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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Capítulo 28.1 – Marie Cardona

Capítulo 28.1 – Marie Cardona 

É evidente que o meu cérebro sabia da existência do livro Meursault, contre-enquête, de Kamel Daoud (em português, O caso Meursault), que “apresenta o ponto de vista do irmão do árabe assassinado por Meursault” conforme consta na apresentação. Mas o meu cérebro havia esquecido que eu sabia e, quando da releitura de O estrangeiro, em algum momento imaginei como seria a história contada do ponto de vista de Marie Cardona – para mim, o personagem mais simpático da novela. 

O melhor de Marie é que ela desiste de Meursault. Não há motivo para continuar dedicando tempo e sentimento a alguém tão frio e incapaz de sentir. Faz muito bem Marie quando o esquece. Que apodreça. 

O narrador diz que ela não escrevia mais, também deve ter deixado de visitá-lo, quem sabe “cansada de ser a namorada de um condenado à morte”. Que importaria se Marie dava sua boca a um novo Meursault? pergunta-se o próprio.

A história de Marie Cardona, para mim, seria a narrativa de uma moça morena, bronzeada e bonita, solar e tropical, empregada no comércio, que gostava de mar e de cinema e de passear e de conversar e estar com amigos, ingênua até certo ponto. A moça cometeu o erro de gostar de um cara frio, um cara que não sabia amar, sem preferências, anódino. A moça gostou dele, pretendia que o amor o transformasse, mas ele nem acreditava em amor. A moça fez o possível para apoiar o cara, mas desistiu. O sol e o mar e os rapazes a chamaram, ela esqueceu o taciturno Meursault, sequer estava em Argel no dia da guilhotina. Três anos depois morava em Paris, entrou para a turma de Simone e Jean-Paul, eles souberam do relacionamento dela com o guilhotinado de Argel, o caso tivera alguma repercussão nos jornais. Marie fez sexo com ambos, separadamente, eram ciumentíssimos, embora afirmassem o contrário, Simone e Jean-Paul. Foi ao Brasil com Simone, conheceu Vinícius de Moraes e encetou um caso com ele. Abandonou Simone e viajou com Vinícius para Los Angeles, conheceu Carmem Miranda e chegou a se hospedar na casa dela. Passam-se os anos e Marie se torna uma ainda bela mulher madura, mais calma, trabalha na Unesco de Paris como tradutora. Casou-se, mas não quis ter filhos, separou-se e casou de novo. Marie morreu em 1992 em decorrência de complicações de um câncer de fígado. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O estrangeiro envelheceu muito mal

O estrangeiro, Albert Camus, 1942, 122 páginas na minha edição da Editora Record que eu comprei em 1990 por 8 dólares (está anotado na folha de rosto), com tradução de Valerie Rumjanek. 

O livro é simétrico e rigoroso: começa com uma morte, a da mãe; no exato meio do livro acontece uma morte, a do árabe, que é marcada pela música de Beethoven: as quatro batidas secas de destino na porta da desgraça; e na última página se anuncia a morte do protagonista e narrador. 

Para um livro tão calculado, restou um mistério: a história é narrada em primeira pessoa, porém o narrador foi condenado à guilhotina e será executado poucas horas após encerrar a narrativa. Como temos, então, acesso à narração? Nabokov resolveu tal situação descrevendo, no prefácio de um falso doutor, a forma como o manuscrito de Humbert Humbert veio à luz. Não há uma explicação assim em O estrangeiro, o que nos remete a algumas possibilidades: a) o autor não soube ou não quis explicar; b) o narrador não morreu, obteve uma comutação da pena capital. 

O protagonista e narrador é uma pessoa desagradável. É um maré-me-leva-maré-me-traz. Na primeira parte do livro, demonstra que tudo tanto faz: tanto faz casar ou não, tanto faz ser amigo de Raymond ou não, tanto faz escrever uma carta ou não, tanto faz conversar com Salamano ou não. Tanto faz andar na praia com sol a pino ou não, tanto faz matar um árabe ou não. Nada tem importância e tudo aconteceu por acaso. Todavia, na segunda parte, o narrador já demonstra que não é assim tanto faz: ele preferia estar livre, ir à praia com Marie, preferia que a pena capital fosse comutada. 

O protagonista é uma pessoa fraca, inclusive fisicamente. Ele sofria de enxaqueca. A luz o ataca como espadas: a luz que cegava, o brilho da luz das lâmpadas, o brilho do céu era insuportável, o dia cheio de sol o atinge como uma bofetada, o brilho do mar era insustentável, o sol na cabeça descoberta, o sol esmagador, a cabeça latejando de sol, o brilho vermelho. Sintomas claros de enxaqueca. Um bom médico teria evitado o crime. 

