quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O conto da aia, Margaret Atwood, 1985

O conto da aia, Margaret Atwood, 1985, 368 páginas, tradução de Ana Deiró, Rocco. Início: 31/01/2021 – Fim: 08/02/2021. Nota 4.



Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Releitura desse magnífico romance distópico. 

O livro foi escrito em 1985 e ganhou ainda mais destaque a partir de 2016 por conta de uma série de televisão nele baseada. 

A história é narrada em primeira pessoa por uma das aias, da qual nunca saberemos o nome verdadeiro. O enredo trata de uma distopia (lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia, Houaiss). Gosto de livros que falam de distopias; nosso próprio planeta é uma distopia que não percebemos. 

O livro retrata um lugar que era os Estados Unidos e que, na época dos acontecimentos, é um autoritarismo teocrático denominado República de Gilead. As informações nos são passadas, aos poucos, pela narração da Aia, e apreendemos de forma fragmentada a situação e como tudo começou. 

Houve uma epidemia de infertilidade, nasciam pouquíssimas crianças, houve um golpe de estado, o presidente e o congresso foram eliminados, bem como a Constituição. Implantou-se um governo autoritário e teocrático inspirado parcialmente na Bíblia. Parcialmente, porque o governo proíbe o acesso à Bíblia e aos livros, e distorce as referências da forma mais adequada ao sistema. 

Todas as mulheres perderam seus direitos. As mulheres jovens e férteis foram recrutadas para os serviços de reprodução da nova classe dirigente. O antigo país está dividido e há algumas guerras. A elite dirigente usa um sistema de Olhos, um tipo de espionagem semelhante aos sistemas nazistas e soviéticos. 

A Aia Offred, que narra a história, teve sua união anterior declarada ilegal, foi separada do companheiro e da filha. Depois de reeducada, está a serviço, sexual, reprodutivo, de um Comandante e sua Esposa, membros da alta classe governamental. 

É um livro muito bom, bem escrito, longo mas não cansativo, um livro que faz pensar. Uma falha do livro é o apêndice, denominado “Notas históricas” que dá algumas informações extras sobre o processo de desintegração social e cultural da época da aia. Penso que é apêndice desnecessário, a história é rica em si mesma, não necessitava desse tipo de “explicação”. Ademais, há um tom de brincadeira no apêndice que não combina com a densidade do romance. 

Cabe observar que Margaret Atwood homenageia e faz referências às três distopias mais famosas: “Fahrenheit 451”, “1984” e “Admirável mundo novo”. 

Vale a pena ler e reler.

Resumo.

Epígrafe: Gênesis, 30:1-3. 

Raquel, vendo que não dava filhos a Jacó, tornou-se invejosa de sua irmã Lia e disse a Jacó: “Faze-me ter filhos também, ou eu morro.” Jacó se irou contra Raquel e disse “Acaso estou eu no lugar de Deus que te recusou a maternidade?” Raquel retomou: “Eis minha serva Bala. Aproxima-te dela e que ela dê à luz sobre meus joelhos por ela também eu terei filhos!” Raquel deu a Jacó, pois, como mulher, sua serva Bala e Jacó uniu-se a ela. Bala concebeu e deu à luz um filho para Jacó.” 

Capítulo 1. 

A narradora está presa com outras mulheres em um ginásio esportivo, vigiado por soldados. 

Capítulo 2. 

A narradora descreve o quarto que ocupa, as roupas vermelhas, a touca branca. Desce, vai a cozinha na qual trabalham as Marthas (que se vestem de verde); são duas naquela casa, Rita e Cora. As Esposas se vestem de azul. Ela pega os vales de compras. 

Capítulo 3. 

Ela se recorda de quando chegou nesta casa. A Esposa do Comandante é Serena Joy; ela a via na televisão antes, Serena cantava em programas religiosos. 

Capítulo 4. 

Ela sai de casa. O motorista pisca o olho para ela, o que é proibido. Encontra-se com a parceira de compras, Ofglen. Dirigem-se ao centro, passam a barreira de controle. 

Capítulo 5. 

Estamos na República de Gilead, que está envolvida em diversas guerras com os vizinhos. Há Econoesposas, mulheres que fazem todas as funções, aia, esposa e Martha. Na loja, entra uma grávida, está se exibindo. É Ofwarren. A narradora a conhece do tempo da reeducação, é Janine. Ela está giganorme. A narradora recorda quando tinha uma casa, um marido, uma filha. Passam turistas japoneses, gente normal. 

Capítulo 6. 

A narradora e Ofglen passam perto da igreja desativada e do Muro. Há seis corpos pendurados, médicos fazedores de anjos. O testemunho de uma única mulher não vale (Deuteronômio). 

Capítulo 7. 

Recorda-se de Moira, tempo da faculdade. Recorda-se da mãe e um grupo de mulheres queimando livros, quando ela era criança. Pergunta-se se aquilo é uma história que ela está contando, se é uma história na cabeça dela, se é real. 

Capítulo 8. 

Há três corpos no Muro, um padre e dois homossexuais. Recorda do marido, Luke e da filha. O motorista fala com ela, é proibido. Recorda que houve atentados contra a vida de Serena Joy. O Comandante estava na porta do quarto dela. 

Capítulo 9. 

A moça que ocupou o quarto antes deixou uma frase escrita no armário: “nolite te bastardes carborundum”. Não permita que os bastardos te esmaguem, não permita que os bastardos te reduzam a cinzas. 

Capítulo 10. 

Canta “Amazing grace” e uma música de Elvis Presley. Recorda de Moira, Tia Lydia, e assassinatos de mulheres no tempo de antes. 

Capítulo 11. 

Médico. Ele a assedia, sugere fazerem sexo, o Comandante não saberia de quem seria o filho. Perigo. 

Capítulo 12. 

Banho, recorda da filha bebê, uma mulher tentou roubar a filha dela no supermercado. Ela foi separada da filha. A menina deve ter oito anos. 

Capítulo 13. 

Espera, lavada e alimentada como um porco. Recorda quando Moira chegou no centro de treinamento. A narradora tentou fugir com a filha, no tempo de antes, mas foi capturada.

