sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Números

Números, Bíblia de Jerusalém. 

Esta é uma leitura literária de Números. Este livro, como quase todos os outros da coleção, é repleto de símbolos, metáforas, eventos fantásticos, místicos e mágicos, que possibilitam variadas interpretações. 

Neste livro, o leitor pode passar por cima dos monótonos recenseamentos do povo que está no deserto, sem prejuízo do entendimento. Acerca disso, tem-se que, no início do tempo no deserto, o povo conta seiscentos mil e, no final, também seiscentos mil, embora esta geração final não seja a geração inicial. 

O povo passou quarenta anos no deserto? Pode ser que sim, pode ser que não. É símbolo: o povo passou “muito tempo” no deserto. O povo saiu do Egito e se tornou um povo nômade do deserto. As terras boas além do deserto estavam ocupadas, evidentemente, e o povo nômade tentou algumas vezes invadi-las, sem sucesso. Aquele povo nômade olhava com inveja a terra boa dos outros. Iahweh, essa invenção, não deu terra a ninguém. É um argumento jurídico e mitológico que os nômades usaram para alegarem “direito” sobre as terras boas. O povo nômade do deserto não era bonzinho: era um povo selvagem, bárbaro, violento, haja vista as carnificinas que perpetraram em suas tentativas de invadirem as terras férteis. 

As pragas relatadas neste livro são pragas, pestes, epidemias normais em uma grande população sem acesso a condições ideais de saneamento e higiene. Todavia, a explicação mística é simples: o povo errou, Iahweh enviou uma praga, o povo sofreu, Iahweh retirou a praga. Pode-se imaginar as pragas que atingiriam tal população: cólera, varíola, gripe, peste, entre tantas. Incenso que Aarão fazia circular no acampamento não servia de nada. 

A partir dessas doenças epidêmicas, a legislação que advém é higiênica, porém revestida de caráter místico. Exemplos. Aquele que teve contato com sangue e cadáveres nas batalhas deve ficar fora do acampamento por alguns dias para se purificar. É evidente que essa norma de higiene diminui a possibilidade de contaminação. Da mesma forma, aquele que teve contato sexual com prostitutas ou mulheres de outras tribos deve se purificar. 

Enfim, neste livro, destaco o ritual do ciúme, um ritual bárbaro, misógino, machista e simbólico, e também a constituição das cidades de refúgio, relacionadas com a incipiente legislação acerca de intenção e culpa. 

Resumo. Números pode ser dividido em partes. 

1. Faz-se um recenseamento do povo que está no deserto com Moisés, são seiscentos mil, e a definição das ocupações dos levitas, que cuidam da Habitação. A ordem das tribos no acampamento, o recenseamento dos levitas. 

2. Reúne algumas leis. A lei do ritual para o ciúme é muito curiosa. Se a mulher dormiu maritalmente com um homem, às escondidas de seu marido e se não foi surpreendida no ato ou não há testemunhas, ou se um espírito de ciúme veio sobre o marido, deve-se: levar a mulher ao sacerdote e o marido faz uma oferenda de farinha de cevada, esta é a oferenda do ciúme. O sacerdote colocará água em um vaso de barro e pó do chão do Tabernáculo na água, agora chamada de águas amargas. O sacerdote fará a mulher jurar que não cometeu a falta e, depois, ela beberá as águas amargas. Se ela for culpada, seu sexo vai murchar e seu ventre vai inchar. Isso é indígena, isso é de povos selvagens, esse ordálio (quando a prova judiciária é feita com a concorrência de elementos da natureza e cujo resultado era interpretado como um julgamento divino). Se uma mulher teve contato sexual com algum homem fora do casamento, seu sexo pode realmente murchar: uma doença sexualmente transmissível. Seu ventre pode realmente inchar, ou seja, ela pode ficar grávida. 

Depois, fala-se nas leis para o nazîr (nazireu) e o nazireato, Sansão, por exemplo foi um nazîr, o nazîr não pode cortar o cabelo, usar bebidas fermentadas nem se aproximar de cadáveres. Rituais tolos. 

3. Trata de oferendas das tribos e define que os levitas devem se aposentar aos cinquenta anos, que bom. 

4. Novamente a Páscoa. Regras para celebrar a Páscoa. Moisés consulta Iahweh quando surgem dúvidas, qualquer coisinha, uma consultinha a Iahweh. O povo marcha no deserto guiado por uma estranha Nuvem. Quando a Nuvem para, eles acampam, quando ela se move, eles se movem. Regra sobre o uso das trombetas. Marchas no deserto são como uma campanha militar, o guia se chama, até hoje, o olho da caravana. 

5. Etapas no deserto. Volta a história do maná e das codornizes. Maria e Aarão falaram mal de Moisés porque este tomou uma mulher cuchita. Iahweh castigou apenas Maria com a lepra, machismo óbvio. Aparentemente, ela foi perdoada depois de sete dias. Foram enviados olheiros para a terra de Canaã. Eles voltaram com produtos da terra, mas revelaram que a terra estava ocupada por povos mais fortes que os israelitas. O povo teve medo e reclamou novamente, o Egito era melhor. Povo insatisfeito, reclama o tempo todo. Caleb, todavia, disse que não deviam ter medo porque Iahweh estava do lado dos israelitas. De todo modo, Iahweh se arretou e disse que aquela geração não entraria na terra prometida. Somente quarenta anos depois poderiam entrar. Parte dos israelitas tentou ainda entrar pelas montanhas ao sul, sem que a Arca os acompanhasse, mas foram rechaçados. O povo seguiu, então, na direção do Mar de Suf para entrar pelo leste. Esta composição mostra as campanhas militares daquele povo para tentar entrar e ocupar as terras de Canaã. 

6. Sacrifícios e oferendas por faltas cometidas. Apedrejamento do homem que foi apanhar lenha no sábado. Um grupo de duzentos e cinquenta israelitas se rebelou contra a liderança de Moisés. Ele colocou-os na frente da Tenda da Reunião e Iahweh fez a terra abrir a boca e engolir todos eles, que “desceram vivos ao Xeol”. Xeol é o Hades dos hebreus. Xeol designa as profundezas da terra, para onde os mortos descem, os bons e os maus sem distinção, onde Deus não é louvado, contudo o poder de Deus age mesmo lá no Xeol. Talvez Moisés tivesse alguns truques de magia, pólvora não existia, mas algo semelhante, para produzir a tal Nuvem e as manifestações de Iahweh. A gente vai compreendendo que é tudo muito simbólico e muito derivado de acontecimentos reais na origem. A obsessão com a pureza derivava das doenças e pragas. Uma praga aconteceu e deixou quatorze mil e setecentos mortos: quem gerou a praga foi a cólera de Iahweh porque, obviamente, o povo falhou em algo. Aarão combateu a praga com incenso, que para nada serve, mas a praga acabou um dia; quem acabou com a praga? Iahweh. Iahweh bota praga e tira praga, sem qualquer motivo. Tudo Moisés consultava Iahweh; nem se tivesse um celular ligado diretamente com lá-em-cima. Na verdade, Moisés inventava a lei que queria e botava a culpa em Iahweh. Toda hora é Iahweh disse isso, Iahweh disse aquilo. Iahweh disse que a melhor parte das oferendas ficava para os sacerdotes, o melhor vinho, o melhor azeite, o melhor novilho de cada rebanho, a melhor parte do cordeiro. Claro que quem faz leis sem restrições se beneficia delas. Iahweh ensina fazer uma oferenda de uma novilha vermelha sem defeito e perfeita, que deve ser queimada, o holocausto. As cinzas são usadas para fazer a água lustral, que é como uma água santa ou água benta, para purificação – novamente a obsessão de limpeza. Quem se aproxima de cadáver fica impuro. Faz sentido, porque não se sabe qual doença produziu aquela morte, peste, gripe, cólera. Então, o impuro fica fora da tribo por sete dias e lava a si e a suas vestes com a água lustral. 

