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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Beira-mar

Conversa à beira-mar. A grandiosidade de Jorge Amado, o Nobel de Literatura é como o Oscar, uma bobagem, ninguém recorda quem ganhou o Oscar no ano passado e retrasado e assim por diante, bem como o Nobel, ninguém recorda, um ou outro marcante fica na memória, marcante pela justiça, Saramago, ou pelo despropósito, aquele cantorzinho fanho, Jorge Amado não ganhou Nobel porque há preconceito contra o escritor que vende muito, mesmo que seja excelente escritor, caso de Amado. Vê só quem ganha Nobel hoje em dia, ninguém nunca ouviu falar, deve ter vendido uns dez livrinhos em seu país. Amado não ganhou, também, porque somos periféricos e o Nobel pertence ao hemisfério lá de cima, especialmente europeus e estadunidenses. Amado vendia, vende muito, e as histórias são ricas, os coronéis do interior nas suas lutas sangrentas de poder, a perda gradativa desse mesmo poder, misturado com a sensualidade e a comida, e não só isso, claro. Olha como aquele cachorro gosta da água do mar, e aquela criança correndo para as ondas e os pais confiantes lá em cima no guarda-sol, que perigo, vamos desviar desses dois jogando na praia, é proibido jogar na praia, mas o povo ignora proibições. Os filmes, o problema da maior parte dos filmes feitos hoje é a falta de um bom roteiro, tem tanto livro bom que podia virar filme, mas os roteiros são os mesmos, são esquemáticos, as mesma histórias, a gente adivinha o que vai acontecer, ou são roteiros sem pé nem cabeça, mil tiros, perseguição de veículos, a pé, brigas, e os diálogos, corra, vá, fuja, por aqui. Ainda bem que a gente pode escolher filmes nos cardápios, imagina quem só tem a tevê aberta, a tevê aberta vai morrer, vai não, vai ficar cada vez pior, exclusivamente para os mais pobres e para as salas de espera, os hotéis mais pobrezinhos do interior dispõem de pelo menos um canal de notícias e um canal de filmes, tevê aberta é o lixo, lembra quando a gente ligava e ficava procurando o que ver e não havia nada. Que biquíni minúsculo, corajosa. Não estou vendo os guarda-vidas, só as bandeiras de perigo, colocaram as bandeiras e foram para casa ou vagabundar. Há preconceito contra Paulo Coelho, veja só, o povo aceita ler Harry Potter, Stephen King, mas mete o cacete em Paulo Coelho. O Nobel, não que Paulo merecesse ganhar, mas o Nobel só vai para desconhecido, cadê que Philip Roth ganhou, cadê Ian McEwan, se o cara vender livros não presta para os empoados nórdicos. Jorge Amado adorava um Bataclan, e quando ele fez Tieta mudar o nome do Nid d’Amour para Refúgios dos Lordes, e era lá no tal Refúgio que as grandes negociatas dos políticos aconteciam, como deve ser até hoje, esses escroques fazem seus negócios sujos nos bordéis. E quando aquele Coronel Jesuíno matou a mulher e o dentista e não queria ir a julgamento, e foi, e foi condenado, Amado mostrou que, mesmo devagar, as coisas mudam. É, mas hoje parece que o mundo está girando ao contrário, a ciência e os fatos desacreditados, a gente está indo para o Medievo, é, vamos entrar no mar, a água está delícia, vem.

terça-feira, 30 de junho de 2009

das coisas perdidas

ricardo hoje está se despedindo do mundo. hoje em dia. ele vem se despedindo do mundo - assim como o personagem de roth em "fantasma sai de cena". exit ghost.
ricardo, você já sabe, não lê jornais, não vê notícias de tv, mais relê que lê, mais ouve as velhas músicas que as músicas novas.
naquilo que se refere a algo assim chamado arte contemporânea, ele hoje não tem mais nenhum interesse nisso, nem mesmo curiosidade. ele se interessa por boa arte, se houver, bidimensional de preferência, desenho e fotografia, ambos em preto e branco, de preferência.
hoje, ainda, ele parece prescindir da aprovação de qualquer pessoa, pares ou não, amigos ou não.
ele simplesmente desenha e desenha e quando está disposto escaneia e coloca em álbum virtual para que os desconhecidos vejam. não avisa a amigos ou conhecidos, não tem interesse em expor, não tem interesse no mundo real, qualquer deles.
não tem mais interesse no mundo cotidiano real, se houver, de aspirações, de bravatas, de fortes emoções. suas maiores lutas se desenvolvem em dois campos: no papel com a caneta nanquim preta e no tabuleiro de xadrez.

