha dela, estava sentada, atônita ou apenas cansada, na minha poltrona de leitura, e desci a escada. Soltei a bicicleta do cadeado e pedalei para o vôlei.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Atletinha

 

Sala de espera de exame. É meio feriado, deixei a menina em casa com marido, o inútil queria sair para encontrar os amigos, caldinho, foi uma discussão homérica aquilina no quarto para a menina não ouvir, mas é claro que ouviu, a gente não fala baixo quando discute. Eu expliquei para o inútil que eu já havia avisado a ele sobre o exame, e expliquei também que aquele feriado era parcial, a maior parte das pessoas úteis do país estava trabalhando normalmente, e que eu mesma ia para o exame em jejum, fome du, e depois ia para o trabalho, e ele sabia de tudo isso e não ia mesmo sair com a coisa dos amigos dele porque não havia ninguém para ficar com a menina, a escola sem aula, e pronto e saí e não me despedi de ninguém. 

Deve fazer ao mal ao resultado dos exames esse estresse todo, alguma taxa vai dar errado. 

Sala de espera de exame e eu percebo que eu detesto todo mundo ali, não sei de onde vem essa minha capacidade de odiar todos os seres humanos. Sei, sei, você é metida a coisa de psicóloga e vai mencionar que, de fato, eu odeio a mim mesma. Ora, vá tomar no papeiro. Todo mundo é assim, todo mundo é falso, todo mundo odeia todo mundo, todo mundo me critica, todo mundo critica você assim que você sai, assim que você entra nos cantos, assim que você posta uma foto da tua carantonha curtindo uma praia, e todo mundo pensando que coragem a tua de tirar foto dessa tua carantonha feíssima para se exibir. 

Na minha sala de espera, onde detesto todo mundo, detesto mais, detesto com especial vigor, algumas pessoas. A mulher, sei lá, cinquenta anos, corpo bom ainda, vestido ajeitadinho, cabelo espichado em algum tipo de química e pintado de castanho, detesto cabelo artificial, e o que mais detestei nessa doida é que veio com a filha, dezesseis anos, sem necessidade, esses exames que fazem aqui não precisa coisa de acompanhante, e a coisa da filha, shortinho jeans, blusinha, veio encangada com o namoradinho, ora que droga é essa, tem lá necessidade dessa procissão, dessa comitiva, para vir fazer um exame, e o casalzinho nefasto fica arrulhando, acho que a doida da mãe não quis deixar os dois a sós no apartamento para que eles não fizessem, tolinha, eles já fazem há muito tempo. Ou sei lá o que a doida quis para trazer os dois idiotazinhos. 

Todavia, eu pude concentrar o meu ódio em uma moça, eu focalizei, eu direcionei, eu espero que ela tenha sentido alguma vibração do meu detestamento. Havia cadeira sobrando na primeira sala, mas a coisinha ficou em pé, como se fosse a princesinha que não podia por a bundinha na cadeirinha. Depois, a roupa, completamente descabida para ir fazer exame: um shortinho de lycra preto curtíssimo, daqueles para fazer exercício, uma blusinha branca de algodão, eu sou a atletinha, a roupa dizia, eu sou saúde, mim saúde, vocês doença, ela tem vergonha de fazer exame, exame é coisa de doente. Por baixo da blusinha de algodão, sutiã preto, feio, era grande, não era um sutiã gostosinho, delicadinho, sensual, era largo, provavelmente para sustentar os peitinhos quando ela pulasse na ginástica, tão saudável a coisinha. Um metro e sessenta. De início, loura, mas logo vi, falsa, cabelo castanho escuro mal pintado de louro, o louro indo embora, o castanho renascendo, predominando. Sandálias havaianas. Ora, cadê o tênis, se estava com roupinha de ginástica, aí, sandalinha havaiana pretinha sujando o pezinho branquinho de poeira. Pé ia chegar em casa marrom de sujo. 

Depois que passaram o gado, a gente, para outra sala, a lourinha atletinha decidiu sentar e sentou na cadeira mais afastada possível de nós, os outros, os doentes, ela não, ela saudável, exame de rotina, os outros, gordos, velhos, doentes, derrubados, davam nojinho nela. Na pontinha da cadeira para não encostar as coxas nuas no plástico contaminado do assento. Na cadeira mais afastada e olhando para o lado oposto do rebanho. Concentrei meu ódio, minha raiva do marido, da filha, do emprego, naquela cabecinha loura-falsa, naquela pele branca, pernas brancas torneadinhas, detestei cada centímetro da mocinha. Fiquei concentrada para ouvir o nome dela quando chamassem, para odiar melhor, odiar pelo nome, pessoalmente, mas algo me distraiu, ah foi a doida com os pombinhos, e não captei o nome da atletinha, fiquei frustrada. 

