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terça-feira, 16 de março de 2021

Antônio e Cleópatra, William Shakespeare, 1607

Antônio e Cleópatra, William Shakespeare, 1607, 174 páginas, tradução de Beatriz Viégas-Faria, L&PM. Início: 09/03/2021 – Fim: 12/03/2021. Nota 3 (Bom). 



A história de Otávio, Antônio e Cleópatra, na visão romantizada de Shakespeare. 

A peça retrata a época em que o império romano era governado pelo triunvirato composto por Antônio, Otávio e Lépido. 

Antônio dominava a parte oriental do império romano e vivia com Cleópatra no Egito. A mulher de Antônio, Fúlvia, iniciou uma guerra contra Otávio, em Roma, querendo atrair Antônio de volta. Fúlvia perdeu a guerra e morreu doente pouco depois. Antônio volta a Roma para negociar com Otávio (o futuro Augusto César). Como sinal de reconciliação entre ambos, Antônio aceita se casar com a irmã de Otávio, Otávia. O casamento dura oito anos. Mas Otávio e Antônio se desentendem novamente, e Antônio vai de vez para os braços de Cleópatra, abandonando Otávia. 

Otávio inicia uma campanha militar contra Antônio. Na Grécia, durante a batalha naval de Áccio, Cleópatra foge do confronto com a frota egípcia e Antônio, enlouquecido, vai atrás dela em seu navio, abandonando sua frota e seu exército no fragor da batalha. 

Otávio se dirige ao Egito para combater o casal de amantes. Durante as batalhas, Antônio se mata. Cleópatra iria ser levada em triunfo por Otávio, mas ela se mata antes.



A peça reconta fatos históricos, embora ainda hoje restem dúvidas sobre alguns pontos. De todo modo, um defeito da peça é fazer parecer que tudo aquilo aconteceu em sequência, de forma rápida e encadeada. Não foi assim; por exemplo, Antônio ficou casado com Otávia durante oito anos, e Otávio só foi ao Egito um ano depois da batalha de Áccio. 

Para mim, o que mais se destaca na peça é a ambiguidade de Cleópatra e a instabilidade emocional e a flutuação de emoções de Antônio. Em dado momento, Cleópatra é um rouxinol para Antônio; no momento seguinte, é uma rameira. A Cleópatra da peça é ambígua quando a tragédia se aproxima: parece gostar de Antônio e, ao mesmo tempo, parece tentar se salvar da catástrofe. 

Como sempre acontece em Shakespeare, a peça tem diversos momentos cômicos e sarcásticos, principalmente ligados ao personagem Enobarbus, auxiliar de Antônio. Apesar das falas irônicas, Enobarbus tem um final trágico: ele deserta das tropas de Antônio, passa-se para o lado de Otávio, mas se arrepende e se mata. 

Antônio revela-se um personagem fraco, um indivíduo que não consegue se desvencilhar da paixão excessiva por Cleópatra. O ponto mais baixo de sua trajetória é abandonar seus comandados durante a batalha de Áccio para seguir a egípcia. 

Um dos trechos mais curiosos da peça acontece quando o Bardo fala da própria peça. Ao descobrir que será levada prisioneira para ser exibida em triunfo por Otávio em Roma, Cleópatra diz a uma de suas servas: 

“Cleópatra: Agora, Iras, o que pensas disso? Tu, uma boneca egípcia a ser exibida em Roma tanto quanto eu. Escravos, trabalhadores quaisquer, de aventais gordurosos, réguas e martelos irão nos erguer no ar para que todos nos vejam. No mau hálito deles, vamos sentir o cheiro de comida barata; seremos obrigadas a respirar naquela nuvem quente do bafo dos plebeus que nos cercam. 

Iras: Que os deuses não permitam uma coisa dessas! 

Cleópatra: Não, Iras, isso é certo. Litores lascivos e insolentes vão pensar que somos rameiras, e maus poetas vão escrever baladas ruins sobre nós. Os bons comediantes, de improviso, põem nossa história no palco e apresentam “Orgias de Alexandria”. Antônio será representado bêbado, e eu vou assistir à Cleópatra esganiçada de um rapazote, toda a minha majestade em pose de puta.” 