domingo, 28 de junho de 2009

fantasma sai de cena - trecho


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henrique sábado domingo. dias que passaram em branco. henrique fez desenhos, esses ele ainda não escaneou. entabulou jogos de xadrez. leu livros, trechos. pensou na morte próxima. pensou na morte que se aproxima. sonhou com a morte, era uma mulher. a mulher, que era a morte, no sonho, se aproximava da cama na qual henrique dormia. ao mesmo tempo em que dormia via que a mulher se aproximava da cama. ela se curva um pouco para acordá-lo, e na vida real, o sonho acaba, ele acorda. sonhos sempre esquisitos, misturam tempo espaço.
outro sonho. existe uma mulher, não é a morte-mulher, uma mulher que na vida real ele não conhece, mas no sonho conhece e parece que conhece há muito tempo. há um sensação dolorosa de tempo. de querer aquela mulher há muito tempo. no sonho, ele tenta falar com a mulher muitas vezes (muitos dias? em um só dia?). o sonho é angustiado, ele não sabe onde a mulher está, não consegue lhe falar. não sabe se ela dorme, não sabe se está morta, não conhece o quarto em que ela dorme, se dorme.
depois de tentar falar-lhe tantas vezes, procurá-la, consegue encontrá-la, é uma sala de paredes de vidro com cadeiras pretas. henrique está sentado em uma das cadeiras, ela está na sala mas ele não a vê, ouve apenas sua voz. discutem. ele diz que estava angustiado, preocupado, sem saber dela, sem saber se estava viva ou morta. ela diz que ele é quem se afastou e a deixou só, ela responde com uma frase que encerra o sonho, e quando henrique acorda essa frase fica ressoando na sua cabeça. ela disse:
"tudo que tenho é a sua ausência".
henrique encontrou o seguinte trecho no livro de roth, "fantasma sai de cena":
"(...) desde que voltara ao quarto, só fizera me sentar diante da pequena escrivaninha junto à janela, olhar para o trânsito da 53rd street e registrar mais uma vez, no papel de carta do hotel, o mais depressa possível, a conversa que eu não tinha tido com jamie. no meu caderno de tarefas eu anotava o que tinha feito e o que precisava fazer, para ajudar a memória cada vez mais fraca; esta cena de diálogos jamais ocorridos registrava o que não fora feito e não ajudava nada, não aliviava nada, não realizava nada. no entanto, tal como na noite da eleição, me parecera terrivelmente necessário escrever assim que entrei no quarto, pois as conversas que não tive com ela me emocionam mais do que as conversas que tivemos de fato, e a "Ela" imaginária ocupa um lugar intenso no meio da personalidade dela que a "ela" verdadeira jamais ocupará.
mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? não para algumas pessoas. para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante."

domingo, 21 de junho de 2009

fantasma sai de cena - philip roth


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essa imagem acima, um desenho virtual criado no longínquo
ano de 2005, outubro, é um mapa onde, em amarelo,
aparece o caminho que vai da casa onde H morava até o
cemitério da sua cidade.
em azul, o rio capibaribe.
parece ser uma boa imagem para acompanhar o parágrafo
do livro "fantasma sai de cena", de philip roth, que vou
transcrever, já que esse livro fala do final da vida, do final
das aspirações, talvez.
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seguem o primeiro e o segundo parágrafos:
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"fazia onze anos que eu não ia a nova york. com exceção da viagem a boston para remover uma próstata cancerosa, eu passara aqueles onze anos praticamente sem sair de casa numa estrada rural nos montes berkshire, e além disso pouco lia jornal ou ouvia o noticiário, desde o onze de setembro, três anos antes; sem nenhuma sensação de perda - apenas, no início, uma espécie de ressecamento interior - eu deixara de habitar não apenas o mundo maior mas também o momento presente. o impulso de estar nele e fazer parte dele, eu já havia matado muito antes.
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agora, porém, peguei o carro e fui até o mount sinai hospital, em manhattan, uma distância de duzentos e dez quilômetros, para consultar um urologista que se especializara em uma técnica voltada para milhares de homens como eu, vitimados pela incontinência urinária causada pela cirurgia da próstata. introduzindo um cateter na uretra e injetando uma forma gelatinosa de colágeno no ponto onde o colo da bexiga se encontra com a uretra, ele havia conseguido melhoras significativas em cerca de cinquenta por cento de seus pacientes. não era uma estatística muito animadora, ainda mais porque as "melhoras significativas" não passavam de um alívio parcial dos sintomas - a incontinência grave se transformava em incontinência moderada, ou a moderada em leve. assim mesmo, como os resultados obtidos por ele eram melhores do que os de outros urologistas que empregavam mais ou menos a mesma técnica (não havia nada a fazer sobre a outra sequela da prostatectomia radical que eu, como dezenas de milhares de pacientes, não tivera a sorte de evitar - lesão dos nervos resultando em impotência), fui a nova york para consultá-lo, quando me considerava adaptado havia muito tempo às inconveniências práticas da incontinência."