É um indivíduo fraco para o calor e o sol, é um homem do norte, de clima frio, deslocado na África. Se o narrador fosse um homem dos trópicos, o crime, se houvesse, teria outra motivação. No caso de Meursault, a fraqueza diante do calor e a enxaqueca o fizeram matar o “árabe”. O protagonista tem a cabeça fraca para os trópicos: o suor e a gordura dos trópicos o afetam de forma exacerbada. Uma pessoa hipersensível: sol, calor, gordura, a pele dos outros, tudo o afeta. 

Ademais, o livro é claramente racista e, a partir de uma visão “superior” ou “ocidental”, não percebe sequer as diferenças culturais: o narrador/autor não faz diferença entre árabes e mouros, usa as duas palavras indistintamente. Ele mostra os “árabes” sempre em grupo, não há indivíduos entre os “árabes”, e eles olham em silêncio, como se “nós” fôssemos pedras ou árvores. E qual a maneira que Meursault e seus comparsas olham para os “árabes”? Este assunto de mouros, árabes, bárbaros, remete a Otelo, que séculos antes também navegava em tais contradições. 

O julgamento de Meursault é bastante real, mesmo para os dias atuais – veja-se a série Os doze jurados, por exemplo. No julgamento do narrador, ele é julgado não apenas pelo assassinato do “árabe”, mas por todo o seu comportamento cotidiano. Algo que o autor pode ter usado para destacar o absurdo, mas que é comum em julgamentos. Não julgamos de modo objetivo e sim considerando nossas cargas de formação e cultura e aquelas do réu e da vítima. Não existe um julgamento objetivo, é ilusão. 

De todo modo, não resta dúvida de que um assassinato a sangue frio como aquele mereceria uma pena pesada, prisão perpétua ou a pena capital – visto que tal existia no país e na época. A justificativa para o assassinato tornava o crime ainda mais pusilânime: Meursault matou por causa do sol. 

Um livro que envelheceu mal, para mim, desde a primeira leitura que fiz dele. O protagonista é irreal demais, frente a realidade de Marie, de Raymond, de Céleste. Livro muito desagradável e preconceituoso.

sábado, 17 de outubro de 2020

Capítulo 26 – Desconexões

Capítulo 26 – Desconexões 

Em abril de 1954, Albert Camus leu O estrangeiro na Radio France 4 – foram 3 sessões na série Leituras à noite. No início do século XXI, as três sessões foram reunidas em três CDs, cada um com uma hora de duração. 

O estrangeiro, Albert Camus, 122 páginas na minha edição da Editora Record que comprei em 1990 por oito dólares (está anotado na folha de rosto), com tradução de Valerie Rumjanek. As pissoa não lê, as pissoa diz que não tem tempo de ler. É mentira. É preguiça. Um livro de 122 páginas pode ser lido em três horas, seguidas ou consecutivas. Tanta gente que gosta mesmo de leitura lê um livro por semana. 

Leona caminhou pela praia da cidade, mar de um lado e edifícios do outro, a maré estava baixa, muito baixa, era bom assim, a extensão de areia ficava maior, os prédios ficavam mais distantes, a abóbada parecia maior. Pedras que ela quase nunca via afloraram. Ela caminhava ao sol e pensamentos desconexos se conectavam. Meursault era um indivíduo doente, sofria de enxaqueca, a luz forte entrava em seus olhos e cérebro como lâminas. Meursault era um indivíduo do norte transplantado para a zona tórrida. Um moreno não seria afetado assim pelo sol a ponto de matar friamente por acaso. O mar afastava-se do continente. A Lua se afastava gradativamente da Terra. Quando não houver mais Lua, não haverá maré e o mar ficará sempre no mesmo nível. Em qual nível. Ela alimentava esperanças de que ficasse sempre no ponto mais baixo, assim, mais tranquilo, ela temia o mar e as ondas fortes. Cortázar escreveu uma historinha em que todos se tornam escritores e os livros findam por invadir toda a terra, e depois os oceanos, e os oceanos se tornam uma papa e depois solidificam e se pode caminhar sobre os antigos oceanos. Nabucodonosor, puto da vida com os povos inimigos, preparou um exército de cento e vinte mil homens, que mentira, e ordenou que matassem os inimigos em tal quantidade que os rios se encheriam de cadáveres e transbordariam. Coitado. 

Entrou no mar para fazer xixi, ondas fraquinhas e estava rasinho. Depois da caminhada, almoçou, tomou banho e dormiu um pouco, de tarde. 