 

Capítulo 14.

 

Todos na sala para a Cerimônia. A tevê mostra que Gilead está em guerra “em vários lugares ao mesmo tempo”. O nome da narradora em Gilead é Offred. Recorda a tentativa de fuga de carro, com Luke e a menina, em direção à fronteira.

 

Capítulo 15.

 

O Comandante lê Gênesis, capítulo 30, Raquel e Lia. Moira planeja fugir do centro, faz a tentativa, apanha, volta com os pés massacrados.

 

Capítulo 16.

 

A Cerimônia continua no quarto. Ela deitada entre as pernas de Serena Joy, o Comandante faz o serviço.

 

Capítulo 17.

 

Noite, sente vontade de roubar algo, desce à sala, escuridão, Nick a encontra: o Comandante quer falar com ela amanhã no escritório.

 

Capítulo 18.

 

Não sabe o que pode ter acontecido com Luke, morto? Há resistência?

 

Capítulo 19.

 

O Partomóvel vermelho vai buscar as aias para um parto, é de Ofwarren, Janine. Somente um entre quatro bebês nascem sem defeitos, o resto é descartado. Médicos não são permitidos: filhos com dor, Gênesis. Partomóvel azul para as esposas.

 

Capítulo 20.

 

As aias no quarto com Janine, Tia Elizabeth também. Em um dos filmes que exibiam no centro, a mãe dela, a favor do aborto, jovem. A mãe, mais velha, visitando a casa da narradora.

 

Capítulo 21.

 

Cânticos. Aproxima-se o parto, chamam a esposa, uma cadeira acomoda a esposa e a aia, simulação de parto para a esposa. Nasce o bebê de Janine, é entregue para a esposa.

 

Capítulo 22.

 

Certo dia, Moira conseguiu fugir do centro.

 

Capítulo 23.

 

Escritório do Comandante para jogar e dar um único beijo, como se quisesse.

 

Capítulo 24.

 

Offred volta para o quarto e dorme no chão.

 

Capítulo 25.

 

Visitas noturnas ao Comandante. Consegue uma loção para as mãos.

 

Capítulo 26.

 

Na noite da Cerimônia, há, agora, vergonha, sentimentos estranhos. Offred se sente a amante do Comandante.

 

Capítulo 27.

 

Ofglen iniciou uma conversa proibida. Ela fala em “nós”, como algum tipo de organização.

 

Capítulo 28.

 

Offred recorda como tudo começou: assassinato do presidente e congressistas. Mulheres relegadas a apêndices do marido; ela perdeu emprego e conta de banco.

 

Capítulo 29.

 

O Comandante diz a Offred o significado da frase em latim. A moça anterior esteve com o Comandante também; ela se matou.

 

Capítulo 30.

 

Pensa em suicídio, recorda da gata e de como Luke deu um jeito nela antes da fuga.

 

Capítulo 31.

 

Ofglen diz que a senha é Mayday. Serena combina com Offred que ela tente engravidar de outro homem, Nick.

 

Capítulo 32.

 

Conversas com o Comandante.

 

Capítulo 33.

 

Cerimônia de Rezavagância.

 

Capítulo 34.

 

Ainda a Rezavagância, que é um casamento coletivo.

 

Capítulo 35.

 

Tentativa fracassada de fuga com Luke e a menina, no passado. Serena Joy mostra uma foto da filha de Offred.

 

Capítulo 36.

 

O Comandante a leva para sair, com roupa de lantejoulas e a capa de Serena Joy.

 

Capítulo 37.

 

Casa de Jezebel: um hotel, com prostitutas, frequentado pelos Comandantes e elite de Gilead. Vê Moira.

 

Capítulo 38.

 

Moira, depois de fugir, passou meses escondida pela Rota Clandestina Feminina, até que foi descoberta e presa. Deram-lhe a opção da Casa de Jezebel.

 

Capítulo 39.

 

No quarto do hotel com o Comandante. Recorda quando a mãe sumiu. Moira disse ter visto a mãe dela em um filme sobre as Colônias.

 

Capítulo 40.

 

Serena Joy facilita para que ela encontre Nick no quarto dele, isolado da casa.

 

Capítulo 41.

 

Ela visita o quarto de Nick diversas vezes.

 

Capítulo 42.

 

Cerimônia de Salvamento: duas Aias e uma Esposa são enforcadas.

 

Capítulo 43.

 

Cerimônia de Particicução: as Aias despedaçam um Guardião com as mãos e a fúria de bacantes. O cara era da Mayday, de acordo com Ofglen.

 

Capítulo 44.

 

Há uma nova Ofglen. A Ofglen anterior enforcou-se viu a caminhonete dos Olhos chegando para buscá-la.

 

Capítulo 45.

 

Serena Joy descobriu que Offred usou a capa e a roupa de lantejoulas, e saiu com o Comandante.

 

Capítulo 46.

 

Offred espera alguma punição, pensa em suicídio. Nick vai ao quarto dela e diz que é Mayday; ela deve fugir na caminhonete dos Olhos. Serena Joy não chamou os Olhos. O Comandante já fica indiferente. Offred entra na caminhonete sem saber se está indo para a morte ou a fuga.

 

Notas históricas

 

Este apêndice, que é uma palestra sobre Gilead em 25 de junho de 2195, tem um tom de piada e zombaria. Parece-me inútil, nada acrescenta ao romance. Os historiadores investigam a autenticidade das gravações de Offred. Não se sabe se ela conseguiu realmente fugir de Gilead. Nesta época, Gilead já acabou.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O Senhor das Moscas, William Golding, 1954

O Senhor das Moscas, William Golding, 1954, 217 páginas, tradução de Geraldo Galvão Ferraz, Nova Fronteira. Início: 04/02/2021 – Fim: 07/02/2021. Nota 2 - Regular

(Escala:1 – Ruim, 2 – Regular, 3 – Bom, 4 – Ótimo, 5 – Obra-prima). 



Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Um avião cai em uma ilha com um grupo de meninos de várias idades; nenhum adulto sobrevive. Alguns meninos tentam alguma organização. Todavia, há os muito pequenos, há os indolentes, e há os que não aceitam regras e se tornam violentos. A violência só aumenta, dois meninos são assassinados. No ápice da irracionalidade, os meninos são resgatados. 

Não gostei. Acho que a história é muito forçada. O autor quer demonstrar uma tese e constrói um canal: a água só vai conseguir correr por aquele canal da tese. 

A tese do autor é algo como a violência se sobrepõe à civilização; o irracional desbanca a racionalidade; a humanidade é naturalmente violenta; ou, mesmo crianças deixadas em condições precárias se tornam selvagens e assassinas. 

A tese pode ser correta, incorreta, parcialmente correta, não importa. É chato ler romance onde se quer comprovar a tese, porque o narrador força a situação. O autor quer provar que é do modo como ele pensa. Eu penso que, nem sempre, é do jeito que ele pensa. 

Como o autor forçou a narrativa? As crianças menores são medrosas e imaginam bichos. Um paraquedista morto cai no topo da montanha da ilha. Duas crianças vêem o paraquedista e seu paraquedas, à noite, e correm do bicho. Os líderes sobem ao topo, de noite, vêem o “bicho” e fogem. Este é um exemplo. Não há espaço para outra situação. Subir ao topo da montanha de dia, por exemplo. 

Outro ponto: não há meninas. A tese do autor não comporta o elemento complicador das meninas. Somente meninos são violentos? Meninos e meninas juntos seriam mais ou menos violentos? A falada evacuação de meninos britânicos era feito com separação de gêneros? 

O autor quer conduzir o leitor. Isso é muito desagradável. 

Outras falhas. 

Não há destroços do avião. Fala-se em fogo e queda, mas sem destroços. Fala-se em evacuação, bomba atômica, batalhas aéreas em altitudes inusuais (16 km de altitude), mas, de repente, o deus ex-machina: um cruzador da marinha britânica aparece para o resgate. 

Todos os meninos são antipáticos. Ralph adquire alguma empatia no decorrer do romance. Porquinho é odiado sem motivo, ou apenas pelo motivo de sempre, porque é gordinho e inteligente. Porquinho não consegue fazer nenhum amigo. Poucos se ocupam das crianças menores. Ora, não pode existir a “tese” de que, mesmo crianças, tendem a cuidar das crianças menores, a protegê-las? Não é um instinto humano? 

A sobrevivência é utópica para que o autor possa focalizar a rivalidade e a violência. Os meninos se alimentam de frutas, que existem em abundância! Ninguém se desidrata, não há dificuldade em conseguir água, nenhuma criança sofre queimaduras de sol. Em lugar de um romance, temos um estudo científico com ratos em um labirinto.


Resumo. 

Capítulo 1. 

Crianças em uma ilha sem adultos. A queda de um avião que foi atacado. Fala-se em bomba atômica e evacuação. Não há destroços. Meninos antipáticos, Jack e Ralph, os líderes. Porquinho é odiado de forma “natural”, sem razão aparente. 

Capítulo 2. 

Desorganização e tentativa de organização. Fazem fogo no topo da montanha com os óculos de Porquinho, e o fogo se espalha. Porquinho é o “pai”, a voz da razão: ignorado ou odiado. 

Capítulo 3. 

O tempo passou. Não conseguiram uma organização, métodos, regras. Fizeram poucas cabanas precárias. 

Capítulo 4. 

Passou um navio mas o fogo estava apagado; o pessoal de Jack estava caçando. Jack é um irresponsável que desafia a liderança. Jack quer brincar perigosamente de caçadas e de violência. 

Capítulo 5. 

As crianças têm medo de bichos imaginários. Tudo as assusta, é natural. 

Capítulo 6. 

O narrador diz que acontece uma batalha áerea. Um paraquedista morto pousa na ilha, no topo da montanha, de noite. Dois meninos vêem a “coisa”, o paraquedas e o homem na noite, e imaginam um bicho. Iniciam uma expedição para achar o bicho. Jack e seus asseclas ficam brincando na formação rochosa que parece um castelo. 

Capítulo 7. 

Sobem a montanha de noite, vêem o bicho e fogem. 

Capítulo 8. 

O grupo se divide: o grupo violento (caçadores de Jack) no castelo; o grupo racional, com os menores, nas cabanas. 

Capítulo 9. 

Simon descobre que o bicho é um paraquedista morto. Desce para avisar, é confundido com um bicho e é assassinado pelo bando. 

Capítulo 10. 

O grupo de Ralph e Porquinho cada vez menor. São atacados por Jack e seus assassinos, roubam o óculos de Porquinho. 

Capítulo 11. 

Ralph e Porquinho vão até o castelo e tentam fazer prevalecer a razão. Porquinho é assassinado. Ralph foge. 

Capítulo 12. 

Ralph se esconde. Jack e os assassinos procuram por ele para matá-lo. Colocam fogo no mato para desalojar Ralph, começam a cercá-lo. Ele corre desesperado para a praia. Deus ex-machina: um cruzador, um escaler, marinheiros e um oficial britânico. As crianças se tornam crianças de novo. Quem vai pagar pelos assassinatos e pela violência e pela irracionalidade?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Medeia, Eurípides, 431 aEC

Medeia, Eurípides, 431 aEC, 98 páginas, tradução de Mário da Gama Kury, Zahar. Início: 27/01/2021 – Fim: 02/02/2021. Nota 3 (Escala:1 – Ruim, 2 – Regular, 3 – Bom, 4 – Ótimo, 5 – Obra-prima).



Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

A peça de Eurípides pode ser lida em poucas horas. Eu levei mais tempo porque fui devagar, degustando. 

O tema da peça é a traição do marido que transforma o amor da esposa em ódio. Traição, depressão, ódio, vingança. Isso acontece até hoje. Na peça, a vingança é adornada com feitiçaria, mas fora esse efeito de magia, é tudo comum aos mortais. Os deuses não participam no desenrolar da tragédia. 