7. De Cades a Moab. O povo de Israel é como um exército que vai invadir Canaã, os povos de Canaã tentarão evitar, resultado batalhas. Em Meriba, Iahweh achou que Moisés e Aarão duvidaram dele, não se sabe bem o motivo, e ficou enraivecido e disse que ninguém entrava na terra prometida. Em Edom, os israelitas pediram permissão para cruzar o território pela estrada real, foi recusada a permissão. Desviaram por outra região. A morte de Aarão é esquisita, ele sobe em uma montanha, passa o cargo para o filho e morre, sem motivo aparente; só se estava doente. O rei de Arad foi para cima de Israel que marchava para entrar no reino, Israel perde, depois ganha. O povo marchou em direção ao golfo de Ácaba, mas chama tudo de Mar de Suf. O povo reclama o tempo todo, ô povinho. “Saraf”, essa palavra, significa serpente, ou serpente de fogo, e também está na raiz da palavra serafim, curiosa palavra que serve para o bem e para o mal. Ataques de serpentes são combatidos com uma incoerência divina: Iahweh, aquele mesmo que condenou o bezerro de ouro, ordena que Moisés faça uma serpente de bronze na ponta de uma haste para proteger e salvar o povo dos ataques de serpentes. Descobre-se que havia livros ainda mais antigos que estes que chegaram até nós, por exemplo, o livro das Guerras de Iahweh. Os israelitas seguem sua marcha militar derrotando reis como Seon e Og. Balac, rei de Moab, teme os israelitas, e manda chamar Balaão, sacerdote, profeta, para amaldiçoar aquele povo, Balaão vai em sua jumenta e por três vezes ela sai do caminho, até que a jumenta pergunta “por que me bates?” e aparece o Anjo de Iahweh que estava bloqueando o caminho, mas agora deixa Balaão passar, vai Balaão e encontra Balac. E Balãao abençoa Israel três vezes, por ordem de Iahweh. Então Balac se arreta, mas segue seu caminho, incompreensível, e a história termina aqui, sem saber se Israel derrotou Balac. Israel se fixou perto de Moab e houve prostituição com as moabitas, Iahweh arretou-se e mandou logo empalar aqueles que foram com as moabitas. Também veio uma praga e morreram vinte e quatro mil e a praga cessou quando o neto de Aarão matou um israelita que foi para o acampamento com uma madianita: ele transpassou os dois com uma lança. Iahweh ordenou atacar os madianitas. As relações entre Israel e os vizinhos varia entre batalhas e alianças. 

8. Novo recenseamento, seiscentos mil, também recenseamento dos levitas. Iahweh diz que se um homem morrer sem filhos, transmite-se a herança para as filhas. Iahweh anuncia que Moisés vai morrer sem a terra prometida, ainda por alguma falta na Meriba, e Moisés pede a indicação de um novo líder, que vai ser Josué. Iahweh pede uma montanha de oferendas, dois cordeiros em holocausto todos os dias, o holocausto do mês com dois novilhos, um carneiro, sete cordeiros e mais um bode. Definem-se as festas, páscoa, festa das aclamações, das expiações, das tendas. Lei sobre votos, que é simples: “prometeu tem que cumprir”. Promessas feitas por mulheres só valem se validadas por pai ou marido. 

9. Despojos de guerra. Guerra contra Madiã: mulheres e crianças cativas, gado, rebanhos, bens, queimaram tudo, mataram Balaão, que havia abençoado Israel três vezes, crueldade. Moisés não gostou de terem trazido mulheres e crianças, ordenou que ficassem apenas com as moças virgens e as meninas, matassem o resto, sobraram trinta e duas mil virgens, evidente exagero. Os combatentes ficaram fora do acampamento israelita para se purificarem com água lustral e quarentena de sete dias. Divisão dos despojos entre a comunidade, sacerdotes e levitas. Os filhos de Ruben e de Gad pedem para ficar na Transjordânia, nas terras de Jazer e Galaad. Moisés não quis, advertiu que Iahweh poderia aumentar o tempo deles no deserto, mas eles disseram que iriam às batalhas por Canaã e voltariam depois, e Moisés disse “assim ok”. Novamente, lista das etapas do êxodo, é chute, etapas conflitantes, incoerentes, mar dos Juncos. Iahweh ordena que quando atravessarem o Jordão, destruam estátuas e templos, tomem posse da terra, expulsem os habitantes. Iahweh estabelece os limites geográficos da terra prometida: Iahweh atua como agrimensor ou topógrafo. Citam-se os príncipes de cada tribo. Quarenta e oito cidades são para os levitas, e seis delas são cidades de refúgio. Aquele que matar alguém involuntariamente se abrigará nas cidades de refúgio. Para homicidas, a pena de morte, que é executada pelo go’el, que é o vingador do sangue de uma dada família, é o protetor daquela família. Se o homicida não teve a intenção, não será morto, mas vai morar em uma cidade de refúgio até o dia em que o sacerdote daquela cidade morrer. Então, poderá sair da cidade de refúgio. Se o homicida não intencional sair antes da cidade de refúgio e for encontrado pelo go’el, este poderá matá-lo e não sofrerá qualquer pena. Em casos de homicídio, não pode haver apenas uma testemunha. Iahweh faz melhoramento na lei de herança das filhas: elas só poderão ficar com a herança do pai se casarem dentro da mesma tribo do pai, para não diminuir o total de terras da tribo. Fim de Números.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, 1925

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, 1925, 228 páginas, tradução de Claudio Alves Marcondes, Penguin Companhia. Início: 25/12/2020 – Fim: 06/01/2021. Nota 2 (escala de 1 a 5). 

Aviso de spoiler: vou escrever sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

É um livro famoso, mas não é um livro inesquecível ou relevante. Deixa-se ler. Principais defeitos: arrastado, monótono, personagens antipáticos, tudo é frívolo, tudo são aparências. Qualidades principais: a contundente história paralela de Septimus Warren Smith, o suicídio de Septimus, a loucura, as reflexões sobre a morte. 

A história se arrasta em um único dia de junho, uma quarta-feira. Clarissa Dalloway, cinquenta e poucos anos, recém saída de alguma doença, vai dar mais uma de suas festas. Clarissa sai de casa, compra flores, volta para casa, conserta um vestido que havia se descosturado. De noite, recebe os convidados, a festa evolui e termina. 

Este é o eixo que estrutura o livro. Em torno desse eixo, orbitam trechos de outras vidas, outros personagens. 

Peter Walsh, amigo da juventude, foi apaixonado por Clarissa, mas ela preferiu o apático Richard Dalloway. Peter é um fracassado, viajou, aventurou-se, casou, separou, morou na Índia, lá mantém um caso com Daisy, uma mulher casada. Peter voltou para Londres batendo lata, vai tentar descolar algum empreguinho. Visita Clarissa no dia da festa, de manhã, e participa da festa à noite. Continua fascinado pela insignificante Clarissa. Dava até para gostar do personagem, sarcástico, vê que todos ali vivem de aparências, mas é um fraco, também, e não conseguiu se livrar dessa paixonite inútil da juventude. 

Clarissa Dalloway é isso: insignificante, sem cultura e sem conhecimentos, sua única habilidade e único divertimento é dar essas festas imotivadas. Superficial, arrogante, insegura. 

Richard Dalloway, desinteressante. Elizabeth Dalloway, a filha, saindo da adolescência, parece querer desafiar o domínio da mãe, mas não parece que conseguirá, fraca, insegura, mimada. 

Sally Seton, enfim uma personagem da qual se pode gostar. Por pouco tempo. Amiga da juventude de Clarissa e Peter. Clarissa foi atraída sexualmente por Sally, até apaixonada. Sally era esfuziante, desafiadora, moderna. Todavia, depois da juventude, casa com um lorde qualquer e bota cinco filhos no mundo. 

O grande personagem do livro é Septimus Warren Smith, que não mantém nenhuma relação direta com Clarissa. Septimus e a esposa, Lucrezia, estão no parque e Peter passa por eles. Na festa, o médico de Septimus comenta sobre ele com Richard e Clarissa. Ou seja, a história de Septimus é completamente apartada daquela de Clarissa, seus convidados frívolos e sua festa frívola. 

Lucrezia é uma coitadinha, relativamente ingênua, uma italiana que teve o infortúnio de casar com Septimus em um arroubo de entusiasmo. 

Septimus participou da Grande Guerra, presenciou tragédias e a morte de um amigo. Desalentado e sem sentir nada, ainda na Itália, casa-se com a jovem Lucrezia e voltam para a Inglaterra. Septimus retoma seu emprego, tem uma boa carreira pela frente. Todavia, Septimus está completamente enlouquecido. Tudo o que não sentiu na guerra e no pós-guerra se transformou em vozes, visões, epifanias. Ouve revelações, escreve mensagens sobre o fim dos tempos, ouve e sente a natureza, vê e ouve o amigo morto. A loucura de Septimus é bela, é grandiosa. Septimus anuncia que vai se matar, faz planos para se matar juntamente com Lucrezia. Ela faz com que consulte os médicos, que não resolvem nada da situação dele. No dia da festa de Clarissa, uma consulta com um médico renomado que recomenda a internação; depois, de tarde, a calma, uma conversa até normal entre o casal. Chega o médico e Septimus pula pela janela, espatifa-se em cima de uma gradil. 

Repito, toda as partes que se referem a Septimus conformam o melhor do livro. Não sei se, naquela época, Virginia Woolf já havia passado por episódios de loucura. De todo modo, há bastante verossimilhança na loucura de Septimus, no desejo de morte dele, e na incapacidade dos médicos. 