O carro em que Camus estava, corria a cento e oitenta quilômetros por hora quando Gallimard perdeu o controle e espatifou o veículo contra uma árvore, depois outra, e Camus morreu tal morte absurda. Havia um cão no carro, mas ele não foi encontrado depois do acidente.

domingo, 11 de outubro de 2020

Castigo

Capítulo 20.2 – Castigo 

No fim e na essência, somos totalmente, absolutamente, completamente livres. Mas não acreditamos de verdade nisso. Podemos fazer qualquer coisa que quisermos, inclusive nos matar, a nós mesmos, e uns aos outros. De fato, já fazemos isso todos os dias.

Crime e castigo, Dostoiévski, explora essa ideia: o personagem afirma ser livre para matar sem qualquer motivo, mas não se revela a altura dos grandes pensamentos que o moveram ao crime; o remorso o corrói, ele sente necessidade de ser descoberto e castigado; consegue seu objetivo e termina na Sibéria com a insossa Sofia.

O conto O coração denunciador, Poe, segue o mesmo caminho: o homem mata sem motivo, mas o coração do morto, batendo e batendo nos ouvidos do assassino, fazem com que se entregue à polícia.

O estrangeiro, Camus, realiza melhor o projeto: não há arrependimento, viver ou morrer é igual, resta somente a indiferença – embora o personagem ainda espere, ao menos, o ódio de seus semelhantes no dia da execução da sentença.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Capítulo 17.2 - Camus Pessoa

Capítulo 17.2 - Camus Pessoa

Tabacaria é um poema de Fernando Pessoa, escrito em 15 de janeiro de 1928, e publicado em julho de 1933. Pessoa atribuiu o poema a Álvaro de Campos, um de seus heterônimos. O estrangeiro é o livro mais famoso de Albert Camus, publicado em 1942. Considerando-se as datas, Camus poderia já ter conhecimento do poema quando escrevia seu romance. Há um trecho em O estrangeiro que guarda semelhanças com o poema de Pessoa.

Em Camus, a janela do quarto dá para uma rua movimentada, há uma menina que passa, a tabacaria do outro lado da rua, há o chocolate, o dono da tabacaria, uma cadeira e o cigarro. A impressão que se tem é de uma reconstrução do poema de Pessoa, talvez involuntária, talvez proposital. Em Pessoa, os elementos citados, presentes na origem e, fantástico, a sensação de que “tudo isto é estrangeiro”. Eis o trecho de Camus:

Meu quarto dá para a rua principal do bairro. A tarde estava bonita. No entanto, a rua parecia oleosa, as pessoas esparsas e, mais, tinham pressa. Primeiro, eram as famílias que passeavam, [...] uma menina com um grande laço cor-de-rosa e sapatos de verniz preto. [...]

Depois deles, pouco a pouco, a rua ficou deserta. Acho que os espetáculos tinham começado em todos os lugares. Só se viam nas ruas os comerciantes e os gatos. O céu estava puro, mas sem brilho, por cima dos fícus ao longo da rua. Na calçada em frente, o dono da tabacaria pegou uma cadeira, instalou-a diante da porta e sentou-se a cavalo, apoiando-se com os dois braços no encosto. Os bondes, há pouco cheios, estavam quase vazios. No pequeno Café Pierrot, ao lado da tabacaria, o empregado varria a serragem na sala deserta. Era realmente domingo.

Virei minha cadeira e coloquei-a como a do dono da tabacaria, porque achei que assim era mais cômodo. Fumei dois cigarros, entrei para buscar um pedaço de chocolate e voltei para comê-lo à janela. Pouco depois, o céu escureceu e achei que íamos ter uma tempestade de verão. Pouco a pouco, no entanto, o céu se foi desanuviando. Mas a passagem das nuvens deixara sobre a rua uma promessa de chuva que a tornou mais sombria. Fiquei muito tempo olhando o para o céu.

O poema de Pessoa é longo, não vou repeti-lo aqui; apenas destacar versos que contêm as semelhanças que vislumbro.

Janelas do meu quarto,
[...]
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
[...]
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
[...]
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
[...]
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
[...]
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
[...]
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
[...]
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
[...]
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
[...]
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
[...]

Quod erat demonstrandum.

domingo, 4 de outubro de 2020

Estrangeiro

Capítulo 13 – Estrangeiro 

Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile : « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier. 

Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, eu não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Nossos sentimentos.” Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. 

Albert Camus, O estrangeiro. Minha tradução. 

Desde a juventude, me afeiçoei ao livro de Camus. Reli algumas vezes ao longo da curta vida. Livro de cento e vinte e duas páginas, possível de ler em um único dia. Bem como A metamorfose, Kafka, cem páginas. Dois livros fundamentais que se pode ler em um dia, e que ficam com a gente para a vida toda.