 

Resumo.

 

Ato 1

 

Cena 1. Egito. Antônio ignora mensagens de Roma, fascinado por Cleópatra. Ela demonstra raiva por ele e pela esposa dele.

 

Cena 2. Egito. Brincadeiras entre os servos. Antônio recebe a mensagem de que Sexto Pompeu ameaça o triunvirato e de que Fúlvia morreu, e decide voltar à Roma.

 

Cena 3. Egito. Antônio comunica a Cleópatra a necessidade da viagem.

 

Cena 4. Roma. Otávio e Lépidus preocupam-se com Pompeu e com a ausência de Antônio, enfeitiçado pela cigana. “Antônio não pode de modo algum desculpar-se por seus estigmas quando somos nós que suportamos todo o peso de sua leveza.”

 

Cena 5. Egito. Cleópatra recebe notícias de Antônio.

 

Ato 2

 

Cena 1. Sicília. Pompeu e Menas discutem sobre o confronto com Roma. “Ignorantes de quem somos, muitas vezes nós imploramos pelo que nos será danoso, coisa que as forças sábias nos negam para nosso próprio bem; então descobre-se que saímos lucrando ao não serem atendidas as nossas preces.”

 

Cena 2. Roma. Antônio e Otávio esclarecem os conflitos entre eles. Lépidus é mero acompanhante. Acerta-se o casamento de Antônio com Otávia, irmã de Otávio. Sobre Cleópatra: “Sabe-se que as coisas mais vis tornam-se atraentes nela, e os santos sacerdotes abençoam-na quando ela se mostra uma devassa.”

 

Cena 3. Roma. Um adivinho alerta Antônio sobre o perigo de ficar junto a Otávio César.

 

Cena 4. Roma. Lépidus se despede de generais que vão para o combate.

 

Cena 5. Egito. Cleópatra é informada acerca do casamento de Antônio.

 

Cena 6. Sicília. Acordo entre o triunvirato e Pompeu: este fica com a Sicília e a Sardenha e pagará um tributo a Roma.

 

Cena 7. Sicília. Comemoração no barco de Pompeu. Todos bêbados, cantam e dançam.

 

Ato 3

 

Cena 1. Ventídio derrota os partos.

 

Cena 2. Roma. Despedida de Antônio e Otávia que partem para Atenas.

 

Cena 3. Egito. Mensageiro descreve Otávia para Cleópatra, caprichando nos defeitos.

 

Cena 4. Atenas. Otávia vai para Roma intermediar as brigas entre Otávio e Antônio.

 

Cena 5. Atenas. Notícias de que Otávio derrotou Pompeu e aprisionou Lépidus.

 

Cena 6. Roma. Otávio recebe a irmã e diz que ela foi rejeitada por Antônio, que se reuniu à rameira do Egito e prepara-se para combater contra Roma.

 

Cena 7. Áccio. Antônio e Cleópatra combatem Otávio no mar. Antônio foi aconselhado a lutar em terra.

 

Cena 8 e 9. Áccio. Ordens para os combates.

 

Cena 10. Áccio. Cleópatra foge com seus navios e Antônio a segue. “Nunca antes se violou assim a experiência, a virilidade, a honra!”

 

Cena 11. Egito. Antônio apresenta variações de comportamento. Perdeu o rumo e a honra, mas pede amor, vinho e comida.

 

Cena 12. Otávio manda dizer a Cleópatra que a privilegiará desde que expulse ou mate Antônio.

 

Cena 13. Antônio diz a Otávio que quer um combate singular. Um mensageiro de Otávio explica a proposta dele para Cleópatra; ela parece aceitar. Antônio vê parte da cena e manda açoitar o mensageiro. Antônio elogia Otávia, “joia rara de mulher” e arrepende-se de estar com a rameira. Muda de humor e quer festejar com Cleópatra.