Aquela “sociedade” inglesa retratada no romance é detestável. Gente insatisfeita e superficial. A vida de Clarissa é uma farsa: ela teme a morte e a loucura, é frígida e sentia atração por mulheres, mas afasta de si qualquer pensamento perigoso. 

Um livro regular, abaixo da média; penso que se pode passar pelo mundo da literatura sem conhecê-lo.


Resumo (não há capítulos ou divisões no livro). 

Clarissa Dalloway sai para comprar flores, vai dar uma festa à noite. Recorda-se de Peter Walsh, amigo com quem não se casou. Septimus e a esposa passam pela mesma rua da floricultura. Clarissa volta para casa. Começa a consertar o vestido e pensa em sua frigidez e seu gosto por mulheres. Peter faz uma visita breve, chora e foge. Peter caminha pela cidade e vai ao parque, recorda a juventude, Sally, Clarissa e Richard. Septimus delira no parque; conta-se a história dele, a morte do amigo, o casamento, a loucura, o tratamento inútil com o médico Holmes. Septimus e Lucrezia são atendidos pelo médico Bradshaw. Hugh e Richard almoçam com Lady Bruton que queria ajuda para escrever uma carta para um jornal sobre a emigração de jovens para o Canadá. Richard compra flores, leva-as para Clarissa em casa, e sai novamente. Miss Kilman, uma mulher religiosa, amarga e pobre, que se tornou amiga e mentora de Elizabeth. As duas saem para fazer compras e tomar chá. Elizabeth ansiosa para se ver livre de Kilman, despede-se e caminha pela cidade. Pensa em se tornar fazendeira ou médica. Septimus, em casa, entre a realidade e o delírio. Chega o médico Bradshaw, Septimus se joga da janela. Peter no hotel, se arruma, desce para jantar, caminha para a festa de Clarissa. A festa: somente futilidades. Peter, Sally Seton, o primeiro-ministro. O médico conta a Richard sobre o suicídio de um paciente. A mulher do médico conta a Clarissa sobre o suicídio. Fim de festa feira, gente frustrada, aparências, a fascinação do Peter Tolinho pela Clarissa Vazia. Fim. 


Trechos: 

“Precisava ter um filho como Septimus, dizia. Mas ninguém podia ser como Septimus; tão gentil; tão sério; tão inteligente. Não podia ela ler Shakespeare também? Era um autor muito difícil?, perguntou. 

Não dá para ter filhos em um mundo assim. Não dá para perpetuar o sofrimento, ou multiplicar a raça dessas criaturas lascivas, que não têm emoções duradouras, mas apenas caprichos e vaidades, que as arrastam ora para um lado, ora para outro.” 

“Oh, meu Deus!, ocorreu a Clarissa, bem no meio da minha festa, eis que chega a morte, pensou.” 

“Que direito tinham os Bradshaw de falar da morte em sua festa? Um rapaz havia se matado. E comentavam isso em sua festa – os Bradshaw falavam da morte.” 

“A morte era um desafio. A morte era uma tentativa de comunicar; [...] Havia um abraço na morte.” 

“Depois (só nessa manhã ela se dera conta) havia o terror; essa incapacidade assoberbante, colocada em nossas mãos pelos pais, essa existência, para ser vivida até o fim, para ser acompanhada serenamente; no fundo de seu coração jazia um pavor medonho. Mesmo agora, quantas vezes não teria perecido, se Richard não estivesse ali lendo o Times, permitindo a ela se encolher como um pássaro e pouco a pouco recobrar o calor, fazer com que essa alegria imensa se inflamasse, raspando um toco de madeira no outro, uma coisa na outra. Ela conseguira escapar. Mas aquele rapaz se matara.”

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Leituras janeiro 2021

Os livros que estou lendo em janeiro 2021 (parece ficção científica isso, ano 2021). Leitura inédita somente Mrs. Dalloway, os outros releituras:





quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Tchekhov e o mar

Encontrei em Murakami, “1Q84”, volume 1, tradução de Lica Hashimoto:

“A finalidade da narrativa, em linhas gerais, é desenvolver um problema colocando-o sob outro parâmetro. Conforme a maneira de se expressar e o sentido dessa colocação, a própria história é que vai sugerir algumas respostas possíveis.”

E depois, Murakami citando Tchekhov:

“O escritor não é uma pessoa que soluciona problemas. É uma pessoa que os propõe.”

Em “1Q84”, o personagem Tengo lê um livro de Tchekhov sobre a ilha de Sacalina. Há o seguinte trecho sobre o mar:

“O mar é turvo, gelado, e suas brancas ondas de três metros, ao quebrar, parecem bramir: Deus! Por que tu nos criaste? Eis que estou em pleno Oceano Pacífico. [...] Ao redor não existem pessoas, aves, sequer uma mosca e, num local assim, há de se indagar: Para quem, afinal, essas ondas estão a bradar? Quem ouve este bramido todas as noites? O que essas ondas desejam? Para quem elas vão bradar quando eu partir?”

É curioso imaginar que este trecho de Tchekhov deve ter sido traduzido para o japonês – para que Tengo pudesse lê-lo – e traduzido para o português, por Hashimoto. Tradução da tradução.

Daí que em Tchekhov, “A dama do cachorrinho”, tradução de Boris Schnaiderman, encontra-se sensação semelhante frente ao mar:

“[...] o som monótono, abafado, do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam Ialta, nem Oreanda; o mesmo ruído faz agora e fará, do mesmo modo indiferente e abafado, quando não existirmos mais. E nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do incessante movimento da vida sobre a terra, da perfeição imorredoura.”

Ao final, o mesmo sentimento de Tchekhov frente à imensidão e ao mistério.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Nos dias que correm

Isabel escreveu: “Nos dias que correm (e correm!), estou lendo Mrs. Dalloway, Woolf, Virginia, e o volume 2 da trilogia 1Q84, Murakami, Haruki. Destaco esse trecho de Mrs. Dalloway, quando Peter Walsh volta da Índia, se julgando um fracassado:”

‘E então eles viviam ali, com seus armários de roupa branca e seus mestres antigos da pintura e suas fronhas com renda de verdade, desfrutando de uma renda de cinco mil ou dez mil por ano possivelmente, ao passo que ele, dois anos mais velho que Hugh, tinha de implorar por um emprego.’

É sempre intrigante como, nos séculos antes do vinte, havia gente que vivia sem trabalhar, de “rendas” que provinham de onde? Encontra-se isso em todo canto, em Machado, em Jane Austen. Possivelmente, é a concretização daquele ditado: pai rico, filho nobre, neto pobre. O país está cheio desses netos lascados de antigas famílias dos engenhos, das fazendas – ainda fazendo de conta que são ricos. Em “Anna Kariênina” também temos muito disso; o próprio Vronski, amante de Anna, é um nobre cheio de dívidas. A única pessoa que trabalha em Kariênina é Liev, alter ego de Tolstói. Este é do campo e realmente trabalha em sua fazenda.

Na literatura, era comum o personagem que não trabalhava, e o trabalho era uma vergonha. Mesmo os remediados não trabalhavam, como em Jane Austen, “Orgulho e preconceito”. O pai de Elizabeth não é nobre nem muito rico, mas não se sabe do que ele vivia. De posses? de terras? Assim, em geral. Carlos Eduardo da Maia se forma médico só de brincadeira; uma pessoa da classe dele não trabalharia de médico. Então, parece que era comum esse viver de algum dinheiro de família (embora isso seja literatura).

Hoje, na literatura, os personagens trabalham. E paralelamente, no mundo real, eu não conheço gente que vive dessas rendas misteriosas. É claro que deve existir gente que vive de renda, de heranças, mas não é tão comum como “nos antigamentes”.

Eu, aqui, no meu trabalhinho medíocre de advogada, tenho que dar o sangue, e o suor, para que as moedinhas pinguem na minha conta todos os meses.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Museu

 Isabel Castellar escreveu:

Museu, sou contra museus, museu em último caso, museu é para dia de chuva ou de neve, inverno no hemisfério norte, temporada de chuvas no hemisfério sul, museu em dia de sol, belo dia de sol, de primavera, outono ou verão, é perda de tempo, é perda de vida, perda da beleza dos dias nas ruas, nas praias. Museu de noite também vale, museu é para de noite. Também, se só tenho aquela oportunidade de ver uma obra famosa, “Moça com brinco de pérola”, sacrifico um pouquinho do ar livre para entrar no museu. Museu é para, no máximo, uma hora, uma hora e meia. Depois disso, a gente não entende mais nada do que está vendo. Museu é para entrar e ver somente uma, duas, três obras importantes, no máximo cinco, degustar de verdade essas tais obras. Entrar e ver um Canaletto, que nem é “artista maior’, ver um Cabanel, que nem é artista maior, museu para ver um quadro só, uma escultura só, de nada adianta ver cem peças de arte, cérebro nenhum, sensibilidade nenhuma suporta isso.