Medeia é casada com Jasão, eles têm dois filhos e vivem em Corinto, cidade grega distante oitenta quilômetros de Atenas. Medeia é repudiada por Jasão, pois ele vai se casar com a filha de Creonte, rei de Corinto. Medeia, inicialmente sucumbe à tristeza. Depois decide se vingar, matando a princesa, o rei e os dois filhos. Depois de executada a vingança, Medeia foge em um carro flamejante de Apolo. Aristóteles criticou esse final com a utilização dessa manobra de deus ex-machina. Todavia, esse recurso não é “a salvação”; funciona mais como recurso de teatro, permitindo uma fuga mais espetacular e permitindo o diálogo final entre Jasão e Medeia. Eurípides poderia ter feito Medeia fugir silenciosamente, à noite, por exemplo, e um mensageiro trazer as notícias para Jasão. 

Resumo. 

Jasão foi enviado à Cólquida, por Pelias, rei de Iolco, para recuperar o velocino de ouro. Lá, ele foi ajudado por Medeia, filha do rei da Cólquida, que estava apaixonada por ele. Medeia domina a arte da feitiçaria e mantém ligação com a deusa Hécate, a deusa da magia e das encruzilhadas. Depois de pegar o velocino, Jasão foge com Medeia no barco Argos. Medeia havia levado com ela o irmão como refém. Para atrasar o pai, ela despedaça o corpo do irmão e joga os pedaços ao mar. 

Em Iolco, Medeia engana as filhas de Pelias e estas matam o próprio pai. Jasão e Medeia fogem para Corinto onde vivem harmoniosamente por dez anos. 

Jasão repudia Medeia porque quer casar com a filha do rei de Corinto. Neste momento, começa a peça. 

Medeia “jaz sem alimento, abandonando o corpo ao sofrimento, consumindo só, em pranto, seus dias todos desde que sofreu a injúria do esposo”. Jasão está afastado dela e dos filhos. Medeia: “filhos malditos de mãe odiosa”. A ama recomenda moderação, conforme preceituava o templo de Apolo: nada em excesso. “Já não existe o lar, tudo acabou”. 

Medeia anseia pela morte. Jasão é pérfido e traidor. As mulheres são as criaturas mais sofredoras neste mundo. Melhor combater nas guerras do que parir. A tristeza de Medeia começa a se tornar fúria. 

O rei Creonte chega e comunica a expulsão de Medeia e dos filhos. Por que? Por medo de Medeia e de suas feitiçarias. “Viver é ter desgostos e eles não nos faltam.” Medeia consegue permissão para ficar mais um dia em Corinto, pois deve conseguir asilo e  recursos para sustentar os filhos; o pai não cuida mais disso. 

Inicialmente, Medeia pensa matar o rei, a filha e Jasão, com a ajuda de Hécate. Jasão e Medeia discutem. Ela recorda que o salvou na Cólquida. Ele diz que ele a trouxe para a Grécia e é melhor estar ali que no fim do mundo. Jasão quer dar parte de suas posses para os filhos e pedir abrigo para ela em outros reinos; ela não aceita. 

Medeia consegue de Egeu a promessa de asilo em Atenas. Ela decide matar a noiva e o rei, e depois matar os filhos para punir o pai. 

Medeia pede a Jasão para que os filhos fiquem em Corinto. Jasão diz que vai tentar. Para favorecer o pedido, Medeia manda os filhos com presentes para a noiva: um véu e um diadema enfeitiçados. Os filhos entregam os presentes e voltam. Medeia ainda duvida conseguir matar as crianças. 

Um mensageiro chega com as notícias: ao colocar o véu e o diadema, a princesa começou a arder em fogo, não conseguia retirar os objetos; sangue, a carne se desprende dos ossos. O rei Creonte tenta ajudar e fica preso nos objetos e morre da mesma forma. 

Medeia firma sua decisão e mata os filhos. Jasão chega, mas os filhos já estão mortos. Medeia aparece sobre a casa em um carro flamejante, enviado pelo Sol (ela é descendente do deus). Ela e Jasão ainda discutem. Ela não permite que ele toque os cadáveres dos filhos nem que os enterre e parte. “Assim termina o drama.”

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

A tempestade, William Shakespeare, 1611

A tempestade, William Shakespeare, 1611, 116 páginas, tradução de Beatriz Viégas-Faria, L&PM. Início: 02/02/2021 – Fim: 04/02/2021. Nota 3 (Escala: 1 – Ruim, 2 – Regular, 3 – Bom, 4 – Ótimo, 5 – Obra-prima). 



Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Logo dizer que “A tempestade” emociona porque parece a despedida de Shakespeare. Não podemos saber se foi essa a intenção, mas parece: dois solilóquios de Próspero permitem essa interpretação. 

A peça conta a história de Próspero, duque de Milão e feiticeiro, expulso pelo irmão, Antônio, que tomou o seu lugar; Antônio foi ajudado na conspiração por Alonso, rei de Nápoles. Próspero exila-se em uma ilha, com a filha Miranda, e toma posse do lugar, por meio de seu poder mágico. A ilha pertence de fato ao semi-humano Caliban, filho da bruxa Sicorax com o demônio Sétebos. 

A peça começa quando Próspero produz uma tempestade contra uma frota que passava ao largo. Um dos navios transportava os nobres: o rei Alonso, de Nápoles, e o usurpador duque de Milão, Antônio, entre outros. Após algumas peripécias, piadas, zombarias, e demonstrações do enorme poder de Próspero, este recupera o ducado e sua filha Miranda prepara-se para casar com Ferdinando, filho do rei de Nápoles. 

Bom o leitor deve considerar, de início, que a peça é uma comédia. Muitas cenas são repletas de piadas, trocadilhos e brincadeiras. Apesar da maldade de Caliban, e da maldade de Antônio, Sebastião, Estéfano e Trínculo, não ocorre a vingança, tampouco a punição, no tempo da peça. 

Próspero aventa, no futuro, uma possível punição a Antônio e Sebastião, que conspiraram contra o rei Alonso, na ilha. Não é dito, mas é possível que Caliban enfim torne-se o dono de sua ilha, novamente, embora solitário, visto que Próspero voltará para Milão. 