 

Ato 4

 

Cena 1. Otávio prepara o exército para a batalha.

 

Cena 2. Antônio e suas flutuações de humor. Festa e vinho.

 

Cena 3. Alguns soldados desertam de Antônio.

 

Cena 4. Antônio veste-se para a batalha.

 

Cena 5. Enobarbo desertou e Antônio envia para ele as arcas e tesouro que deixou.

 

Cena 6. Otávio ordena que os desertores sejam colocados na frente do exército. Enobarbo recebe seu tesouro e envergonha-se.

 

Cena 7. As tropas de Antônio se saem melhor na batalha.

 

Cena 8. Antônio volta para a cidade e comemora com Cleópatra, seu “rouxinol”.

 

Cena 9. Enobarbo se mata.

 

Cena 10. A batalha agora se desenrola em terra e no mar.

 

Cena 11. Otávio orienta o exército.

 

Cena 12. Antônio mostra valentia e depois desanima. Vê a esquadra se entregar a Otávio, por causa da “egípcia imunda”, “puta, três vezes puta”. Diz que “a bruxa tem que morrer, ela me vendeu ao jovem romano”.

 

Cena 13. Cleópatra se tranca no mausoléu e manda dizer a Antônio que se matou.

 

Cena 14. Antônio tenta se matar, mas fica agonizando. Recebe o aviso de que Cleópatra está viva e é levado até ela.

 

Cena 15. Antônio morre e Cleópatra pensa em se matar.

 

Ato 5

 

Cena 1. Otávio é avisado da morte de Antônio, que lamenta, e manda avisar a Cleópatra que o destino dela será decidido com honra e cortesia.

 

Cena 2. O enviado de Otávio evita que Cleópatra se mate. Otávio visita Cleópatra. Ela entrega a Otávio uma lista de seus tesouros, mas descobre-se que ela escondeu a outra metade. Ela descobre que será levada como uma presa do triunfo de Otávio. Cleópatra diz que sua história será encenada no palco, com toda a sua majestade em “pose de puta”. Um camponês traz um cesto com serpentes para a rainha. Cleópatra se mata, suas ajudantes também. Antônio prepara o funeral dos dois.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

A tempestade, William Shakespeare, 1611

A tempestade, William Shakespeare, 1611, 116 páginas, tradução de Beatriz Viégas-Faria, L&PM. Início: 02/02/2021 – Fim: 04/02/2021. Nota 3 (Escala: 1 – Ruim, 2 – Regular, 3 – Bom, 4 – Ótimo, 5 – Obra-prima). 



Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Logo dizer que “A tempestade” emociona porque parece a despedida de Shakespeare. Não podemos saber se foi essa a intenção, mas parece: dois solilóquios de Próspero permitem essa interpretação. 

A peça conta a história de Próspero, duque de Milão e feiticeiro, expulso pelo irmão, Antônio, que tomou o seu lugar; Antônio foi ajudado na conspiração por Alonso, rei de Nápoles. Próspero exila-se em uma ilha, com a filha Miranda, e toma posse do lugar, por meio de seu poder mágico. A ilha pertence de fato ao semi-humano Caliban, filho da bruxa Sicorax com o demônio Sétebos. 

A peça começa quando Próspero produz uma tempestade contra uma frota que passava ao largo. Um dos navios transportava os nobres: o rei Alonso, de Nápoles, e o usurpador duque de Milão, Antônio, entre outros. Após algumas peripécias, piadas, zombarias, e demonstrações do enorme poder de Próspero, este recupera o ducado e sua filha Miranda prepara-se para casar com Ferdinando, filho do rei de Nápoles. 

Bom o leitor deve considerar, de início, que a peça é uma comédia. Muitas cenas são repletas de piadas, trocadilhos e brincadeiras. Apesar da maldade de Caliban, e da maldade de Antônio, Sebastião, Estéfano e Trínculo, não ocorre a vingança, tampouco a punição, no tempo da peça. 