Porque falei em museu, me ocorreu, será que alguém no mundo, alguém de bom senso, alguém que tem um pouquinho de sensibilidade, acha bonita alguma pintura de Tarsila? Tudo ruim, tudo primário, qualquer feira de interior se encontra algo semelhante, infantil. Mas vale milhões. Vá entender.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Lispector & Woolf

Isabel Castellar:

No conto “A imitação da rosa”, do livro “Laços de família”, Lispector, Clarice, percebe-se que a personagem principal, uma mulher, teve algum tipo de crise, da qual se recuperara e, naquele momento, “as pessoas felizmente ajudavam a fazê-la sentir que agora estava “bem”.” Ela achava contraditórios os conselhos do médico porque, por um lado, dizia que não deixasse o estômago vazio, isso causa ansiedade, tomasse um copo de leite entre as refeições, o que ela fazia religiosamente, mesmo sem ansiedade; por outro, o médico dizia que não forçasse nada, que tudo viria com naturalidade; então, ela tentava tomar o copo de leite obrigatório com naturalidade. No entanto, a contemplação de um buquê de rosas fez a “crise” voltar, aquele “algo” voltou, e ela disse ao marido “não pude impedir”, e ela se tornou “luminosa e inalcançável”, “alerta e tranquila como num trem. Que já partira.”

E eu pensei: “a vida de esposa e dona de casa é mesmo enlouquecedora”.

Curiosamente, em Mrs. Dalloway, Woolf, Virginia, a gente encontra o personagem Septimus, que “havia dito: ‘Vou me matar’, e isso era algo horrível de se dizer.” A mulher de Septimus não quer que o vejam, eles estão na rua, e o leva para um parque, porque “é melhor esconder o fracasso.” Passa um avião e a mulher: “Veja, Septimus, veja!, exclamou. Pois o dr. Holmes havia recomendado que procurasse desviar a atenção do marido (que no fundo não tinha nada de grave e estava só um pouco descompensado) para coisas que o afastassem de suas preocupações.” Acontece que todas as árvores, folhas e galhos estavam iluminados e acenavam para Septimus. Todavia, ele não queria enlouquecer, ele tentava fechar os olhos para não ver mais nada e não conseguia. E a esposa não aguentava mais: “Para ela , melhor seria que ele estivesse morto! Não conseguia ficar sentada a seu lado quando ele ficava com esse olhar tão fixo, sem vê-la, que tornava tudo terrível”.

E eu pensei: “a vida de maridos e esposas é mesmo enlouquecedora”.

Melhores leituras e releituras de 2020

Melhores leituras de 2020:

- A casa das belas adormecidas - Yasunari Kawabata

- Frankenstein ou o Prometeu moderno - Mary Shelley

- O médico e o monstro - Robert Louis Stevenson

- Romeu e Julieta - William Shakespeare

- Flores para Algernon - Daniel Keyes

- Otelo - William Shakespeare

- De repente a vida acaba - Clotilde Tavares

- Laranja mecânica - Anthony Burgess


Melhores releituras de 2020:

- A letra escarlate – Nathaniel Hawthorne (releitura)

- Amor Insensato - Junichiro Tanizaki (releitura)

- Dom Casmurro - Machado de Assis (releitura)

- Macbeth - William Shakespeare (releitura)

- A revoada - Gabriel García Márquez (releitura)

- O alienista - Machado de Assis (releitura)

- Felicidade demais - Alice Munro (releitura)

- A metamorfose - Franz Kafka (releitura)

- São Bernardo - Graciliano Ramos (releitura)

- Histórias de cronópios e de famas - Júlio Cortázar (releitura)

- Grandes esperanças - Charles Dickens (releitura)

- A prisioneira - Marcel Proust (releitura)

- Admirável mundo novo - Aldous Huxley (releitura)

A letra escarlate, Nathaniel Hawthorne, 1850

A letra escarlate, Nathaniel Hawthorne, 1850, 332 páginas, tradução de Christian Schwartz, Penguin Companhia. Início: 15/12/2020 – Fim: 24/12/2020. Nota 4 (escala de 1 a 5). 

Projeto de releitura de livros que tenho nas estantes e dos quais lembro quase nada. Deste só lembrava que a moça surgia grávida, era rejeitada por todos, não falava quem era o pai. 

Aviso de spoiler: em geral, escrevo sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

O volume da Penguin Companhia traz prefácio à segunda edição, de Hawthorne, o ensaio “A alfândega”, de Hawthorne e posfácio de Nina Baym. 

Recomendo este livro, vale a pena a leitura e a releitura. O enredo é simples, mas o autor transporta o leitor para o meio da vila de Boston em 1650 e para o pensamento puritano que era, então, preponderante. 

A jovem senhora Hester Prynne aparece grávida e não declara quem é o pai da criança. Ela é casada, mas está sem o marido, pois faz dois anos que chegou à Nova Inglaterra e até aquele momento o marido não foi se juntar a ela. Hester é julgada por adultério; poderia pegar a pena de morte, mas os juízes foram condescendentes e a condenaram apenas a ser exposta no cadafalso durante três horas e a usar, dali por diante, uma letra A vermelha, A de adúltera, no peito. 

Em nenhum momento, o autor declina o significado da letra A, embora na praça, durante a exposição de Hester no cadafalso, as matronas da cidade a chamem de meretriz e prostituta. Com o passar do tempo e com o comportamento rígido e irrepreensível de Hester, a letra A se converte em A de anjo e abnegada, entre outras conotações. A letra escarlate colocada sobre a roupa de Hester, costurada com esmero e com tecidos e fios especiais por ela mesma, parece também emanar algum poder e irradiação. A letra escarlate é um sinal de Caim, pois, ao mesmo tempo em que traz a marca do crime, traz também um poder e uma proteção especial ao portador. Chego a pensar que o emblema descrito por Hawthorne viria a inspirar o emblema dos super-heróis, duzentos anos depois, o S do Superman, o morcego no peito do Batman. 

Além de luminoso, o emblema ostentado por Hester dá a ela o poder de perceber a falsidade e os pecados dos outros, sejam eles nobres juízes, pastores, matronas ou donzelas. 

Nina Baym em seu posfácio declara que Hester Prynne é a maior heroína da ficção norte-americana. Não conheço tanto da ficção de lá, mas, efetivamente, Hester é a grande personagem do livro: mulher corajosa, destemida, arrogante, impositiva, decidida. Ela não se arrepende do que fez e desafia a comunidade onde vive somente com sua presença e seu emblema. 

Não sei se algum leitor da época de Hawthorne deixava de perceber, a partir do terceiro capítulo, quem era o pai do bebê com o qual Hester estava sendo exposta no cadafalso. Fica evidente que o pai é o pastor Dimmesdale, aquele que tem a tarefa de exortar Hester a confessar o nome do homem que pecou com ela, e para quem o bebê levanta os bracinhos quando o pastor aparece para falar. 

O pastor Dimmesdale é um personagem totalmente apático e antipático. Homem fraco, pusilânime, egoísta e hipócrita. “Caiu em tentação” uma única vez com Hester e não teve a coragem nem a dignidade de assumir o erro. Passou sete anos cuidando da comunidade, envolvido em sua própria hipocrisia. 

Durante a prisão de Hester, o marido dela aparece incógnito na vila. Não se explica como o relacionamento deles se deu nem como se separaram; fica implícito que Hester o abandonou. Todavia, ele se sente no direito de querer vingança contra o pastor, visto que logo percebe quem foi o autor do pecado. Ele se torna o médico da vila e exige dela silêncio sobre o antigo relacionamento. 

Não se compreende o amor de Hester pelo hipócrita Dimmesdale, mas ele existe e perdura. Talvez ela tivesse essa atração por homens sem dignidade, visto que o marido também não é uma boa pessoa. O amor, ou a obsessão, de Hester pelo pastor faz com que ela permaneça morando na periferia de Boston, ostentando seu emblema, quando poderia muito bem ter ido para outra cidade ou para a Inglaterra, onde não saberiam nada de seu “crime”. Ela pode ter tido, também, o gosto perverso de passar na cara dos puritanos o crime de adultério. É a parte mais incompreensível e falha do romance porque fica claro que o pastor é covarde e egoísta e que abandonou a moça e bebê à própria sorte. Hester voltar à Boston no último capítulo e, ao morrer, ser enterrada junto ao crápula não parece crível.