quinta-feira, 18 de junho de 2009

me alonguei, perdão


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recife 2009 junho 17 quarta-feira.
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reler me traz novas observações que eu não havia
observado antes.
releio sem motivo.
quando não comprei um novo livro, ainda, como agora,
pego o primeiro que aparece na frente, lá em casa.
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o avesso da vida, que estou relendo, relendo saltando e salteado,
era bom até fazer um esqueminha do livro, que pode ser melhor
do que irei fazer aqui.
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em um capítulo, henry teve maria como amante, tem wendy,
e morre em uma cirurgia cardíaca aos trinta e nove anos apenas.
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em outro capítulo, henry escapa da morte após a cirurgia,
mas cai em depressão, o médico diz que cirurgia cardíaca dá isso,
uma depressão imensa, às vezes.
com isso, ele abandona tudo relativo a sua vida pregressa.
meu amigo médico disse que isso é verdade:
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"quanto à cirurgia cardíaca é fato a questão da depressão,
pois além da grandiosidade do procedimento,
o paciente se questiona sobre várias coisas que às vezes
têm grande valor subjetivo
(o tórax é aberto, o coração é invadido, etc.)
e a recuperação é um pouco dolorosa.
além disso, muitos pacientes tem a personalidade alterada
após o procedimento, ficam mais agressivos,
outros mais pessimistas e outros, paradoxalmente, mais felizes.
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em outro capítulo, é o irmão de henry que morre
durante cirugia cardíaca.
em outro capítulo, é o irmão de henry que conhece e se apaixona
por maria.
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porém, essa maria, apesar do nome e de alguma semelhança
com a primeira, é personagem diferente.
a maria de henry descobre prazer no sexo anal com henry,
justamente, com o marido ela não fazia,
e a maria de henry curte o fetiche, assim como roupas especiais,
corpetes.
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a maria do irmão de henry, não tolera sexo anal,
não quer de forma alguma e não entende esse troço
de fetiches, vestir alguma fantasia.
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me alonguei, perdão.

terça-feira, 16 de junho de 2009

avesso da vida


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recife 2009 junho 16.
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a vida cotidiana se repete, uma obviedade,
não há o que descrever,
o fazer diário, café da manhã, almoço, café da noite.
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personagens de livros geralmente não têm problemas
financeiros, quem quererá ler sobre problemas financeiros?
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o dentista de "o avesso da vida" de philip roth
não tem problemas financeiros. o problema dele é
não ter tido a coragem necessária e suficiente para
abandonar a esposinha e três filhos e mudar-se
para a suíça com seu grande amor, amante, maria.
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maria, uma mulher muito mais voluptuosa que carol,
a esposinha. ora, a amante, qualquer amante há que ser
voluptuosa, a libertinagem é própria dos amantes.
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o problema do dentista se repete, depois de se resignar
e permanecer com a esposinha, o problema se repete
com wendy, nova amante, amante muito mais nova
que ele, assistente em seu consultório,
uma mulher mais voluptuosa,
ainda mais voluptuosa, ainda mais "dada a libertinagens",
como diz o dicionário sobre a voluptuosidade,
wendy, com esse nome de peter pan,
ainda mais voluptuosa que maria
e muito mais do que carol.
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wendy tem uma fixação no prazer oral,
em dar e receber prazer oral.
esse personagem me faz recordar e ter saudade
e ter tesão de uma mulher, uma wendy que conheci,
fascinada pelo prazer oral.
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a boca, essa mucosa.
a insatisfação das mucosas.
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esse livro, "o avesso da vida", "the counterlife",
não o melhor de roth, com capítulos muito chatos
e muito malucos, mas que vale a pena demais ler,
ler apenas pelo primeiro capítulo onde a história
do dentista é esmiuçada.
o livro tem cinco capítulos, cada um é quase um conto
ou um pequeno livro,
o primeiro é excelente,
o resto irregular.