Próspero aventa, no futuro, uma possível punição a Antônio e Sebastião, que conspiraram contra o rei Alonso, na ilha. Não é dito, mas é possível que Caliban enfim torne-se o dono de sua ilha, novamente, embora solitário, visto que Próspero voltará para Milão. 

A peça é leve, plena de magia, de canções e seres fantásticos, uma fantasia. 

Todavia, cabe considerar outros aspectos. 

- Caliban tem toda a razão em odiar Próspero. A ilha pertence a Caliban visto que pertencia à mãe do monstro, a bruxa Sicorax. Próspero diz, em sua defesa, que tentou de tudo para civilizar o semidemônio, mas será que podemos confiar no feiticeiro? Caliban, não apenas como vingança contra Próspero, que o escravizou, tenta violar Miranda e, se conseguisse, diz que iria povoar a ilha de Calibans. 

- Próspero libertou Ariel de uma árvore, na qual o ser etéreo fora aprisionado pela bruxa Sicorax. A bruxa morreu esquecida de Ariel e ele passou doze anos preso. Em compensação por ter libertado Ariel, Próspero também o escraviza; porém, de forma mais suave: Ariel é o executor de feitiços. Já Caliban faz todo o trabalho pesado. Ariel quer a liberdade, que Próspero demora a conceder. 

- Antônio, irmão de Próspero e usurpador do ducado de Milão, é uma natureza malévola. Ao ver o rei de Nápoles dormindo, logo instila a ambição em Sebastião e sugere ao irmão do rei que mate Alonso para assumir o trono. 

- Miranda tem apenas quinze anos. Como Julieta (treze anos), o que essa tolinha sabe sobre amor? Somente viu na vida o próprio pai e Caliban. Ao ver Ferdinando, se apaixona. Experiência zero. Não sei se pelo tom de comédia ou pela época, a virgindade de Miranda é debatida várias vezes. Ferdinando só promete a ela o casamento se ela for realmente virgem. 

Cabe considerar, ainda, o preconceito de que o belo é bom; o feio e deformado é mau. 

Por outro lado, a peça pode, sim, ser vista como uma divertida festa de duas horas de duração, espetáculo de brincadeiras e magia, na qual Shakespeare, na figura de Próspero, anuncia sua despedida do teatro e pede que o libertem. Mesmo sem esse suposto elemento da “despedida”, a peça é uma festa de magia e fantasia, com toques de maldade extrema e de violência, e com um final leve e melancólico. 

 

Resumo. 

Ato 1, cena 1. 

Tempestade. Naufrágio do navio que transporta o rei de Nápoles e o duque de Milão. 

Ato 1, cena 2. 

O feiticeiro Próspero conta a sua filha Miranda que ele é o verdadeiro duque de Milão. Antônio, irmão de Próspero usurpou o ducado e o expulsou em um barco, com a ajuda do rei de Nápoles. Próspero provocou a tempestade para trazer todos a ilha e executar seus planos. 

Ariel é um ser etéreo e poderoso que obedece a Próspero porque este o salvou de um aprisionamento quando chegou na ilha. Caliban é um ser deformado e monstruoso, filho da bruxa Sicorax, antiga dona da ilha. Próspero tomou a ilha de Caliban. Caliban tentou estuprar Miranda. 

Ferdinando, filho do rei de Nápoles, é trazido por Ariel à presença de Próspero. Interesse mútuo entre Miranda e Ferdinando, como Próspero esperava. 

Ato 2, cena 1. 

Na ilha, o rei Alonso deprimido pela possível morte do filho. Gonçalo, nobre que ajudou Próspero em Milão, tenta animar o rei. Antônio, duque de Milão, e Sebastião, irmão do rei de Nápoles, fazem gracejos e zombarias. Gonçalo descreve a sua Utopia, se governasse uma nação. 

Ariel faz todos adormecerem menos Antônio e Sebastião. 

“This is a strange repose, to be asleep

With eyes wide open – standing, speaking, moving –

And yet so fast asleep.” 

