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sexta-feira, 4 de junho de 2021

Antígona, Sófocles

Antígona, Sófocles, século V a.C., 90 páginas, tradução de Mário da Gama Kury, Zahar. Lido em 27/05/2021.



Antígona é uma das tragédias que mais rende discussões e pontos de vista. Por isto, tão fascinante. Em Antígona, todos estão errados e todos estão certos – ou todas as posições geram conflitos. 

Após a morte de Édipo em Colono, Tebas entra em uma guerra civil. A guerra deriva do desentendimento entre Etéocles e Polinices, filhos de Édipo. Eles haviam concordado em dividir o poder na cidade: cada um reinaria um ano. Mas Etéocles recusou-se a devolver o trono a Polinices. Este procurou aliados em outras cidades e formou um exército para tomar o poder. 

Na batalha pela cidade, Polinices e Etéocles se matam mutuamente, e os deuses protegem a cidade, livrando-a dos inimigos. 

Creonte, irmão de Jocasta e tio dos irmãos mortos, frente ao vácuo de poder, assume o trono. Nós estamos muito distantes da cultura grega da época, mas devemos perceber que Creonte é um tirano no sentido grego: o tirano é alguém que assume o poder em situações excepcionais, mas que não deixa de lado a democracia e que pretende conduzir o governo para a volta à democracia (democracia grega, diferente do nosso entendimento). 

Creonte assume o poder e decide que Etéocles terá as honras fúnebres – pois defendia a cidade – enquanto o cadáver de Polinices será deixado exposto às aves e aos animais – visto que este tencionava destruir a cidade. 

Antígona, irmã dos dois mortos, decide que não vai se submeter às ordens de Creonte. Para ela, há uma ordenação maior, divina, e é necessário dar tratamento digno aos mortos. 

Creonte convoca os anciãos, como se fossem senadores, e comunica sua decisão. De certo modo, Creonte respeita um rito democrático. Todavia, ele desrespeita a cultura: a humanidade costuma honrar os corpos de seus mortos, independentemente de ordens divinas. 

Antígona desrespeita a lei civil, que considera menor que a lei divina (ou a cultura). Ela não questiona a legitimidade do poder de Creonte, mas se pode pensar que sub-repticiamente ela também desafia o poder do autoproclamado tirano-rei. 

O coro de anciãos parece ter medo de desafiar o novo rei. Um guarda, do corpo de guardas que foi encarregado de vigiar e garantir que o cadáver de Polinices não fosse enterrado, tem muito medo da ira do rei, e demonstra isso quando traz más notícias. 

Antígona exerceu honras fúnebres, incompletas até, ao corpo do irmão. Foi presa e levada para Creonte. Este a condena a uma morte indireta: ordena que seja aprisionada em uma caverna, mas com alguma comida. O filho de Creonte, Hêmon, namorado de Antígona, tenta convencer o pai do erro, mostrando que a população não concorda com a falta de respeito aos mortos e com a prisão de Antígona. Creonte não cede. 

Mais tarde, interpelado pelo adivinho Tirésias e aconselhado pelo coro de anciãos, decide reverter as ordens e enterrar Polinices e libertar Antígona. Mas é tarde: Antígona se matou na caverna. Creonte vai até lá e encontra o filho, Hêmon, que ataca o pai. Não consegue ferir Creonte, mas se mata, lançando-se sobre sua espada. Para completar a punição (dos deuses?) a Creonte, sua esposa também se mata ao saber da morte do filho. 

Observa-se como há riqueza de elementos nesta tragédia. Posso desafiar as leis civis em nome de crenças religiosas? E em nome da dignidade humana? E se as leis civis foram feitas de forma excepcional, em um período não de todo democrático? Polinices era um traidor? Etéocles foi um traidor? A maldição da família de Édipo foi responsável por todas as crises de Tebas? 

Muito foi escrito e pensado sobre Antígona e continuará sendo.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Édipo Rei, Sófocles

Édipo Rei, Sófocles, século V a.C., 125 páginas, tradução de Mário da Gama Kury, Zahar. Lido entre 01/04/2021 e 04/04/2021. Nota 3 (Bom).