A peça é leve, plena de magia, de canções e seres fantásticos, uma fantasia. 

Todavia, cabe considerar outros aspectos. 

- Caliban tem toda a razão em odiar Próspero. A ilha pertence a Caliban visto que pertencia à mãe do monstro, a bruxa Sicorax. Próspero diz, em sua defesa, que tentou de tudo para civilizar o semidemônio, mas será que podemos confiar no feiticeiro? Caliban, não apenas como vingança contra Próspero, que o escravizou, tenta violar Miranda e, se conseguisse, diz que iria povoar a ilha de Calibans. 

- Próspero libertou Ariel de uma árvore, na qual o ser etéreo fora aprisionado pela bruxa Sicorax. A bruxa morreu esquecida de Ariel e ele passou doze anos preso. Em compensação por ter libertado Ariel, Próspero também o escraviza; porém, de forma mais suave: Ariel é o executor de feitiços. Já Caliban faz todo o trabalho pesado. Ariel quer a liberdade, que Próspero demora a conceder. 

- Antônio, irmão de Próspero e usurpador do ducado de Milão, é uma natureza malévola. Ao ver o rei de Nápoles dormindo, logo instila a ambição em Sebastião e sugere ao irmão do rei que mate Alonso para assumir o trono. 

- Miranda tem apenas quinze anos. Como Julieta (treze anos), o que essa tolinha sabe sobre amor? Somente viu na vida o próprio pai e Caliban. Ao ver Ferdinando, se apaixona. Experiência zero. Não sei se pelo tom de comédia ou pela época, a virgindade de Miranda é debatida várias vezes. Ferdinando só promete a ela o casamento se ela for realmente virgem. 

Cabe considerar, ainda, o preconceito de que o belo é bom; o feio e deformado é mau. 

Por outro lado, a peça pode, sim, ser vista como uma divertida festa de duas horas de duração, espetáculo de brincadeiras e magia, na qual Shakespeare, na figura de Próspero, anuncia sua despedida do teatro e pede que o libertem. Mesmo sem esse suposto elemento da “despedida”, a peça é uma festa de magia e fantasia, com toques de maldade extrema e de violência, e com um final leve e melancólico. 

 

Resumo. 

Ato 1, cena 1. 

Tempestade. Naufrágio do navio que transporta o rei de Nápoles e o duque de Milão. 

Ato 1, cena 2. 

O feiticeiro Próspero conta a sua filha Miranda que ele é o verdadeiro duque de Milão. Antônio, irmão de Próspero usurpou o ducado e o expulsou em um barco, com a ajuda do rei de Nápoles. Próspero provocou a tempestade para trazer todos a ilha e executar seus planos. 

Ariel é um ser etéreo e poderoso que obedece a Próspero porque este o salvou de um aprisionamento quando chegou na ilha. Caliban é um ser deformado e monstruoso, filho da bruxa Sicorax, antiga dona da ilha. Próspero tomou a ilha de Caliban. Caliban tentou estuprar Miranda. 

Ferdinando, filho do rei de Nápoles, é trazido por Ariel à presença de Próspero. Interesse mútuo entre Miranda e Ferdinando, como Próspero esperava. 

Ato 2, cena 1. 

Na ilha, o rei Alonso deprimido pela possível morte do filho. Gonçalo, nobre que ajudou Próspero em Milão, tenta animar o rei. Antônio, duque de Milão, e Sebastião, irmão do rei de Nápoles, fazem gracejos e zombarias. Gonçalo descreve a sua Utopia, se governasse uma nação. 

Ariel faz todos adormecerem menos Antônio e Sebastião. 

“This is a strange repose, to be asleep

With eyes wide open – standing, speaking, moving –

And yet so fast asleep.” 

Antônio diz que, com forte imaginação, vê uma coroa sobre a cabeça de Sebastião; com isso instila a ambição em Sebastião, como fez Lady Macbeth: e eles combinam de matar o rei Alonso e Gonçalo. Ariel intervém e acorda os dois. 

Ato 2, cena 2. 

Encontro de Caliban, Trínculo (um bufão), e Estéfano (um bêbado). Os três se embebedam; Caliban imagina que eles podem libertá-lo de Próspero. 

Ato 3, cena 1. 

Ferdinando e Miranda trocam juras de amor e promessas de casamento. 

Ato 3, cena 2. 

Caliban incentiva Estéfano e Trínculo a matarem Próspero e tomarem posse da filha dele e da ilha. 

Ato 3, cena 3. 

O grupo de nobres vaga pela ilha em busca de Ferdinando. Seres mágicos preparam um jantar. Ariel, como harpia, desfaz o jantar e fala da traição a Próspero. 

Ato 4, cena 1. 

Próspero concorda com o casamento de Miranda e Ferdinando. Vários avisos sobre a manutenção da virgindade de Miranda. Uma exibição de deusas e ninfas. A visão se esvanece, como a vida humana. Somos feitos da mesma matéria dos sonhos. 

“The cloud-capp’d tow’rs, the gorgeous palaces,

The solemn temples, the great globe itself,

Yea, all which it inherit, shall dissolve,

And like this insubstantial pageant faded

Leave not a rack behind. We are such stuff

As dreams are made on; and our little life

Is rounded with a sleep.” 

“As torres que alcançam as nuvens, os esplêndidos palácios, os templos solenes, o próprio globo imenso, sim, com tudo o que ele contém, tudo se dissolverá, e como este intangível desfile nebuloso, não deixará sequer um vestígio. Nós somos coisas tais como os sonhos são feitos; e nossa pequena vida é cercada pelo sono.” 

Caliban, Estéfano e Trínculo chegam à gruta para matar Próspero, roubam roupas, mas são perseguidos por cães e gnomos. 

Ato 5, cena 1. 

Solilóquio no qual Próspero se despede da Arte (da magia). Soa como a despedida de Shakespeare do teatro. 

“Eclipsei o sol do meio-dia, convoquei os ventos amotinados. [...] Ao meu comando, sepulturas iam despertando os que nelas dormiam. [...] Aqui e agora, renuncio a essa mágica escabrosa [...] quebro minha varinha mágica [...] e afogarei o meu livro.” 