Antônio diz que, com forte imaginação, vê uma coroa sobre a cabeça de Sebastião; com isso instila a ambição em Sebastião, como fez Lady Macbeth: e eles combinam de matar o rei Alonso e Gonçalo. Ariel intervém e acorda os dois. 

Ato 2, cena 2. 

Encontro de Caliban, Trínculo (um bufão), e Estéfano (um bêbado). Os três se embebedam; Caliban imagina que eles podem libertá-lo de Próspero. 

Ato 3, cena 1. 

Ferdinando e Miranda trocam juras de amor e promessas de casamento. 

Ato 3, cena 2. 

Caliban incentiva Estéfano e Trínculo a matarem Próspero e tomarem posse da filha dele e da ilha. 

Ato 3, cena 3. 

O grupo de nobres vaga pela ilha em busca de Ferdinando. Seres mágicos preparam um jantar. Ariel, como harpia, desfaz o jantar e fala da traição a Próspero. 

Ato 4, cena 1. 

Próspero concorda com o casamento de Miranda e Ferdinando. Vários avisos sobre a manutenção da virgindade de Miranda. Uma exibição de deusas e ninfas. A visão se esvanece, como a vida humana. Somos feitos da mesma matéria dos sonhos. 

“The cloud-capp’d tow’rs, the gorgeous palaces,

The solemn temples, the great globe itself,

Yea, all which it inherit, shall dissolve,

And like this insubstantial pageant faded

Leave not a rack behind. We are such stuff

As dreams are made on; and our little life

Is rounded with a sleep.” 

“As torres que alcançam as nuvens, os esplêndidos palácios, os templos solenes, o próprio globo imenso, sim, com tudo o que ele contém, tudo se dissolverá, e como este intangível desfile nebuloso, não deixará sequer um vestígio. Nós somos coisas tais como os sonhos são feitos; e nossa pequena vida é cercada pelo sono.” 

Caliban, Estéfano e Trínculo chegam à gruta para matar Próspero, roubam roupas, mas são perseguidos por cães e gnomos. 

Ato 5, cena 1. 

Solilóquio no qual Próspero se despede da Arte (da magia). Soa como a despedida de Shakespeare do teatro. 

“Eclipsei o sol do meio-dia, convoquei os ventos amotinados. [...] Ao meu comando, sepulturas iam despertando os que nelas dormiam. [...] Aqui e agora, renuncio a essa mágica escabrosa [...] quebro minha varinha mágica [...] e afogarei o meu livro.” 

Ariel traz o grupo de nobres para a gruta de Próspero. Este mostra ao rei Alonso que Ferdinando está vivo. Miranda se extasia com o “admirável mundo novo”. 

“O wonder!

How many goodly creatures are there here!

How beauteous mankind is! O brave new world

That has such people in’t!” 

Próspero recupera o ducado. Não há vingança contra Antônio e Sebastião. Caliban também não é castigado. Ariel é libertado. 

Epílogo. 

Solilóquio de Próspero: nova despedida de Shakespeare. Os feitiços estão terminados, ele pede que o público não o deixe confinado na ilha, pede para ser libertado. 

“Libertem-me de minha atroz prisão ainda agora,

Com palmas, com aplauso, com as mãos tão generosas [...].” 

domingo, 8 de novembro de 2020

Júlio César, William Shakespeare, 1599

Júlio César, William Shakespeare, 1599. 

Dá para ler em poucas horas. O principal personagem não é César, mas Brutus. Mostra a conspiração contra César, por conta de suas ambições de se tornar rei ou tirano. César é assassinado por Brutus, Cássio e outros. Os assassinos não fogem e Brutus faz um discurso breve à multidão explicando o ato, a multidão o apoia. Marco Antônio faz um discurso em seguida e convence a multidão da crueldade e da conspiração de Brutus e seu grupo. Otávio, filho adotivo de César, e Marco Antônio combatem as tropas de Cássio e Brutus. Estes se suicidam e Otávio e Marco Antônio se preparam para dividir o poder.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

São Bernardo, obra-prima

             Notas avulsas sobre São Bernardo. 

São Bernardo, Graciliano Ramos, 1934. 

