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sexta-feira, 21 de maio de 2021

Felicidade clandestina, Clarice Lispector, 1971

Felicidade clandestina, Clarice Lispector, 1971, 160 páginas, Rocco. Início: 18/05/2021 – Fim: 19/05/2021. Nota 2 (Regular).


Livro bem rápido de ler, contos curtos, uns poucos memoráveis, alguns bem fracos. O livro dá a impressão de ter sido alinhavado entre textos esquecidos nas gavetas – apesar dos dois ou três contos mais marcantes, que fazem valer a pena a leitura do livro.

Resumo dos contos.

Felicidade clandestina. Uma menina no Recife anseia pelo livro “Reinações de Narizinho” que uma amiguinha prometeu emprestar. Ótimo conto, o amor aos livros, a ansiedade por ter em mãos um livro desejado; é bom ouvir sobre Monteiro Lobato sem esse olhar torto atual. 

Restos do carnaval. Uma menina no Recife anseia pelos três dias de carnaval, embora para ela o carnaval é olhar o carnaval da porta do sobrado onde mora. Até que um certo domingo de carnaval, ela consegue uma fantasia de papel crepom. Muito bom. 

Come, meu filho. Criança tenta enrolar a mãe para não comer. 

Perdoando Deus. Mulher em Copacabana passa por uma epifania que é cortada abruptamente. 

Com anos de perdão. Menina que rouba rosas e pitangas. 

Uma esperança. O inseto verde que entra na sala da casa da narradora. 

A criada. Observação de uma jovem empregada doméstica ensimesmada. 

Menino a bico de pena. Um bebê, sua completa dependência da mãe, suas tentativas de comunicação. Muito bom. 

Uma história de tanto amor. Uma menina que amava muito suas galinhas. 

As águas do mundo. As sensações de uma mulher ao entrar no mar, isolada, mal nasce o dia. 

Encarnações involuntárias. Uma mulher que exerce o mimetismo compulsoriamente. 

Duas histórias a meu modo. Fraco exercício de escrita no qual a autora reconta uma história de outro autor. 

O primeiro beijo. Garoto conta à primeira namorada como foi seu primeiro beijo, sutil descoberta da masculinidade.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Lispector & Woolf

Isabel Castellar:

No conto “A imitação da rosa”, do livro “Laços de família”, Lispector, Clarice, percebe-se que a personagem principal, uma mulher, teve algum tipo de crise, da qual se recuperara e, naquele momento, “as pessoas felizmente ajudavam a fazê-la sentir que agora estava “bem”.” Ela achava contraditórios os conselhos do médico porque, por um lado, dizia que não deixasse o estômago vazio, isso causa ansiedade, tomasse um copo de leite entre as refeições, o que ela fazia religiosamente, mesmo sem ansiedade; por outro, o médico dizia que não forçasse nada, que tudo viria com naturalidade; então, ela tentava tomar o copo de leite obrigatório com naturalidade. No entanto, a contemplação de um buquê de rosas fez a “crise” voltar, aquele “algo” voltou, e ela disse ao marido “não pude impedir”, e ela se tornou “luminosa e inalcançável”, “alerta e tranquila como num trem. Que já partira.”

E eu pensei: “a vida de esposa e dona de casa é mesmo enlouquecedora”.

Curiosamente, em Mrs. Dalloway, Woolf, Virginia, a gente encontra o personagem Septimus, que “havia dito: ‘Vou me matar’, e isso era algo horrível de se dizer.” A mulher de Septimus não quer que o vejam, eles estão na rua, e o leva para um parque, porque “é melhor esconder o fracasso.” Passa um avião e a mulher: “Veja, Septimus, veja!, exclamou. Pois o dr. Holmes havia recomendado que procurasse desviar a atenção do marido (que no fundo não tinha nada de grave e estava só um pouco descompensado) para coisas que o afastassem de suas preocupações.” Acontece que todas as árvores, folhas e galhos estavam iluminados e acenavam para Septimus. Todavia, ele não queria enlouquecer, ele tentava fechar os olhos para não ver mais nada e não conseguia. E a esposa não aguentava mais: “Para ela , melhor seria que ele estivesse morto! Não conseguia ficar sentada a seu lado quando ele ficava com esse olhar tão fixo, sem vê-la, que tornava tudo terrível”.

E eu pensei: “a vida de maridos e esposas é mesmo enlouquecedora”.