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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Um ponto delicado do ciclismo

Por JOHN TIERNEY- do New York Times
Como a maioria dos ciclistas, Robert Brown, no início, não viu necessidade de mudar o selim da mountain bike que ele pedalava há cinco anos em tempo integral em patrulhas para a polícia de Seattle. Quando pesquisadores do Instituto Nacional para Segurança e Saúde Ocupacional (Niosh na sigla em inglês) propuseram novos selins sem bico, destinados a evitar a disfunção erétil, ele disse a seu supervisor: "Não tenho problema disso!"
Mas, depois de experimentar o novo selim, ele sentiu a diferença. Seu peso repousava sobre seus ossos pélvicos, em vez da área da virilha, que antes pressionava o bico do selim.
Durante o sono, quando ele estava sendo monitorado, a medição conhecida como "porcentagem de tempo ereto" aumentou de 18% para 28%.
Os resultados o fizeram mudar permanentemente p ara um selim sem bico, assim como a maioria dos policiais da patrulha ciclista de Seattle e das outras cidades que participaram da experiência de seis meses. Mas eles tiveram pouca sorte em converter os colegas, como se queixa Brown no número do boletim da Associação Internacional de Polícia Ciclista.
"O assunto sempre provoca risadinhas juvenis", ele escreve. "Eles nem escutam o tempo suficiente para compreender que parte da anatomia do homem está sendo protegida."
É a área de tecido macio chamado períneo, e não é apenas um problema masculino -ciclistas femininas também relataram dores e amortecimento nessa região genital. Mas nenhum dos sexos parece interessado nesses selins.
"Existe tanto pênis dentro do corpo quanto fora", explicou Steven Schrader, o fisiologista reprodutivo da Niosh que fez a experiência com os policiais. "Quando se senta em um selim comum, está sentado sobre o pênis."
Segundo as medições do doutor Schrader, 25% a 40% do peso do corpo é colocado sobre os nervos e vasos sanguíneos próximos à superfície do períneo. "Essa parte do corpo não deve suportar pressão", disse o doutor Schrader. "Em poucos minutos, os níveis de oxigênio no sangue caem 80%."
Ele descobriu que policiais que patrulham em bicicletas com selins convencionais tendiam a ter ereções menos duradouras do que não ciclistas. Em estudo de 2008 intitulado "Cortando o nariz para salvar o pênis", ele relatou que depois de seis meses usando selins sem "nariz", os policiais se queixaram de menos amortecimento enquanto pedalavam, maior sensibilidade e melhor função erétil.
Em outro estudo, as doutoras Marsha Guess e Kathleen Connell, que são uroginecologistas da Universidade Yale, descobriram que mais de 60% das mulheres ciclistas que usavam selins com bico relataram sintomas de dores genitais, amortecimento e irritação.
A evidência acumulada levou a Niosh a recom endar que os policiais e outros trabalhadores com bicicleta usem selins sem bico, que colocam a pressão sobre os "ossos de sentar". 
Exemplos incluem BiSaddle (usada por Brown), I.S.M., Hobson Easyseat, Spiderflex e Ergo's The Seat.
Mas poucos ciclistas estão prestando atenção. "Suponho que exista um pequeno nicho de pessoas para quem um selim sem bico poderia ser a solução", disse Peter Flax, editor-chefe da revista "Bicycling". "Mas um selim sem bico tem verdadeiros problemas em termos de função. Um ciclista pode fazer curvas usando o peso dos quadris contra o bico."
Brown e outros policiais insistem que aprenderam a manobrar com selins sem bico. E as pessoas nas aulas de spin não precisam conduzir as bicicletas para lugar nenhum; por que continuam sentadas sobre o períneo?
Jim Bombardier, que vive em Portland, no Oregon, e inventou a BiSaddle, foi às lojas armado de trabalhos científicos e desenhos, mas ninguém se interessou . Um dono de loja olhou para seu novo selim e resumiu o problema: "Este selim é um anúncio de 'Eu tenho um problema'. Quem quer isso em uma loja de bicicletas?"