A peça é famosa; quase todos conhecem o enredo do rapaz que mata o pai e casa com a mãe, sem saber que é filho de ambos. Oráculos profetizaram que o menino faria isso. Os mortais tentam evitar que a profecia se cumpra. Não conseguem. A peça mostra que os mortais não podem fugir ao destino que lhes foi traçado pelos deuses. 

A peça começa quando Tebas enfrenta uma época de peste e acontecimentos nefastos. Durante a peça, gradativamente, o leitor será informado pelos personagens acerca dos acontecimentos prévios. 

Laio e Jocasta, rei e rainha de Tebas, receberam a profecia de que o filho de ambos mataria o pai e casaria com a mãe. Para evitar isso, Laio manda jogar a criança de um precipício. O servo não executa a ordem e entrega a criança a um pastor de Corinto. Este entrega a criança ao rei e rainha de Corinto que a adotam como filho. O jovem Édipo vai ao oráculo e recebe a mesma profecia. Por isso, evita voltar a Corinto para não matar o “pai”. Em uma estrada, briga com um homem e o mata: era Laio, pai dele. Em seguida, Édipo decifra o enigma da esfinge, ser que atormentava a vida dos habitantes de Tebas. Ao chegar à cidade e contar da destruição da esfinge, entregam-lhe o trono da cidade e o casamento com a rainha Jocasta, que ele não sabia ser sua mãe. Édipo tem quatro filhos com Jocasta. A peça começa neste ponto. 

O rei Édipo vai às portas de Tebas ouvir os suplicantes que portam ramos. Sempre os ramos, ramos de Baco, de Judite, de Jesus, procissão de ramos. Tebas está totalmente transtornada. Há uma peste, os campos e as mulheres, estéreis. Creonte, cunhado de Édipo, consultou o oráculo de Delfos e está de volta. O oráculo disse que o assassino de Laio, antigo rei de Tebas, está na cidade. É necessária vingança. Édipo garante que vai encontrar o assassino. 

O profeta Tirésias não quer revelar quem é o assassino de Laio. Édipo insiste. Tirésias declara: tu és um maldito aqui, tu és o assassino que procuras, tuas relações torpes e sacrílegas são a causa da peste. Édipo acha que isso é uma armação de Tirésias com Creonte, irmão de Jocasta: Creonte tramou a minha queda. Jocasta intercede por Creonte. Jocasta afirma que os oráculos se enganam. Jocasta conta que Laio traspassou os tornozelos do filho e mandou jogá-lo do precipício por causa dos oráculos. Jocasta: Laio tinha traços teus. 

Édipo compreende quem é: lancei maldições contra mim mesmo. Édipo percebe que matou Laio, mas ainda não compreendeu tudo. Jocasta diz que não acredita mais em presságios. O coro reclama da descrença, como se os oráculos não valessem nada, pois perde-se a reverência aos deuses. Jocasta: os oráculos erraram porque o pai de Édipo, Pôlibo morreu de causas naturais. Édipo, em dúvida, concorda. E sobre a mãe de Édipo, ela diz: muitos mortais em sonhos já subiram ao leito materno. 

O mensageiro de Corinto diz que Édipo não é filho de Pôlibo e conta a história da criança. Jocasta: não penses nisto. Ela foge para o palácio, já compreendeu a terrível situação, Édipo ainda não. O coro ainda não viu a verdade e tem um momento de júbilo, o júbilo antes da catástrofe. O servo encarregado de matar a criança confessa que não o fez. 

Édipo compreende a extensão do drama. Jocasta se suicida, enforca-se. Édipo fura os olhos com os broches de ouro dela. Édipo não se matou, declara, porque não suportaria ver o pai e a mãe no outro mundo. Édipo pede a Creonte que zele por suas filhas. Pede para ser exilado, mas Creonte não permite, quer consultar os deuses sobre o que fazer. Édipo: os deuses me odeiam.

Édipo em Colono, Sófocles

Édipo em Colono, Sófocles, século V a.C., 125 páginas, tradução de Mário da Gama Kury, Zahar. Lido entre 17/04/2021 e 20/04/2021. Nota 3 (Bom).