No decorrer de toda a narrativa, o leitor vai perceber o sarcasmo e a ironia do autor; Hawthorne se diverte com a falsidade dos puritanos, com o medo e a atração que sentem pelo pecado e pela feitiçaria. Acerca desse tema, a feiticeira da vila, que será queimada na fogueira anos mais tarde, também parece ter o poder de ver além das aparências. Ela convida Hester para ir à floresta encontrar o Homem das Trevas; Hester declina do convite, mas é na floresta, sob uma atmosfera fantástica, que ocorrerá o encontro decisivo entre Hester, Pearl e o pastor. 

A feitiçaria, o demônio, a atração dos puritanos pelo mal, a floresta misteriosa, abordados neste romance, também são tema do autor no famoso conto “O jovem Goodman Brown”, no qual um jovem puritano de Salém, deixa sua bela esposa Faith (Fé) em casa e vai passar a noite na floresta. Lá, ele assiste a um culto dos adoradores do demônio do qual participam todos os moradores ilustres da vila, inclusive sua Faith. O jovem teve um pesadelo ou aquilo aconteceu? Não importa. O mal visto ou sonhado vai tornar amarga toda a vida dele daí por diante. 

Cabe, também, falar sobre o ensaio introdutório “A alfândega”. Este ensaio compunha o volume original elaborado por Hawthorne, mas não é indispensável ao romance, tanto assim que, em muitas edições, não foi anexado. Recomendo ler “A alfândega” depois da leitura do romance. O ensaio descreve o tempo em que Hawthorne foi inspetor na alfândega de Salém e descreve o horror que é o serviço público. O autor se viu embotado na literatura por conta do trabalho burocrático. Neste ensaio, Hawthorne usa aquele recurso batido do manuscrito encontrado; ele descreve, desse modo, que vasculhando o amontoado de papéis velhos no segundo andar do prédio, encontrou o próprio emblema da letra escarlate e um relato sobre o caso. 

Enfim, “A letra escarlate” é um clássico e, como tal, “é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, como escreveu Italo Calvino. 

Resumo: 

1. A porta da prisão. Cemitério e prisão definem a nova colônia, Boston, cerca de 1650. Esta é uma história de dor e fragilidade humanas. 

2. A praça pública. As mulheres daquela época são mais fortes e rudes, apresentam mais ousadia e exuberância no discurso (a raça decaiu). Hester Prynne foi julgada, chamam-na de meretriz, de prostituta, de sem vergonha. Ela sai da prisão com uma marca no peitoral da túnica, muito bem costurada. Tem um bebê de três meses que só viu a cela da prisão até aquele momento. Jovem, bela, alta, uma aura, o vestido foi feito por ela na prisão, com a letra escarlate A, que funcionava como um feitiço, afastando-a das relações humanas (como o sinal de Caim). Subiu ao cadafalso da praça para ser exposta até uma hora da tarde. Era impulsiva e apaixonada, pareceria uma Madona. Enquanto exposta com o bebê, recorda sua vida na Inglaterra e no continente, para onde foi com um velho sábio. 

3. Um rosto conhecido. Um velho e um índio na multidão, Hester reconheceu o homem. Ela era casada e veio na frente do marido para a Nova Inglaterra. Depois de dois anos, sem o marido, grávida, e não confessou quem seria o pai. Poderia ter sido condenada à pena de morte, mas decidiram por, apenas, três horas de exposição pública e o uso do símbolo no peito. O reverendo John Wilson pede que o reverendo Dimmesdale exorte a condenada a revelar o nome do pai da criança. O bebê eleva os bracinhos na direção do pastor. Hester se nega. Volta para a prisão. 

4. O encontro. Roger Chillingworth é o velho da multidão, médico e marido de Hester. Não sabemos ainda como se conheceram, casaram, separaram. Ele dá medicamentos a ela e à criança, pede que ela não revele o antigo relacionamento entre eles. Quer saber quem é o pai da menina. 

5. Hester a bordar. Hester é libertada e vai morar em uma casa afastada com a filha, ela é hábil costureira e tem muitos clientes apesar da má fama. O autor fala em sinal de Caim, algo que já destaquei desde o início. Hester poderia ter ido embora e livrar-se até da letra mas ficou na vila. A letra parece lhe dar um superpoder, uma percepção, ela sente a hipocrisia e os pecados dos outros, juízes, pastores, matrona e donzelas. 

6. Pearl. Hester procura na menina algum defeito correspondente ao pecado que deu origem à criança. A menina não obedece porque uma lei maior já fora desobedecida. O temperamento da mãe na época do pecado passara para a menina. Hester condenou a criança a uma vida difícil e de isolamento ao ficar na vila. Ela percebe, ou quer perceber, um demônio na menina, às vezes. 

7. O palácio do governador. Querem tirar a menina da pecadora e Hester vai à casa do governador com a criança. A menina está vestida de vermelho e a própria representação viva da letra escarlate. 

8. A menina-fada e o pastor. O governador está com John Wilson, Dimmesdale e Roger. O governador e Wilson ameaçam tirar a menina de Hester para dar uma educação correta à criança. Hester dirige-se a Dimmesdale e ordena que a defenda, e ameça, não perderá a filha. Ele a defende e a menina fica com Hester, por enquanto. A feiticeira convida Hester para um ritual na floresta, ela declina do convite. 

9. O médico. Um boticário e um barbeiro cuidam da saúde da vila (personagens tão comuns nos livros e contos do século XIX, Machado, Flaubert). Agora se tem Roger Chillingworth, o médico. O médico se torna amigo do pastor Dimmesdale, sempre adoentado, vão morar em quartos da mesma casa, de uma viúva, o quarto do pastor tem tapeçarias com Davi e Betsabá, sarcasmo e brincadeiras de Hawthorne. Parte do povo via o médico como Satã impondo sofrimentos ao pastor. 

10. O médico e seu paciente. Certo trecho em que descreve um ladrão a entrar em um quarto para roubar o olho de alguém, fez lembrar o conto “O coração denunciador” de Poe (1843). O médico quer descobrir o segredo da doença do pastor, quer conhecer a alma do pastor. O pastor dorme pesadamente, o médico examina o peito do pastor e sai exultante, diabólico. 

11. O interior de um coração. O médico quer se vingar do pastor. Este, quanto mais angustiado, mais eloquente. Quer se punir, quer revelar o segredo, mas é fraco, hipócrita, pratica autoflagelação. Neste capítulo, enfim, o autor revela aquilo que o leitor já sabia há muito, o pai de Pearl é o pastor. 

12. A vigília do pastor. No cadafalso durante a noite, remorso e covardia. Hawthorne é sarcástico, irônico, divertido. Hester e Pearl, vindas da casa de um moribundo, passam na praça e sobem ao cadafalso para se juntar ao covarde. O médico passa e leva o pastor para casa. 

13. Outra visão de Hester. Hester pensa que tem responsabilidades para com o pastor. Ora, o covarde é que tem responsabilidades para com ela e a filha, e não as cumpre. Após sete anos com o símbolo, Hester se tornou respeitada na vila, o A é de abençoada, e quer ajudar o pastor. 

14. Hester e o médico. Hester conversa com o médico, seu marido. Não se conta o que houve, nove anos atrás, que resultou na separação. O médico diz que ela e o pastor não são pecadores e que ele não é o demônio, tudo é o destino, e diz a ela que faça o que quiser em relação ao pastor. 

15. Hester e Pearl. Para Hester, o maior crime foi ter sido seduzida pelo velho, o médico. Diz que foram felizes por um tempo. O que aconteceu? Hester ainda ama o covarde do pastor. Sente que saiu de dentro de si um “guardião” e que entrou um “demônio”. 

16. Um passeio na floresta. Hester e Pearl vão a floresta para encontrar o pastor que vai passar por ali. 

17. O pastor e sua paroquiana. Hester revela ao pastor que o médico foi seu marido. O pastor diz que ela é a culpada por tudo, pelo sofrimento dele. Ô povinho, a mulher é a culpada sempre. “O que fizemos foi sagrado” diz Hester em autoengano. Hester diz ao pastor que vá embora da cidade. Sozinho? “Não precisa ser sozinho”. 

18. Um dilúvio de luz. O pastor decide fugir de Boston com Hester e a filha. Hester retira a letra, o sol ilumina tudo. 

19. A criança à beira do riacho. Mais um capítulo de delírio florestal. Hester relembra que o pastor a defendeu corajosamente. Autoengano: ele a defendeu porque sentiu a chantagem quando ela disse “defende-me”, ele a defendeu por medo de que ela revelasse o segredo. 

20. O pastor no labirinto. O pastor é um cara doente, covarde, inseguro, pusilânime. O estilo de Hawthorne é excessivamente grandiloquente, às vezes. O pastor volta modificado para a cidade, tem vontade de fazer coisas más, dar “certas sugestões blasfemas” para o jantar comunal. “Muito tempo pode se passar até que as palavras habitem as coisas”. O pastor escreve o sermão do dia seguinte. 