Biografia de um chimpanzé - NYT

Por NICOLAS RAPOLD - New York Times
Que significado teria para um animal o fato de ele falar? O que de fato diferencia o animal do homem? Essas perguntas foram levantadas em um documentário novo sobre um chimpanzé chamado Nim Chimpsky que foi o sujeito de um experimento linguístico radical na década de 1970.
O filme, "Project Nim", deve seu nome ao estudo, que começou em 1973 com o chimpanzé Nim, na primeira infância, quando viveu com uma família de Manhattan e terminou, após muitas provações, em um santuário para animais no Texas, onde ele morreu em 2000.
"Como é o caso em biografias, você focaliza uma vida e encontra outras vidas no turbilhão da primeira", disse o diretor James Marsh, cujo documentário de 2008 "O Equilibrista", sobre Philippe Petit, que caminhou sobre um cabo de aço entre as torres gêmeas do WTC, recebeu um Oscar. Assim, "Project Nim" passa a tratar tanto das emoções humanas que cercam seu protagonista quanto do próprio Nim.
Marsh extraiu dos participantes no projeto um relato franco sobre erros e acertos cometidos ao longo da vida do chimpanzé. Entre os participantes estão Herbert Terrace, o ambicioso professor da Universidade Columbia, em Nova York, que fez com que Nim fosse criado como uma criança, e Stephanie LaFarge, antiga aluna que recebeu o primata em sua casa e em sua família de sete filhos e um marido.
Entre as outras personalidades estão Laura-Ann Petitto, a estudante que assumiu a educação de Nim quando ele cresceu demais para viver em um apartamento, e Bob Ingersoll, o companheiro de Nim depois da transferência abrupta dele, em 1977, para o Instituto de Estudos de Primatas da Universidade do Kansas, após a decisão de Terrace de pôr fim ao experimento.
O nome dado a Nim foi uma ironia com o linguista Noam Chomsky, que tinha afirmado que o uso pleno da linguagem é inato apenas nos humanos. Ao fazer Nim aprender a usar a linguagem de sinais, Terrace visava demonstrar que o chimpanzé era capaz de formar frases completas.
As brechas espantosas de preparo cometidas sob a direção de Terrace empurram a ciência para o segundo plano de uma história de hýbris, desejo, altruísmo e poder. Marsh sugere paralelos nos mundos animal e humano. À medida que vai crescendo, Nim vai tornando-se mais agressivo, enquanto Terrace emerge como um líder volúvel e envolvido com Petitto. 
"Uma das primeiras coisas que você aprende sobre chimpanzés é que há uma estrutura de poder muito precisa no interior de seus grupos", disse Marsh. Elizabeth Hess, que escreveu o livro lançado em 2008 "Nim Chimpsky, the Chimp Who Would Be Human" (Nim Chimpsky, o chimpanzé que quis ser humano) e foi consultora de "Project Nim", comentou: "Não é uma história bonitinha sobre um chimpanzé. Uma coisa que gostei no filme é que James se recusou a sentimentalizar Nim de qualquer maneira" (o filme está em exibição em Nova York e Chicago, vai estrear na Irlanda e no Reino Unido em 12 de agosto e será exibido pela HBO em 2012).
Um dos defensores mais acirrados de Nim foi Ingersoll, estudante da Universidade do Kansas que trabalhou com o chimpanzé.
"Considero Nim o melhor amigo que tive em toda minha vida", disse Ingersoll por telefone. Em Nova York, Nim chegou à capa da revista "New York", apareceu em "Sesame Street", da televisão, e até mesmo na "High Times", uma revista para fumantes de maconha, graças a um hábito que aprendeu na família de LaFarge.
Mas o comportamento semelhante ao de um humano do chimpanzé ocultava sua existência infeliz: preso em uma terra de ninguém, tendo sido criado como garoto, mas confinado como um animal.
"Terrace diz -não no filme, mas na entrevista-, 'se eu o ensinasse a falar, eu o controlaria'. E isso foi altamente revelador: a linguagem como instrumento de controle, não como comunicação", recordou Marsh (Terrace acabou por argumentar que, em lugar de formar frases, Nim meramente emulava respostas apropriadas).
"Há comédia e sátira implícitas na história", acrescentou Marsh. "Mas não estou certo de quem é o alvo da piada. Acho que, em última análise, foi o chimpanzé."