Atletinha

 

Sala de espera de exame. É meio feriado, deixei a menina em casa com marido, o inútil queria sair para encontrar os amigos, caldinho, foi uma discussão homérica aquilina no quarto para a menina não ouvir, mas é claro que ouviu, a gente não fala baixo quando discute. Eu expliquei para o inútil que eu já havia avisado a ele sobre o exame, e expliquei também que aquele feriado era parcial, a maior parte das pessoas úteis do país estava trabalhando normalmente, e que eu mesma ia para o exame em jejum, fome du, e depois ia para o trabalho, e ele sabia de tudo isso e não ia mesmo sair com a coisa dos amigos dele porque não havia ninguém para ficar com a menina, a escola sem aula, e pronto e saí e não me despedi de ninguém. 

Deve fazer ao mal ao resultado dos exames esse estresse todo, alguma taxa vai dar errado. 

Sala de espera de exame e eu percebo que eu detesto todo mundo ali, não sei de onde vem essa minha capacidade de odiar todos os seres humanos. Sei, sei, você é metida a coisa de psicóloga e vai mencionar que, de fato, eu odeio a mim mesma. Ora, vá tomar no papeiro. Todo mundo é assim, todo mundo é falso, todo mundo odeia todo mundo, todo mundo me critica, todo mundo critica você assim que você sai, assim que você entra nos cantos, assim que você posta uma foto da tua carantonha curtindo uma praia, e todo mundo pensando que coragem a tua de tirar foto dessa tua carantonha feíssima para se exibir. 

Na minha sala de espera, onde detesto todo mundo, detesto mais, detesto com especial vigor, algumas pessoas. A mulher, sei lá, cinquenta anos, corpo bom ainda, vestido ajeitadinho, cabelo espichado em algum tipo de química e pintado de castanho, detesto cabelo artificial, e o que mais detestei nessa doida é que veio com a filha, dezesseis anos, sem necessidade, esses exames que fazem aqui não precisa coisa de acompanhante, e a coisa da filha, shortinho jeans, blusinha, veio encangada com o namoradinho, ora que droga é essa, tem lá necessidade dessa procissão, dessa comitiva, para vir fazer um exame, e o casalzinho nefasto fica arrulhando, acho que a doida da mãe não quis deixar os dois a sós no apartamento para que eles não fizessem, tolinha, eles já fazem há muito tempo. Ou sei lá o que a doida quis para trazer os dois idiotazinhos. 

Todavia, eu pude concentrar o meu ódio em uma moça, eu focalizei, eu direcionei, eu espero que ela tenha sentido alguma vibração do meu detestamento. Havia cadeira sobrando na primeira sala, mas a coisinha ficou em pé, como se fosse a princesinha que não podia por a bundinha na cadeirinha. Depois, a roupa, completamente descabida para ir fazer exame: um shortinho de lycra preto curtíssimo, daqueles para fazer exercício, uma blusinha branca de algodão, eu sou a atletinha, a roupa dizia, eu sou saúde, mim saúde, vocês doença, ela tem vergonha de fazer exame, exame é coisa de doente. Por baixo da blusinha de algodão, sutiã preto, feio, era grande, não era um sutiã gostosinho, delicadinho, sensual, era largo, provavelmente para sustentar os peitinhos quando ela pulasse na ginástica, tão saudável a coisinha. Um metro e sessenta. De início, loura, mas logo vi, falsa, cabelo castanho escuro mal pintado de louro, o louro indo embora, o castanho renascendo, predominando. Sandálias havaianas. Ora, cadê o tênis, se estava com roupinha de ginástica, aí, sandalinha havaiana pretinha sujando o pezinho branquinho de poeira. Pé ia chegar em casa marrom de sujo. 

Depois que passaram o gado, a gente, para outra sala, a lourinha atletinha decidiu sentar e sentou na cadeira mais afastada possível de nós, os outros, os doentes, ela não, ela saudável, exame de rotina, os outros, gordos, velhos, doentes, derrubados, davam nojinho nela. Na pontinha da cadeira para não encostar as coxas nuas no plástico contaminado do assento. Na cadeira mais afastada e olhando para o lado oposto do rebanho. Concentrei meu ódio, minha raiva do marido, da filha, do emprego, naquela cabecinha loura-falsa, naquela pele branca, pernas brancas torneadinhas, detestei cada centímetro da mocinha. Fiquei concentrada para ouvir o nome dela quando chamassem, para odiar melhor, odiar pelo nome, pessoalmente, mas algo me distraiu, ah foi a doida com os pombinhos, e não captei o nome da atletinha, fiquei frustrada. 

Me furaram de novo, me deram papéis, fui para o trabalho e não produzi quase nada no dia, meu fígado derramava a bile verde no mundo, esverdeava o céu e as nuvens, tons diferentes, estava bonito.