21. Feriado na Nova Inglaterra. Dia da confirmação do novo governador, a praça pública cheia de gente. Os puritanos são um povo sem alegria. Hester é informada pelo capitão do navio de que o médico também reservou um lugar. 

22. O desfile. Vem o cortejo, o pastor caminha com uma postura arrojada. A feiticeira parece saber o que aconteceu na floresta. Insinua que Hester e o pastor pertencem ao Homem das Trevas. A feiticeira pode não compreender o mundo, louca, mas vê o recôndito. O capitão do navio manda um recado a Hester pela menina-fada: o médico conduzirá o pastor para o navio no dia seguinte. 

23. A revelação da letra escarlate. O cortejo sai da igreja, o pastor sobe a o cadafalso com Hester e Pearl e revela o segredo; mostra o peito nu, não se descreve o que há, revela-se como pecador e morre. 

24. Conclusão. Havia relatos divergentes sobre a marca no peito do pastor, inclusive que não havia nada. O pastor era uma criatura falsa, baixa, marcada pelo pecado, covarde, hipócrita, egoísta, egocêntrico. O médico definha e morre, deixa herança para Pearl. As duas vão embora da Nova Inglaterra, mas Hester volta anos depois. Usa o emblema sem necessidade e se torna conselheira informal das mulheres. É enterrada junto ao crápula. 

Trecho: 

“Os fundadores de uma nova colônia, seja qual for a utopia sobre a virtude e a felicidade humanas que tenham projetado de partida, invariavelmente aceitam, como uma de suas primeiras necessidades práticas, escolher um pedaço de terra virgem para servir de cemitério e uma segunda porção de terreno para construir uma prisão.”

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Listas

Isabel::

"Aquela moça que tanto admiro e acompanho, Tatiana Feltrin, declinou os doze livros que pretende ler no próximo ano. De fato, ela lê bem mais por ano, acho que uns sessenta livros, mas estes são “os fixos”, um para cada mês:

- Janeiro: O homem que era Quinta-Feira (G. K. Chesterton)

- Fevereiro: Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar)

- Março: Portões de fogo (Steven Pressfield)

- Abril: Shakespeare - Biografia (Anthony Burgess)

- Maio: A República (Platão)

- Junho: Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (Goethe)

- Julho: Middlemarch (George Eliot)

- Agosto: Lavoura arcaica (Raduan Nassar)

- Setembro: O livro do travesseiro (Sei Shônagon)

- Outubro: A história secreta de Twin Peaks (Mark Frost)

- Novembro: Biografia das irmãs Brontë (Juliet Barker)

- Dezembro: Memórias do subsolo (Fiódor Dostoiévski)

Não tenho uma lista assim para o próximo ano. Quero misturar uma leitura, uma releitura, uma leitura, uma releitura, no ano que vem. As releituras serão daqueles livros que tenho na parca estante e dos quais não lembro quase nada. As leituras de inéditos seguirão ao sabor do momento. De todo modo, eu inventei uma regra – ou li em algum lugar e agora penso que fui eu que inventou – uma regra: os clássicos devem ser relidos a cada cinco anos. Ao menos seis livros importantes quero reler no próximo ano:

- Moby Dick, Herman Melville

- Ulysses, James Joyce

- Anna Kariênina, Liev Tolstói

- O jogo da amarelinha, Julio Cortázar

- O velho e o mar, Ernest Hemingway

- Paris é uma festa, Ernest Hemingway


Ao menos seis inéditos para mim que pretendo ler no próximo ano:

- Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

- Ao farol, Virginia Woolf

- A outra volta do parafuso, Henry James

- A morte de Ivan Ilitch, Liev Tolstói

- O deserto dos tártaros, Dino Buzzati

- Absalão, Absalão, William Faulkner


Vai ver que é bom fazer listas assim porque vão me ajudar a seguir um objetivo, um caminho de leitura. Neste ano, não foram poucos os livros lidos, mais de sessenta. Então, é esperar um bom próximo ano de leituras."


Sem laços

Isabel: "Amanhã tem clube de leitura, era para ler alguns contos de Lispector, Clarice, do livro “Laços de família”, eu li quase todos, nunca havia me interessado pela obra dela, e depois de ler esses poucos contos, considero supervalorizada. Os contos são medianos, alguns desinteressantes, alguns bons. Na seara dos contos, muito aquém de, apenas como exemplo, Munro, Alice. Um monte de mulher oprimida pela vida de dona de casa. Não dava para imaginar outras histórias, interrogação. Sim, eu me sinto próxima daquelas mulheres, além de dona de casa, mãe, funcionária, esposa, angustiada, agoniada, insatisfeita, sem saída, sim, sou tudo isso, mas não amei os contos, não se acertaram comigo. No clube, não sei se vou dizer o que achei, às vezes fico calada quase todo o tempo da reunião, tenho vergonha dos meus pensamentos. Quem sabe. Eu sei, que queria ser outra pessoa, mas se eu fosse a outra pessoa, eu teria outro conglomerado abrangente de queixas. Quem sabe. Às vezes, acho que não, que sim. Eu vejo aquela moça que trabalha com livros, eu gostaria sim, eu trabalho com a aridez das leis, o que eu escrevo é “conforme”, “de acordo”, “ademais”, “concomitantemente”, “portanto”, “artigo”, “haja vista”, “inciso”, “parágrafo”. Na juventude, a gente faz muita merda, eu achava bonito as leis, pensava que ia ser juíza e corrigir o mundo. Quase todo mundo é assim, o jovem estudante de engenheiro, como meu marido, pensa que vai construir pontes magníficas, até ligar continentes, depois cai na real, cai no mundo do dinheiro, faz qualquer funçãozinha subalterna na engenharia e levando esporro dos superiores. É assim. Vai demorar muito tempo para que eu dê outra chance a Lispector. Decepcionante."

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Homem em queda, Don Delillo, 2007

Homem em queda, Don Delillo, 2007, 256 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras. Início: 11/12/2020 – Fim: 15/12/2020. 

Projeto de releitura de livros que tenho nas estantes e dos quais lembro quase nada. O que eu lembrava desse livro de Delillo era pouco. Sabia que falava no 11 de setembro, que havia uma personagem feminina e que não havia gostado do livro no geral, somente isso, absurdo como esse livro não marcou, não ficou na memória, e não havia anotações sobre. Fiz a releitura. 

Não gostei do livro, não leria novamente nem recomendo. Não é um livro essencial, é dispensável. 

Aviso de spoiler: em geral, escrevo sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

O livro é uma tentativa mal sucedida de contar o choque causado a uma família pelo ataque ao World Trade Center, extrapolando o choque particular para o choque nacional. É uma tentativa mal sucedida porque o enredo, ralo, saiu tedioso, monótono, repetitivo. Sim, pode-se pensar que a forma da narração corresponde à forma de agir e pensar de quem está em estado de choque. Todavia, este choque se reveste de monotonia, de cenas sem função na história, e de apatia, e este choque poderia durar menos, não ocupar todas as 256 páginas do livro. 

Keith estava no WTC quando os aviões atacam. Ele desce as escadas atordoado, chega à rua e vai para a casa da ex-mulher, Lianne. Compreende-se o atordoamento de Keith, todavia esse atordoamento não mais o deixa, é para sempre. Lianne recebe o ex-marido, ela também em choque com o atentado, leva-o ao hospital, cuida dele. Nos dias seguintes, Keith não sabe mais o quer da vida, ou não quer nada da vida. Lianne e o filho deles esperam. Esperam até demais, três anos. Keith torna-se um viciado em jogo, vive em cassinos, volta para casa vez em quando. O último capítulo em que Lianne aparece, dá a entender que ela se sente bem e não vai mais querer a presença do amalucado Keith. Ela vai continuar sua vida, somente ela e o filho, de onde parou três anos antes. 

Ao redor desse enredo simples, aparecem a velha e arrogante mãe de Lianne, que está se aproximando da senilidade e da morte, o namorado esporádico da mãe, um comerciante de arte europeu, a turminha que jogava pôquer com Keith em descrições chatíssimas sobre esse jogo chatíssimo, Florence Givens, também uma sobrevivente do ataque com a qual Keith mantém um caso volátil de quinze dias, o pai de Lianne que se suicidou e o Homem em Queda, um artista que faz a performance de se pendurar de cabeça para baixo em pontes e viadutos. 

O melhor personagem é Lianne, a gente torce por ela, a gente gosta de ver que ela caminha para a frente, que ela vai superando a situação, apesar do tom lento e tedioso da narração. Os outros personagens não produzem um milímetro de empatia no leitor. O filho do casal, por exemplo, é um menino distante, antipático, arrogante. Como se pode ver no resumo abaixo, são inúmeras cenas sem consequência, cenas que podem ser retiradas e não mudam em nada a história. 