Madalena é um misto de Desdêmona sem o assassinato e Emma Bovary sem a culpa. Emma se mata após uma sequência de traições e libertinagens e despesas sem controle. Desdêmona é morta sem ter culpa de nada por conta do ciúme excessivo de Otelo. Madalena vê e compreende o ciúme incontrolável de Paulo Honório e executa a ação que ele gostaria de executar – e que talvez venha a fazer algum dia. Ela exime o Otelo alagoano de exercer sua vingança. Por outro lado, Madalena é deslocada do tempo e do lugar, assim como Emma, e não vê como pode continuar a viver desse modo. Assim como Emma, Madalena não demonstra qualquer amor pelo filho, e mata-se de forma semelhante. 

Paulo Honório, homem prático que estabelecia objetivos e, então, coordenava os esforços para alcançá-los, determinou-se a ter um herdeiro e, para isso, escolheu a fêmea reprodutora errada. Paulo Honório, sem ter qualquer religião, apela constantemente para o diabo e o inferno, e um pouco menos para deus, em seu vocabulário. Madalena não tem deus, mas a cena final entre ambos se dá na capela da fazenda. Madalena diz não saber se rezava, não, apenas falava consigo mesma. Ele e ela não encontram deus nem o diabo na capela, e não se encontram um ao outro. Não há encontro possível na estrutura de formação daqueles dois personagens. 

Casimiro Lopes como um duplo taciturno de Paulo Honório. O próprio narrador afirma isso: “E não me espantaria se me afirmassem que eu e Casimiro Lopes éramos uma pessoa só.” Quando Madalena chama Paulo de assassino, ele titubeia e pensa em Casimiro como assassino. 

Casimiro Lopes, o capanga, taciturno, calado. Diz Paulo Honório: “Quanto a palavras, meia dúzia delas.” Essa frase é sensacional pois tem meia dúzia de palavras! 

Quando soube que Madalena escrevia artigos em jornal, Paulo Honório esfriou em sua intenção de casar com ela: “Julguei que fosse uma criatura sensata.” 

Uma das mais belas imagens do grosseiro Paulo Honório: “de manhã, a serra cachimbava”. Quem já viu uma serra no interior do país, de manhãzinha, sabe do que Paulo Honório está falando. 

Madalena, “dois dias depois do casamento, ainda com um ar machucado”; Paulo Honório, brusco, grosseiro, mão enormes, sugere que o sexo com Madalena foi brutal para a mocinha loura, franzina. 

O capítulo 19, a metade do romance, é impressionante porque já antecipa mortes, fantasmas e o final da história. Mestre Caetano, mesmo morto, deveria trabalhar. Paulo Honório com seus fantasmas, solitário. 

Estamos à beira de um abismo.” O país sempre esteve e está à beira de um abismo. 

O ciúme começa no capítulo 24, dois terços do romance. Os ciúmes de Paulo Honório, infundados, lunáticos. A inferioridade tremenda de Paulo ante a inteligência, o cosmopolitismo de Madalena resulta no ciúme lunático, na insegurança absoluta. “Não havia sinais meus” no menino. Bentinho, Dom Casmurro. O menino era “feio como os pecados”. Os pecados da mãe não existiam, então foram os pecados do pai, assassino, que se perpetuaram na criança. “As perninhas e os bracinhos eram finos que faziam dó.” Feio e membros fininhos: o menino era um inseto, Kafka. Paulo Honório, bem como Otelo, a exigência de uma prova: “O que me faltava era uma prova: entrar no quarto de supetão e vê-la na cama com outro.” “Para que deixar viva mulher tão cheia de culpa? Quando ela morresse, eu lhe perdoaria os defeitos.” O Senhor Jaggers de Dickens: em certo tipo de casal, “é bater ou rastejar”. 

Temas de ficção científica. O tempo. Voltar no tempo e escolher outra opção. Se tivesse casado com Germana, vida de almocreve e feliz. Voltar no tempo e recomeçar com Madalena: a previsão infausta de que daria o mesmo resultado. Voltar no tempo e viver em outra época, na monarquia e a probabilidade de ser feliz. 