Me furaram de novo, me deram papéis, fui para o trabalho e não produzi quase nada no dia, meu fígado derramava a bile verde no mundo, esverdeava o céu e as nuvens, tons diferentes, estava bonito.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Sistêmico


Sade: “[...] se as regras impostas foram infringidas foi porque nada segura a libertinagem e porque o verdadeiro modo de ampliar e multiplicar os desejos é querer lhes impor limites.” 

A menina cresce todos os dias. A roupa de ontem não cabe hoje. Marido passa pelo mundo com a cabeça nem sei onde. Ah, dizem, maridos mais jovens são mais ativos, dividem as tarefas, lá-lá-lá. Mentira, menina, isso é engabelação de materiazinha de jornal metido a coisa. Divide não, ajuda não. De cem, um divide. Ajudar, ajudam, mas é pouco. Quem sabe o que falta na casa sou eu, é a mulher. Eu desisti de ter ajuda de homem. Fazem tudo com displicência, impacientes, autocentrados. Minha cabeça já não está boa. Fui no médico, disse tudo, disse que tem algum problema geral no meu corpo, eu não disse “sistêmico”, adjetivo bonito, mas era o que eu pensava, não disse para não parecer pedante, disse, uma dor aqui, uma sensação ali, vontade de vomitar, o xixi, o cocô, o sangue. O médico não tocou em mim, acho que teve nojo do meu corpo. Não adianta me falar que devia ter ido em uma médica, prefiro médico homem e bem mais velho, médico novinho sabe de nada, frangotes. Não tocou em mim, não passou nada, mas quer me ver toda por dentro. Médico é assim, você por fora não vale nada, querem ver você por dentro, se pudessem te abriam ali, cirurgicamente, na hora, e trocavam as peças defeituosas, ou condenavam de vez. Fecha, não tem mais jeito, babau. E tudo é exame em jejum, já penso na fome, ai, ai, ai. Vão me furar, sugar meus líquidos e enfiar coisas e tubos por todos os meus buracos e fotografar lá dentro e tome fome. A medicina é muito atrasada. Devia ter uma máquina que visse tudo de uma só vez, em cinco minutos. Devia ter uma cápsula-comprimido, com sensores, chip e câmera e o diabo a quatro, engolia e a cápsula saía pesquisando tudo, fotografando tudo. Quando a gente botasse a cápsula para fora, ela emitiria um bip e piscaria uma luzinha para ser facilmente localizada. Isso tudo, sangue, xixi, tubos, vai descobrir meu câncer, mais de um, certamente, metástases, pólipos, cancros, muitos omas, linfomas, miomas. Coitada da menina que vai ficar sem mãe e com esse pai avoado. Coitada nada, vai ser mais feliz criada pelo pai somente, mais livre. Ai, vou levar a menina para comprar um tênis, enquanto estou viva, o pé dela está ficando monstruoso.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Passarinho

Domingo. Detesto. Dia de ficar com a menina o dia todo, ver o marido o dia todo, melhor é dia de semana que não se tem de fazer de conta que se é uma família. Detestar é o verbo que me vem à boca todo o tempo. Domingo é tudo mais difícil. A casa continua se sujando, as roupas continuam se sujando, mas a menina quer brincar, a menina quer, a menina quer, a menina quer tudo. O marido não faz a barba, se aboleta na rede, no sofá. Parece que domingo é livre, mas é nada, a obrigação de fazer algo diferente, levar a menina no parque ou praia, almoçar em algum restaurante entupido de gente barulhenta e deseducada. Eu não pergunto, eu sei o que eu fiz para merecer isto, eu brinquei de boneca, é um mal, brinquei de casinha e pensava que a vida era brincar de casinha, um marido boneco, um carro rosa, tudo perfeito. A menina brinca de boneca, fazer o quê, é a mesma merda, a mesma repetição. Domingo. Marido acorda mais tarde e a menina acorda mais cedo, eu nem consigo pensar direito e levanto para enganar a menina com uma brincadeirinha e recolher a roupa do varal e pensar no que vai ser o café da manhã e o que vai ser no café da noite, o almoço já resolvido, é domingo, vou comer demais no meio do barulho.

Passarinho canta enquanto recolho a roupa. Detesto passarinho. Deve ser bom, ser passarinho, morre logo, dura pouco, não cuida de casa.

domingo, 25 de outubro de 2020

Útero

Tanta gente morre por besteira, só eu não. Queria um câncer fulminante de útero, de pâncreas, queria um ataque cardíaco fulminante, um raio que o parta, mas não, continuo aqui. Só não consigo é pular do prédio, fico imaginando o baque, a porrada, deve doer pra caralho, ainda não quero não. E foda-se quem achar que devo procurar “ajuda”, vou procurar porra nenhuma, não tem um psico-qualquer-coisa que tenha uma vidinha resolvida. Vai ver, é tudo complicado lá nas casas deles. Eu não quero ajuda, quero parar. 