Ariel traz o grupo de nobres para a gruta de Próspero. Este mostra ao rei Alonso que Ferdinando está vivo. Miranda se extasia com o “admirável mundo novo”. 

“O wonder!

How many goodly creatures are there here!

How beauteous mankind is! O brave new world

That has such people in’t!” 

Próspero recupera o ducado. Não há vingança contra Antônio e Sebastião. Caliban também não é castigado. Ariel é libertado. 

Epílogo. 

Solilóquio de Próspero: nova despedida de Shakespeare. Os feitiços estão terminados, ele pede que o público não o deixe confinado na ilha, pede para ser libertado. 

“Libertem-me de minha atroz prisão ainda agora,

Com palmas, com aplauso, com as mãos tão generosas [...].” 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O colecionador, John Fowles, 1963

O colecionador, John Fowles, 1963, 343 páginas, tradução de Antônio Tibau, DarkSide. Início: 26/01/2021 – Fim: 30/01/2021. Nota 4 (Escala:1 – Ruim, 2 – Regular, 3 – Bom, 4 – Ótimo, 5 – Obra-prima). 



Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Releitura deste romance memorável depois de muitíssimos anos. 

O romance conta, em primeira pessoa, a obsessão de um sujeito limitado culturalmente por uma moça que cursa uma escola de arte. Ele, Frederick Clegg, é funcionário da prefeitura de uma cidadezinha e a vê passar na rua todos os dias. Ela, Miranda Grey, parte para estudar arte em Londres. Mundos culturais totalmente distintos. O sujeito ganha um prêmio de loteria e começa a imaginar como poderia ter a moça como “hóspede”. Ele compra uma casa isolada e um furgão, prepara o cativeiro e sequestra a moça. O leitor acompanha, então, os dias de cativeiro por meio da narrativa enviesada do sequestrador: as tentativas de fuga, as falsas esperanças de liberdade que ele dá a ela, a mente distorcida dele, a gripe dela. 

O nome da moça, Miranda, é também o nome da personagem de “A tempestade”, de Shakespeare. O sequestrador diz a Miranda que seu nome é Ferdinand, e não Frederick, porque Ferdinand é o rapaz que vai casar com Miranda na peça. Todavia, ela passa a chamá-lo de Caliban, o ser meio humano e meio monstro que vive na ilha de “A tempestade” e que tenta estuprar Miranda.   

Depois, o leitor tem acesso ao diário de Miranda, escrito nos dias do cativeiro. Os mesmos acontecimentos, agora narrados pela sequestrada, as tentativas de fuga frustradas, a ilusão de que poderia ser libertada, o horror do cativeiro, do silêncio, da solidão, a variação de atitudes dela (odiar o sequestrador, não colaborar, não comer, sentir empatia pelo monstro, tentar se aproximar dele), e a gripe não tratada que vai levá-la à morte. As recordações de Miranda dos tempos de liberdade, sua família e amigos, seus pensamentos sobre arte. 

O sequestrador narra, então, a sua falta de empenho em tentar ajudar Miranda na grave doença, a sua falta de coragem, a dificuldade em se relacionar com outros humanos e pedir ajuda; tudo isso o torna o assassino dela, por absoluta omissão. No epílogo, o leitor assiste impotente enquanto Clegg inicia a preparação de outro sequestro. 

O romance é fascinante, o leitor torce, se agita, se mexe, quer ler tudo de uma vez, não quer parar de ler, quer saber o final, quer que o livro não acabe; o leitor pressente que o destino de Miranda está determinado, e torce pela personagem, quer que ela fuja de algum modo, frustra-se com as tentativas de fuga infrutíferas, odeia o sequestrador (e diverte-se com a loucura dele, ao mesmo tempo). Um livro tristíssimo e cruel e não dá para não ler.

 

Quase perfeito. 

Não classifiquei o romance como obra-prima por conta de algumas falhas: 

- Deus ex-machina: Frederick Clegg ganha uma fortuna na loteria. Isto facilita o enredo. Este tipo de truque afasta o romance da realidade. O autor poderia ter resolvido a situação de outro modo, economias de Clegg, por exemplo, visto que ele não quase não tinha despesas, e mudança da tia e da prima para a Austrália, e Clegg ficaria com uma casa só para si. 

- Empatia com o sequestrador: talvez o autor tenha feito de forma proposital; o leitor não sente uma total ojeriza pelo monstro. Clegg chega a ser engraçado, o leitor ri da loucura, ri do afastamento dele da realidade. Como quando Clegg culpa Miranda por tudo, pelos castigos que ele impõe a ela, pelo agravamento da própria doença, tudo culpa dela. Quando Clegg fica magoado por alguma grosseria de Miranda. A empatia do leitor com o sequestrador diminui o horror do cativeiro de Miranda, e isso é terrível. É possível que o autor tenha propiciado a empatia do leitor com o criminoso para que fosse possível compreender a empatia que se estabelece, às vezes, entre Miranda e o monstro. A expressão “Síndrome de Estocolmo” surgiu em 1973, dez anos depois da publicação deste romance, mas o leitor percebe que Miranda apresenta muitos momentos de apego ao seu sequestrador. 

- A fixação de Miranda pelo pintor quase fracassado G. P. é enfadonha, muitas vezes, e diminui a força do romance. Os preconceitos de Miranda acerca de arte e de gente também causam irritação: Miranda sabe tudo, sabe qual é a arte “certa” e quais são as ideias “certas” sobre arte e sobre o mundo. Neste sentido, ela se assemelha, sem perceber, ao sequestrador, visto que Clegg tenta sempre falar e se portar da forma “correta”, correta de acordo com as opiniões dos outros, correta de acordo com o padrão da sociedade.

 

A edição da DarkSide. 

Em termos de objeto e design, excelente: capa dura, figuras antigas de borboletas, páginas especiais, tudo bacana. 

Em termos de conteúdo, péssima edição: 

- A tradução tentou atualizar algumas gírias da personagem (1963): exemplo: "eu disse a ele na real o que eu pensava sobre..." Ora, a tradução deveria procurar gírias que estivessem em uso em 1963. 