Abaixo segue resumo de cada capítulo com um ou outro comentário. 

Parte 1. Bill Lawton (saberemos depois que Bill Lawton é como o filho do casal chama a Bin Laden). 

Capítulo 1. Começa no onze de setembro: um homem que conseguiu sair de um dos prédios atacados caminha em meio ao caos, atordoado, como em um sonho ou pesadelo. Saberemos seu nome mais tarde, Keith. 

Capítulo 2. Lianne recebe um cartão postal com um poema de Shelley sobre o Islã, três dias depois do ataque, por coincidência. Lianne e o filho Justin na casa da mãe dela, Nina Bartos. Keith é o ex-marido de Lianne, mas no atordoamento, ele foi para a casa dela. Martin, namorado da mãe, chega da Europa, conversam sobre as torres, casamento, separação. 

Capítulo 3. Lianne leva Keith ao hospital, fragmentos de vidro no rosto, estilhaços orgânicos existem quando há um homem-bomba, conta o médico. Isabel é a mãe dos crianças amigas de Justin. Lianne é revisora, trabalha em casa. Keith trabalhou dez anos no WTC, quando se separou foi morar perto do trabalho. O prédio dele está interditado. 

Capítulo 4. Lianne é voluntária em um grupo de pacientes de Alzheimer, para escrever e conversar. Homem em Queda é um artista, sua performance é se pendurar de cabeça para baixo, terno e pasta, como as pessoas que pularam do WTC. Lianne foi pegar a mãe na estação de trem e viu o Homem em Queda. Ela dorme com o ex-marido, tensão sexual leve. Keith pegou uma pasta qualquer durante a descida da escada do WTC e levou para casa, não era dele. As crianças usam um binóculo para procurar aviões. O pai de Lianne se matou antes da senilidade. Martin Ridnour no apartamento da mãe, nada mais parece exagerado, eles dizem; ora, hoje temos a pandemia, a história sobrepuja acontecimentos. Nada é grandioso demais, espetacular demais. A mãe de Lianne, rigorosa, agora está envelhecendo, fraquejando. 

Capítulo 5. Keith vai à casa da dona da pasta, Florence Givens, ela conta como foi a fuga no WTC. Keith no parque com Justin, Lianne no grupo de Alzheimer, escrevem sobre onde estavam quando aconteceu. Lianne tem insônia, a música árabe da vizinha Elena a incomoda. Lianne e Keith fazem sexo, o mais carinhoso que já fizeram. As crianças procuram aviões, Bill Lawton é Bin Laden. 

Na Marienstrasse. É um capítulo sem número sobre muçulmanos. Hammad conversa com um antigo soldado iraquiano de Saddam, a guerra Irã x Iraque, apartamento na Marienstrasse onde planejam os ataques, capítulo inútil, mostra a conversão de Hammad à jihad, o que pode Delillo saber sobre a mente de um muçulmano jihadista, me pergunto. 

Parte 2. Ernst Hechinger (saberemos depois que este é o verdadeiro nome de Martin, namorado da mãe de Lianne, mas isso não tem nenhuma importância para o livro). 

Capítulo 6. Keith com Florence, revivem o trauma, fazem sexo, Florence descrita como negra de pele clara, desajeitada, feiosa. Lianne no grupo de Alzheimer. Keith chuta a porta de Elena, a da música árabe. Longas descrições sobre a bobagem do pôquer, essas homices de amigos do pôquer. Jantar em família, falam em férias, filho chato, arrogante, o passado antes da separação quando qualquer pergunta era hostilidade, Lianne presta atenção em Keith, estão cuidadosos, se dedicam ao outro, ele usa a palavra “realmente”, ela nota que era a palavra que ele usava antes quando mentia, ela tem o impulso de querer saber tudo sobre a pasta e mais. Keith com Florence e um vago desconforto. 

Capítulo 7. Na casa da mãe de Lianne, a discussão repetitiva sobre Islã x Ocidente. Lianne agride Elena, a vizinha da música, sem consequências. Recordações de Keith e Rumsey, colega do pôquer e do trabalho. Lianne no grupo de Alzheimer, ela conta ao grupo onde estava no dia do ataque. Keith recorda do pai, Keith se acha nascido para ser velho, o pai tem satisfação com a velhice, memórias do pôquer, o colega Terry Cheng. Lianne recorda o suicídio do pai. Keith com Florence na loja de colchões, briga com cara que falou de Florence, sem nenhuma consequência. Keith e Lianne assistindo os aviões batendo nas torres, de novo. 

Capítulo 8. Keith com Florence, os dias seguintes do dia do ataque, distanciar-se e analisar os acontecimentos. Carol, a editora, e um livro sobre os sequestros. Lianne no grupo d Alzheimer, Keith na academia, Lianne na casa da mãe, conversam sobre Martin, uma tem raiva da outra. Novamente o pôquer. Lianne com Elena na lavanderia. Dia de chuva, Lianne na rua, prédio dos irmãos buscar o menino, Lianne desequilibrada quase ataca a menina amiguinha do filho. 

Capítulo 9. Lianne no grupo de Alzheimer, Keith no parque com o garoto, Florence é um duplo de Keith, diz o autor, Keith disse a Florence que acabou. Lianne na rua, Keith enumera as possíveis consequências de contar sobre Florence a Lianne, não vai contar. Lianne vê o Homem em Queda. Keith e Justin indo em direção a Lianne, encontram-se na rua, possivelmente a única cena quase feliz da história. 

Em Nokomis. Capítulo sem número sobre os terroristas. Hammad e os terroristas na Flórida. No momento em que se está executando aquilo que foi longamente planejado, não há mais nada para pensar. 

Parte 3. David Janiak (saberemos que é o nome do Homem em Queda). 

Capítulo 10. Três anos depois do ataque, a mãe de Lianne morreu faz quatro meses, Lianne e Justin em uma passeata, muito se faz pelos filhos sem ter a mínima vontade. Ela tem uma rotina discreta e protegida, gosta da rotina, o garoto é muito chato, não dá para o leitor gostar desse garoto antipático, egoísta, arrogante. Lianne recorda quando esteve no Egito, Lianne se preocupa com a sua genética e o Alzheimer. Keith, o fraco, se tornou um viciado em jogo, passa os dias em cassinos, Las Vegas e outras cidades, e apenas alguns dias com Lianne e Justin. Avisado da morte da mãe de Lianne, veio Martin, conversa babaca sobre a relevância da “América”, dá nojo essa norte-americanice, não é só ser o centro do mundo (talvez), é se achar o centro do mundo. Martin gostava de Nina porque a conversa entre eles nunca terminou. 

Capítulo 11. Keith nos cassinos, encontra Terry Cheng, outro personagem que termina viciado, outro duplo de Keith, falta de criatividade. Neste enredo, ninguém consegue se libertar do choque do ataque, Keith conversa com Lianne ao telefone. 

Capítulo 12. Lianne em uma exposição de Morandi, Keith nos cassinos, os dois juntos mais uma vez: ela tem necessidade da presença dele e, diz, quer formar a família de novo. os dois se desestruturaram, mas ele não se recompôs; há coisas que não são ditas. 

Capítulo 13. Lianne encontra o obituário de David Janiak, o Homem em Queda, o artista performático, morreu aos trinta e nove anos de causas naturais, ela busca e lê informações sobre ele. 

Capítulo 14. Keith nos cassinos, é como se fosse um funcionário do cassino, o vício, não consegue deixar o vício, recorda de Florence, foram somente quatro ou cinco encontros, mas pensa nela quase todos os dias, nunca mais falou com ela, o vício está mais arraigado. Lianne recorda do pai, sabe de gente que está lendo o Corão, tentativa de entender, ela corre de manhã cedinho, pensa em se preparar para a maratona do ano que vem, vai à missa algumas vezes, sem acreditar, tentando encontrar ou compreender, compreende que se sente bem consigo mesma: o final do capítulo dá a entender que ela não vai querer mais Keith de volta, na casa, que vai continuar a vida, ela e o garoto, de onde parou três anos antes; bom, melhor assim, Keith é um fraco. 

No corredor do rio Hudson. Capítulo final. Hammad no avião, o impacto contra o prédio, Keith em sua sala, o caos, Rumsey morto, a descida pelas escadas, a rua, o estado de choque no qual ele quis permanecer para sempre, ele sempre foi um fraco, um personagem vazio. Fim. 

Trecho: 

Antes Keith queria mais do mundo do que havia tempo e meios para adquirir. Agora não queria mais isso, fosse o que fosse o que ele queria antes, em termos reais, coisas reais, porque ele jamais soubera de verdade.