Édipo em Colono – Jean Harriet Fulchran – 1798

Guiado por Antígona, Édipo, envelhecido e cego, chega a Colono, pequena localidade situada a três quilômetros da Acrópole (hoje, Colono é um bairro de Atenas, completamente urbano). Ele faz uma pausa em um bosque sagrado dedicado às Erínias. 

Depois de alguns anos em Tebas, Édipo foi expulso da cidade por seu filho mais velho, Polinices, rei da cidade. Desde então, Édipo vaga como um mendigo, com a ajuda da filha Antígona. 

Etéocles, o irmão mais novo de Polinices, com apoio da população, assume o governo de Tebas. Polinices foge, procura aliados e forma um exército para atacar Tebas. No ínterim, oráculos profetizam que o lugar onde Édipo morrer será favorecido pelos deuses. Éteocles, então, manda o tio Creonte e soldados buscarem Édipo onde ele estiver, à força, se necessário, e trazê-lo para morrer nas imediações de Tebas – a cidade continua proibida para Édipo. 

Toda esta trama se desenrola nas margens da peça e dela nós saberemos aos poucos, pela chegada dos personagens que vêm de Tebas. 

Inicialmente, chega Ismene, a outra filha de Édipo, para avisar que Creonte está vindo para buscá-lo. Creonte chega, captura as duas filhas e tenta levar Édipo. Todavia, Teseu, rei de Atenas, havia colocado Édipo sob sua proteção, e impede a captura de Édipo e traz de volta Antígona e Ismene. 

A seguir, Polinices, que expulsou Édipo, vem pedir a ajuda do pai na luta contra o irmão. Édipo amaldiçoa os dois filhos e profetiza que eles se matarão um ao outro. Nota-se que, a partir de certo ponto de sua vida, Édipo começou a profetizar e a perceber os sinais dos deuses, uma característica dos cegos na mitologia grega. Polinices pede a Antígona que lhe providencie um funeral adequado, quando ele morrer. 

Édipo sente que a morte se aproxima. Acompanhado apenas de Teseu, vai à entrada do Hades e é levado, sem passar pelos padecimentos da morte, aparentemente. A cidade de Atenas fica, então protegida e favorecida por Édipo e pelos deuses. 

As filhas de Édipo iniciam seu retorno a Tebas, para tentar “deter a marcha da carnificina” entre os irmãos. 

A peça tem muitas argumentações sobre a velhice e a culpa. Édipo afirma não ter culpa dos crimes cometidos, visto que agia sem saber a verdade sobre os pais. A peça demonstra que os humanos são marionetes nas mãos dos deuses. As Erínias, as deusas vingadoras, estão presentes na origem e no desenrolar dos acontecimentos. Édipo foi punido durante sua vida após os crimes e, ao final, parece contar com a benevolência de Zeus. 

Cabe um adendo sobre as deusas pavorosas: 

As Erínias desempenham relevante papel na trajetória de Édipo, sem aparecer. Em Colono, Édipo chega ao bosque consagrado a elas, as deusas que não podem ser nomeadas. As Erínias são chamadas, então, de “as Benevolentes”, Eumênides, para evitar o epíteto tenebroso. São as Fúrias dos romanos. Fazem parte do grupo mais antigo de deuses e portanto não reconhecem a autoridade dos deuses mais jovens. Sua função essencial é a vingança dos crimes, especialmente os crimes cometidos contra a família. Neste sentido, desempenham papel importante nas maldições que pesaram sobre Édipo. 

Também castigam a hybris (húbris: excesso) dos humanos (o excesso de orgulho, presunção e arrogância, especialmente contra os deuses) que levam o homem a esquecer que é mortal. Elas impedem os adivinhos e profetas de revelar o futuro com demasiada precisão, impedindo-os de tirar os humanos da incerteza em que se encontram. 

Uma das suas funções essenciais é castigar os assassinos, mesmo os involuntários. Os homicidas são banidos e vagam errantes até o momento em que se aceita purificá-los. 

Enfim, esta peça parece ser menos conhecida que as duas outras da Trilogia Tebana, mas é de fácil leitura, traz profundas discussões, e faz compreender melhor o destino de Édipo e o fechamento da tragédia com Antígona.