- A tradução não atentou para o problema dos "seu" e "sua", que em português refletem o gênero da "coisa possuída", enquanto em inglês "his" e "her" refletem o gênero do "dono da coisa". A tradução deveria ter usado mais frequentemente os "dele" e "dela". O texto resultou confuso em muitas partes. 

- A tradução suprime com excessiva frequência os pronomes pessoais "eu" e "ele", e não atenta para o fato de que, por exemplo, "fazia" primeira pessoa e "fazia" terceira pessoa são a mesma palavra e confundem o leitor. 

- Há muitos errinhos que passaram na revisão. 

- As notas, que se apresentam na forma de um posfácio, sem numeração, dirigem-se a leitor de dez anos de idade ou mentalmente incapaz. Por exemplo: as notas dizem que em 1963 não havia "textão das redes sociais" e os pensadores usavam a literatura para "dissecar o mundo". Uau! Anotam também que as referências artísticas do romance são "easter eggs". O pior: que Rembrandt era "fã e precursor do selfie, cinco séculos antes do smartphone". Que pobreza mental explicar Rembrandt dessa forma.

 

Resumo. 

Parte 1. 

O narrador é um funcionário subalterno de um cidade próxima a Londres. Saberemos mais tarde que o nome dele é Frederick Clegg. Ele mora com a tia e a prima, é colecionador de borboletas e nunca teve contato mais íntimo com qualquer mulher. Ele admira uma moça da cidade, Miranda Grey. A moça vai estudar arte em Londres. Clegg ganha um prêmio de loteria (um deus ex-machina que facilita o enredo). A tia e a prima embarcam para a Austrália. Clegg descobre onde Miranda estuda, em Londres, e a observa. Compra um furgão para fotografar e caçar borboletas. Começa a planejar o sequestro de Miranda. Compra uma casa antiga, no campo, afastada de tudo, com um adequado porão. Realiza o sequestro de Miranda. Primeiros dias do cativeiro. Miranda o trata como perturbado, “eu posso te ajudar”, ela diz; ele se ofende. Ele mente e diz que seu nome é Ferdinand (para se referir ao pretendente de Miranda em “A tempestade”). Notícias sobre o desaparecimento da moça nos jornais. Primeira tentativa de fuga. Primeiro banho no andar superior da casa. Discussões, discordâncias, brigas. Ela pergunta se ele é bicha. Miranda diz que ele deveria ser chamado de Caliban, não de Ferdinand. Miranda pede que ele não a estupre com violência; se vier a acontecer, ela não vai lutar. Segunda tentativa de fuga, ela fingia estar com apendicite. Tentativa de mandar um bilhete minúsculo dentro de uma carta para os pais, autorizada pelo sequestrador. Terceira tentativa de fuga: com um prego de quinze centímetros, ela consegue retirar três ou quatro pedras, mas por trás há rocha. Na noite anterior à “libertação”, jantar, vestido, colar e anel, um falso pedido de casamento. Ela tenta fugir pela porta, é sedada, levada para o porão, ele faz fotografias dela com calcinha e sutiã. Na volta do banho, uma machadinha esquecida, ela o ataca, consegue fazer um corte na têmpora, mas é dominada. Outra noite, depois do banho, tenta seduzi-lo, ficam nus, nada acontece, não dá certo. Ele mente e diz que não pode fazer sexo. Ele consegue, desde que seja dentro das fantasias malucas dele. Ela pede para habitar um quarto na casa, para ter ar e luz. Ele faz mais uma falsa promessa. No dia de subir para o tal quarto, ele diz que quer fazer fotos dela, nua, ela não aceita. Ela pegou gripe. Discutem, ele a amarra e faz as fotos. Ela piora da gripe. 

Parte 2. 

É o diário de Miranda. Ela anota seu medo, os dias, seus pensamentos e recordações. Pai, mãe, irmã, amigos e o pintor G. P., um cara mais velho do que ela, uma fascinação, um tipo de mentor; um artista meio fracassado, meio revoltado, inteligente, culto. Ela anota diálogos com Caliban. O diário mostra a variação de atitudes dela frente ao sequestrador. As ilusões dela, o medo, o horror da situação. Ilusão de que ele a deixaria ir embora um dia. As brigas, a tentativa de seduzir o sequestrador. As ideias dela, ou de G. P., sobre arte e sobre pessoas. A ingenuidade dela. É triste acompanhar a saúde dela se deteriorando. 

Parte 3. 

O sequestrador narra os últimos dias de Miranda. As fracas e inúteis tentativas dele em salvar a vida dela. A culpa foi dela. Ele pensa em se matar, um pacto suicida. 

Parte 4. 

Epílogo. O sequestrador não se matou. Enterra o corpo de Miranda. Começa a imaginar que poderia até trazer outra hóspede.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Lady Macbeth do distrito de Mtzensk, Nikolai Leskov, 1865

Lady Macbeth do distrito de Mtzensk, Nikolai Leskov, 1865, 95 páginas, tradução de Paulo Bezerra, Editora 34. Início: 28/01/2021 – Fim: 29/01/2021. Nota 3 (escala de 1 a 5). 



Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Este livro me interessou a partir de uma resenha de Tatiana Feltrin (clique aqui). 

Catierina Lvovna é uma personagem com traços de Lady Macbeth, como diz o título, e também de Madame Bovary. Uma mulher jovem cercada por tédio, tédio, tédio – palavra que se repete três vezes no primeiro capítulo – casada com um marido muito mais velho e desinteressado, um comerciante que queria um herdeiro, algo que ele não conseguira com a primeira esposa. Como acontece na época, a culpa da ausência de filhos é de Catierina. A moça conhece um funcionário da propriedade, mulherengo, começam um caso, e iniciam uma série de assassinatos. Catierina é o motor dos crimes, o rapaz a segue, um pouco desinteressado. Às vezes, o rapaz parece despertar a ambição em Catierina. Catierina envenena o sogro que havia descoberto a traição. Ela o faz de moto próprio. Depois, mata o marido e, depois um menino, um possível herdeiro. A ascensão do casal de amantes é rápida, mas não há o tempo da fruição: logo, os crimes são descobertos. Começa a segunda parte da história, na qual Catierina e o amante seguem em longa marcha para a Sibéria. O amante se enrabicha com outras prisioneiras. O final trágico acontece em uma balsa sobre o rio Volga. Um bom livro, vale a pena conhecer a história e o tipo de narrativa que interessava a Leskov, histórias do povo russo. 