Há uma metamorfose no final ou, por outra, Paulo Honório se vê como nunca viu antes, percebe sua própria realidade, como o bicho de H. P. Lovecraft, Paulo se vê com “lacunas no cérebro”, “nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes”, “deformidades monstruosas”, Kafka.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Capítulo 31.1 – Clichê

Capítulo 31.1 – Clichê

Clichê: lugar-comum, banalidade, frase repetida, chavão.

Então, chegamos a este ponto, este aqui. Toda frase é clichê. Eu fico muito puta com isso, quando penso nisso, e sei lá. Bota aí no gugle qualquer frase tua, ela vai aparecer lá nos resultados. Daí, vou ter que ao contrário pensar, penso, para que frase minha uma não apareça resultados nos, e não seja um chavão. Olha, esses pensamentos que estou tendo aqui, digo logo, é tempo roubado ao meu selviço, já disse uma vez, trabalho em um hospital, na burocracia. Meu marido ganha mais do que eu, aquele filho de uma puta. A puta já morreu, a mãe dele, eu detestava aquela velha: católica, falsa, hipócrita, papa-hóstia, toda noite na missa da Igreja de São Pedro Advíncola. Isso foi um parêntese porque eu queria pensar mesmo é clichê sobre. Esse gugle acabou com a vida dos escritores, toda frase já está lá, foi o que pensei e disse.

Mas fora isso e ademais, o povo colabora com a clichezada. Estava lendo umas resenhas de livros – primeiro digo logo que livro novo com menos de duzentas páginas não é livro, deve ser desconsiderado, é plaquete, é historieta, é continho – lendo as resenhas e encontrei isso, que vos passo, em pensamento. Não vou colocar entre aspas, fodam-se as aspas e quem achar ruim também. Tenho que escrever um parecer aqui do trabalho e daqui a pouco continuo, isso é um parêntese, e também tenho que telefonar para a escola da minha filha, eu odeio essas duas palavrinhas juntas “tenho que” ou essas três “você tem que”. O tempo me corrói. 

Encontrei lá: narrativa que flerta com a distopia, flerta com Shakespeare, cria um microcosmo, parece se apoiar, passeia por facetas sombrias, turbilhão de memórias, parece tentar compreender, cria um mundo de possibilidades, parece tentar romper, vai navegando águas cada vez mais profundas.

Flerta e flerta, flertar: namoricar, paquerar. Ou é distopia ou não é. Ou faz referências ao Bardo de Avon (!) ou não faz. Vai paquerar o cara de Avon. Microcosmo todo livro de ficção cria, ora. Facetas sombrias, turbilhão de, mundo de, sei não, sei não. E o livro vai navegando; livro não navega, história não navega; ou o livro se aprofunda em algo ou fica no raso. Os “parece” é que são foda. Ou é ou não é. Se um livro ou história somente parece, então não atingiu nada; ou foi o resenhista que não conseguiu chegar a alguma conclusão: rompe ou não rompe, compreende ou não compreende.

Ai, deus, esse dia de serviço que não termina. Uma falta de sexo danada. Vou ter que resolver sozinha, com a ajuda do brinquedo vermelho. Meu marido hoje não vai querer, vai falar que está cansado, mentira, isso é alguma vagabunda que ele pegou na rua, escroto. Não tenho tempo de ir na casa de Ordep hoje, e esse é outro que não me quer quando eu quero: ele quer que eu avise, que eu marque, diz que eu atrapalho a sua busca incessante de conhecimento. Ele fala assim, escroto e pedante. Tenho que pegar uma roupa na lavanderia.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O estrangeiro envelheceu muito mal

O estrangeiro, Albert Camus, 1942, 122 páginas na minha edição da Editora Record que eu comprei em 1990 por 8 dólares (está anotado na folha de rosto), com tradução de Valerie Rumjanek. 