Fico pensando na menina, claro. Ficar sem mãe. Meu marido é zero, não sabe nada de casa, nada de cuidar da menina, nada de roupas. Ele tenta, mas homem é um zero e acabou. A menina vai ficar sendo cuidada por ele, é até bom, vai crescer menos angustiada com as exigências da mãe. Já sinto um câncer crescendo no meu útero. Tenho medo. Queria uma doença rápida e indolor. 

Acho que é só a menina que me segura aqui. Penso na putinha com a qual meu marido vai se ajuntar depois que eu me esbagaçar na marquise do térreo. Homem que deixa de ter esposa, logo arruma uma mais nova e se ajunta. Poucos, pouquíssimos são como Ordep, maduros e solteiros. Homem precisa de uma mãe, uma mulher para ordenar a vida cotidiana. Meu marido já é um escroto, então depois que eu me for, expressão feia, aí é que o safado vai se espalhar. Problema, vai até esquecer da filha. A menina vai ter fome, vai ficar na escola até tarde esperando e nada, vai deixar de fazer as tarefas da escola, perder o aniversário das amigas, a roupa vai ficar puída, nunca que aquele inútil entrou em uma loja para comprar roupa da menina. Talvez tenha até comprado roupa para alguma quenga, mas nunca para a filha. Mas tem tanta gente que cresce assim, em “um lar desestruturado”, e supera e vira gente na vida. Eu tenho que pensar em mim e na varanda do apartamento. 

Mas dói muito. O governo que não faz porra nenhuma pelo cidadão devia providenciar um remédio, um comprimido, que eliminasse a vida sossegadamente. Ficar livre da máquina de lavar roupa é o paraíso. 

O que eu preciso para esquecer isso é de uma boa foda. Mas o esquecimento dura pouco. E aquele escritório de merda no hospital, dar bom dia para todos, uns hipócritas, uns incompetentes. Sou advogada, mas nunca quis me destacar em nada, nem nessa profissão, queria mesmo ficar apagadinha, e é assim, o departamento pessoal do hospital é foda, é muito trabalho, mas quase tudo rotineiro, daí sobre um pouco de tempo para pensar, eu lá queria ser advogada famosa e trabalhar vinte horas por dia, eu tenho hora para pegar minha filha na escola e tenho hora para levar no balé. Que não serve para nada, a menina é inábil como o pai, nunca vai ser bailarina, todas as meninas de todas as escolinhas de balé de todas as cidades nunca vão ser bailarinas. Perda de tempo. Dá pena ver a menina nas apresentações canhestras de final de ano. E as meninas jogadoras de futebol também nunca vão ser jogadoras famosas, tudo ilusão, vão casar com um safado e botar mais uma escrota de uma menina no mundo para casar e assim por diante e por diante. 

Queria era sumir, mas tenho hora no médico, vai dar câncer o exame, certeza.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Capítulo 25.2 – A batalha da planície

Capítulo 25.2 – A batalha da planície 

Aconteceu no décimo-terceiro ano do reinado de Serguei Semionov, que reinou sobre os hepatitas, com capital em Raged, a grande cidade do norte. Por outra parte, Astargad reinava sobre os lotonas, com capital em Betina, a grande cidade do leste. Em torno de Betina, Astargad edificou muralhas com pedras cortadas e esculpidas de três metros de largura e seis de comprimento. A altura da muralha era de setenta metros e a largura de cinquenta. Havia cinco portas na muralha. Ladeando cada porta, levantou duas torres de cem metros de altura, com bases de sessenta metros de diâmetro. Fez as portas de madeira e ferro, com setenta metros de altura, quarenta metros de largura e três metros de espessura, para a passagem de seu potente exército de infantaria e da cavalaria. 

Foi naquele ano que o rei Serguei Semionov decidiu fazer a guerra contra o rei Astargad. Os exércitos inimigos se encontraram na grande planície, situada na província de Rugau, na fronteira entre os dois reinos, uma área que ambos disputavam desde séculos. Os habitantes das montanhas, os habitantes das margens dos rios, os habitantes das planícies de Coria, terra dos elmênidas, reuniram-se às tropas de Astargad, porque este rei governava com mais sabedoria. Outros povos, em menor número, associaram-se ao rei Semionov. Dessa forma, numerosos povos juntaram-se para a grande batalha da planície de Rugau.