No posfácio, Paulo Bezerra conta que episódios da infância de Leskov aparecem nas histórias dele. Como o caso da nora que “despejou lacre fervente no ouvido” do sogro: isto faz recordar de “Hamlet”, porque o rei Hamlet é assassinado pelo irmão com veneno no ouvido. No mesmo caso, Leskov diz que a jovem nora foi torturada na praça e que “todos se admiraram de sua brancura”. 

Catierina não é uma Lady Macbeth diretamente. É algo mais difuso. De Emma Bovary, ela tem o tédio, a vidinha sem graça, e o rapaz bonito que a encanta, que dá um certo romantismo ao cotidiano insípido. De Lady Macbeth, Catierina não tem o aparente arrependimento. Ou seja, Catierina aguenta o tranco de seus crimes, enquanto Lady Macbeth “se quebra”. Catierina não se quebra pelo remorso: ela se quebra pela volubilidade do amante e se vinga. De Lady Macbeth (e da peça Macbeth), temos aqui a frieza nos crimes, a visão dos fantasmas, a rejeição ao filho recém-nascido (aventada por Lady Macbeth, se fosse necessário), a sucessão de crimes, a morte da criança (como o filho de Macduff), e o suicídio. Cabe observar que os fantasmas não afetam Catierina com a intensidade com que afetam os Macbeth: para Catierina, parecem ser um pequeno incômodo. O suicídio de Catierina é mais amplo que o de Lady Macbeth, porque se reveste de vingança, de desistência e de homicídio. 

É curioso notar como Leskov descreve certos detalhes que não afetam o enredo, e que nenhum dos personagens está presenciando ou percebendo: uma alegre matilha de cães que passa na estrada sem nenhuma ruído, um rato que rói uma pena debaixo de uma estufa. 

Resumo. 

Capítulo 1.

O narrador apresenta Catierina, vinte e quatro anos, que casa com Zinóvi, mais de cinquenta anos. Ela casou porque era pobre, não podia escolher muito e ele a pediu em casamento. Zinóvi, viúvo de um casamento de vinte anos sem filhos. Cinco anos de casamento com Catierina e nada de filhos. Catierina é acusada de ser estéril. Tédio absoluto de Catierina na casa da família. 

Capítulo 2. 

A barragem do moinho da família se rompe; Catierina fica sem o marido por algum tempo. Conhece o empregado Serguiêi. 

Capítulo 3. 

Serguiêi vai ao quarto de Catierina. 

Capítulo 4. 

Depois de alguns dias, o sogro descobre o arranjo, prende e chicoteia o rapaz, manda chamar o filho. Descaradamente, Catierina pede que o sogro solte Serguiêi. A petulância da nora, antes submissa, espanta o velho. 

Capítulo 5. 

Catierina envenena o sogro, liberta o amante, faz-se o enterro rapidamente. Ela convive abertamente com Serguiêi na propriedade, frente aos outros empregados. 

Capítulo 6. 

Catierina sonha com um gato que invade o quarto e atrapalha o sono dela. Ela e Serguiêi tomam chá no crepúsculo, sexo ao luar, descrito de forma suave e divertida: “um estridente dueto de gatos; ouviu-se depois um escarro, um bufido raivoso”. 

Capítulo 7. 

O gato do sonho é o sogro assassinado. O marido volta em segredo. Ele entra silenciosamente na casa para tentar flagrar o crime. Mas, Catierina percebe a chegada do marido e, inclusive, “chega até a ouvir-lhe as batidas aceleradas do coração ciumento” atrás da porta do quarto. Esse trecho faz recordar “O coração denunciador”, de Edgar Allan Poe (1843). Após o marido levantar suspeitas, ela traz o amante para o quarto do casal, beija-o e desafia o marido. 

Capítulo 8. 

Os amantes matam o marido de Catierina. Serguiêi enterra o corpo sem que ninguém saiba. 

Capítulo 9. 

Catierina pede autorização para cuidar dos negócios. Surge o menino Fiódor, parente distante, candidato à herança. Catierina está grávida do amante. 

Capítulo 10. 

Serguiêi e Catierina incomodados com o menino. Serguiêi não quer dividir a herança. Ela se prepara para matar Fiódor. 

Capítulo 11. 

Os amantes sufocam o menino. Pessoas que saíam da missa percebem o crime, cercam e invadem a “casa pecaminosa”, “como sombras fantasmáticas”. 

Capítulo 12. 

Os amantes são presos. Serguiêi confessa os crimes; depois dele, Catierina também confessa. Os amantes são açoitados e condenados à deportação para trabalhos forçados. “O carrasco aplicou o devido número de vergões rubro-azuis nas costas brancas e nuas de Catierina Lvovna”. Na prisão, ela tem um bebê, mas o abandona. 

Capítulo 13. 

Catierina e Serguiêi são levados, juntamente com uma leva de prisioneiros, em longa caminhada para a Sibéria. No grupo, há duas mulheres que interessam a Serguiêi: Fiona e Sônia. 

Capítulo 14. 

Serguiêi se enrabicha com Fiona e depois com Sônia. Ele passa uma das noites com Catierina e pede a ela um par de meias. Essas meias, ele dá à Sônia. 

Capítulo 15. 

Na caminhada, Catierina vê Sônia com as meias; ataca e xinga Serguiêi. De noite, ele a ataca com cinquenta chibatadas. Fiona a acolhe. Catierina fica adoentada; a marcha prossegue, é inverno. Balsa sobre o rio Volga, agitado. Nas ondas do rio, ela vê o sogro, o marido e o menino. Catierina agarra Sônia e se joga no rio com ela.