O livro é simétrico e rigoroso: começa com uma morte, a da mãe; no exato meio do livro acontece uma morte, a do árabe, que é marcada pela música de Beethoven: as quatro batidas secas de destino na porta da desgraça; e na última página se anuncia a morte do protagonista e narrador. 

Para um livro tão calculado, restou um mistério: a história é narrada em primeira pessoa, porém o narrador foi condenado à guilhotina e será executado poucas horas após encerrar a narrativa. Como temos, então, acesso à narração? Nabokov resolveu tal situação descrevendo, no prefácio de um falso doutor, a forma como o manuscrito de Humbert Humbert veio à luz. Não há uma explicação assim em O estrangeiro, o que nos remete a algumas possibilidades: a) o autor não soube ou não quis explicar; b) o narrador não morreu, obteve uma comutação da pena capital. 

O protagonista e narrador é uma pessoa desagradável. É um maré-me-leva-maré-me-traz. Na primeira parte do livro, demonstra que tudo tanto faz: tanto faz casar ou não, tanto faz ser amigo de Raymond ou não, tanto faz escrever uma carta ou não, tanto faz conversar com Salamano ou não. Tanto faz andar na praia com sol a pino ou não, tanto faz matar um árabe ou não. Nada tem importância e tudo aconteceu por acaso. Todavia, na segunda parte, o narrador já demonstra que não é assim tanto faz: ele preferia estar livre, ir à praia com Marie, preferia que a pena capital fosse comutada. 

O protagonista é uma pessoa fraca, inclusive fisicamente. Ele sofria de enxaqueca. A luz o ataca como espadas: a luz que cegava, o brilho da luz das lâmpadas, o brilho do céu era insuportável, o dia cheio de sol o atinge como uma bofetada, o brilho do mar era insustentável, o sol na cabeça descoberta, o sol esmagador, a cabeça latejando de sol, o brilho vermelho. Sintomas claros de enxaqueca. Um bom médico teria evitado o crime. 

É um indivíduo fraco para o calor e o sol, é um homem do norte, de clima frio, deslocado na África. Se o narrador fosse um homem dos trópicos, o crime, se houvesse, teria outra motivação. No caso de Meursault, a fraqueza diante do calor e a enxaqueca o fizeram matar o “árabe”. O protagonista tem a cabeça fraca para os trópicos: o suor e a gordura dos trópicos o afetam de forma exacerbada. Uma pessoa hipersensível: sol, calor, gordura, a pele dos outros, tudo o afeta. 

Ademais, o livro é claramente racista e, a partir de uma visão “superior” ou “ocidental”, não percebe sequer as diferenças culturais: o narrador/autor não faz diferença entre árabes e mouros, usa as duas palavras indistintamente. Ele mostra os “árabes” sempre em grupo, não há indivíduos entre os “árabes”, e eles olham em silêncio, como se “nós” fôssemos pedras ou árvores. E qual a maneira que Meursault e seus comparsas olham para os “árabes”? Este assunto de mouros, árabes, bárbaros, remete a Otelo, que séculos antes também navegava em tais contradições. 

O julgamento de Meursault é bastante real, mesmo para os dias atuais – veja-se a série Os doze jurados, por exemplo. No julgamento do narrador, ele é julgado não apenas pelo assassinato do “árabe”, mas por todo o seu comportamento cotidiano. Algo que o autor pode ter usado para destacar o absurdo, mas que é comum em julgamentos. Não julgamos de modo objetivo e sim considerando nossas cargas de formação e cultura e aquelas do réu e da vítima. Não existe um julgamento objetivo, é ilusão. 

De todo modo, não resta dúvida de que um assassinato a sangue frio como aquele mereceria uma pena pesada, prisão perpétua ou a pena capital – visto que tal existia no país e na época. A justificativa para o assassinato tornava o crime ainda mais pusilânime: Meursault matou por causa do sol. 

Um livro que envelheceu mal, para mim, desde a primeira leitura que fiz dele. O protagonista é irreal demais, frente a realidade de Marie, de Raymond, de Céleste. Livro muito desagradável e preconceituoso.