Agora se perguntava se havia nascido para ser velho, para ser velho e só, satisfeito com uma velhice solitária, e se todo o resto, todos os olhares ferozes e explosões de raiva que haviam ricocheteado naquelas paredes, eram apenas meios de fazê-lo chegar lá.

Era seu pai se manifestando pelas frestas, sentado em sua casa no oeste da Pensilvânia, lendo o jornal matutino, dando uma caminhada à tarde, um homem amoldado pela rotina suave, viúvo, jantando, sem nenhuma confusão, vivo, cercado por sua pele verdadeira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, 1890

O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, 1890, 224 páginas, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Via Leitura. Início: 08/12/2020 - Fim: 16/12/2020.

Aviso de spoiler: em geral, escrevo sobre todo o enredo do livro, continue por sua conta e risco. 

Havia lido este livro muito cedo na vida, adolescência, e não recordava detalhes, mas sabia o geral da história. Ou sabia pela cultura popular, pois a história do retrato que envelhece no lugar do retratado é de amplo conhecimento. 

É um livro relevante, deve ser lido e vale a pena ser lido. É um livro irregular. 

O pintor Basil Hallward está terminando o retrato do jovem Dorian Gray, que posa para ele, na presença de Lorde Henry Wotton. Henry é um cético e um cínico e faz ver a fatuidade da juventude ao ingênuo Dorian. Ao ver o quadro terminado, a beleza de seus traços jovens perfeitamente representados e preservados, Dorian diz que daria a alma para permanecer jovem enquanto o retrato envelheceria. De algum modo misterioso, a permuta é aceita. O jovem percebe a primeira modificação no quadro e se assusta terrivelmente, pensa em ser bom e virtuoso, mas daí por diante suas maldades, infâmias, pecados e crimes se multiplicam. Passam-se os anos. Dorian, com trinta e oito anos continua a parecer um jovem de vinte. O retrato, por outro lado, está cada vez mais hediondo: a imagem não apenas envelhece, mas também exibe a maldade acumulada do rapaz. Cruel e covarde, Dorian mata Basil, o pintor que fez o quadro, atribuindo ao artista a culpa por seu destino. Pouco tempo depois, desiludido com sua própria capacidade de se tornar virtuoso, Dorian ataca o quadro com uma faca. Os criados ouvem o grito e sobem, o quadro mostra um Dorian Gray jovem e belo, enquanto jaz no chão um homem envelhecido e terrível com uma faca no coração. 

O livro tem cenas muito divertidas com Lorde Henry e seus epigramas amorais, espirituosos e sua visão cínica dos seres humanos e da sociedade. Dorian Gray oscila entre a ingenuidade e a perversidade. As infâmias, as perversões, as maldades, praticadas por Dorian não são descritas. De acordo com Wilde, cada um de nós deve ver seus próprios pecados em Dorian Gray. O final do livro me parece excessivamente moralista; não parece combinar com a ausência de escrúpulos do personagem – na maior parte do tempo – e na contínua pregação de Lorde Henry, um alter ego de Wilde. Dorian Gray, criminoso, hedonista e sempre impune não teria motivos tão fortes para destruir a magia de sua permanente juventude. Talvez o cansaço, talvez já ter experimentado todas as perversões, talvez ele não esperasse que a tentativa de destruição do retrato resultaria em sua própria morte. 

Lorde Henry pode ser visto como um demônio, visto que é por meio de sua “filosofia” de vida que Dorian Gray sugere trocar a alma pela juventude. É estranho não haver um pacto formal que conceda a Dorian o que ele desejou. Também incomoda ao leitor o fato de que ninguém faz observações acerca da disparidade entre a idade de Dorian, 38 anos, e a sua aparência eterna. Somente no penúltimo capítulo, Lorde Henry pergunta qual o segredo da juventude do rapaz. 

Resumo: 

Capítulo I. Lorde Henry Wotton e o pintor Basil Hallward conversam sobre pintura, sociedade, e sobre Dorian Gray, um rapaz que o pintor conhecera e que estava servindo de modelo a um quadro. Basil sente necessidade da amizade de Dorian e o vê todos os dias. 

Capítulo II. Dorian Gray chega ao estúdio de Basil para posar. Lorde Henry fala para Dorian sobre a juventude e a tragédia do envelhecimento. Basil termina o quadro e Dorian diz que daria a alma para permanecer jovem e somente o quadro envelhecer. Henry e Dorian combinam de ir ao teatro à noite e saem do estúdio. 

Capítulo III. Lorde Henry visita o tio, Lorde Fermor, para saber mais sobre a família de Dorian Gray. A mãe do rapaz, Margaret Devereux fugiu para casar com um rapaz pobre, o pai dela, Lorde Kelso, mandou matar o genro, ela teve o bebê e morreu pouco depois, Dorian foi criado pelo avô. Henry vai almoçar com tia Agatha, Dorian Gray já está lá, outros da sociedade, aforismos e ditos espirituosos, pilhérias sobre os norte-americanos. 

Capítulo IV. Dorian Gray conhece a esposa de Lorde Henry. Declara estar apaixonado por Sibyl Vane, atriz, pobre, faz papéis de Julieta e de Desdêmona, entre outros. No final do capítulo, anuncia que vai se casar com Sibyl. 

Capítulo V. Na casa de Sibyl Vane, ela feliz, feliz; a mãe, atriz fracassada, resmungona, interesseira; o irmão James vai embarcar para a Austrália, ele e Sibyl passeiam no parque, passa Dorian em uma carruagem. 

Capítulo VI. Lorde Henry, Basil Hallward e Dorian Gray jantam juntos e conversam sobre o casamento. Chegam ao teatro para ver Sibyl. 

Capítulo VII. Sibyl interpreta pessimamente o papel de Julieta. Lorde Henry e Basil retiram-se. Dorian vai ao camarim e humilha a moça, diz que não a ama mais. A moça explica que não conseguira interpretar o papel porque agora ama na realidade e o palco perdeu a força da ilusão para ela. Dorian passa a noite pela rua, vai para casa e o retrato se modificou, adquirindo as marcas da maldade de Dorian. 

Capítulo VIII. Dorian acorda tarde, confirma que o retrato se alterou, escreve uma carta apaixonada para Sibyl. Lorde Henry chega e conta que Sibyl morreu, suicídio com ácido. Dorian considera o fato uma tragédia maravilhosa, ópera à noite. 

Capítulo IX. Visita de Basil, que pensa que Dorian estava abalado, mas que nada. O biombo esconde o quadro, Basil quer ver, Dorian diz que ele nunca vai ver o quadro de novo, e decide esconder o quadro. 

Capítulo X. Dois homens levam o quadro para o sótão, a chave fica com Dorian. A investigação conclui que a morte de Sibyl foi acidental. Ele recebe um livro que o interessa sobre um parisiense que experimenta todos os pecados e paixões, seja lá o que isso for. Jantar com Henry. 

Capítulo XI. Longo e tedioso, as ocupações de Dorian ao longo dos anos, desnecessário, o quadro continua piorando. 

Capítulo XII. Dorian faz 38 anos no dia 10 de novembro. Basil visita-o preocupado com todos os boatos que correm, está de partida para Paris. Dorian vai mostrar a Basil sua verdadeira “alma”. 

Capítulo XIII. Sobem ao sótão e Dorian mata Basil em frente ao retrato. 

Capítulo XIV. Dorian manda chamar Alan Campbell, químico, que tem um laboratório particular, conta o assassinato, faz uma chantagem misteriosa e obriga Campbell a fazer o corpo desaparecer, lá no sótão, com química e fogo. 

Capítulo XV. Jantar com Henry na casa de Lady Narborough. Dorian destrói objetos de Basil na lareira, sente necessidade de ópio, sai de casa. 

Capítulo XVI. Casa de ópio nos cafundós perto do rio. Dorian encontra Adrian Singleton ao qual destruiu, assunto de um desfalque ou falsificação; uma mulher o chama de Príncipe Encantado. O marinheiro James Vane ouve, vai atrás dele e vai matá-lo, mas Dorian diz que é muito jovem para ter sequer conhecido Sibyl Vane, e James o liberta. Depois, a mulher diz a James que Dorian não envelhece e que a destruiu faz dezoito anos. 

Capítulo XVII. Dorian na propriedade Selby Royal com muitos convidados. Dorian vê o rosto de James Vane no vidro do orquidário e desmaia. 

Capítulo XVIII. Durante uma manhã de caçada em Selby Royal, Lorde Geoffrey atira em uma lebre e mata um homem. Esse homem era James Vane e Dorian se sente salvo. 

Capítulo XIX. Dorian quer se tornar bom, poupou a jovem camponesa Hetty de ser desonrada. Conversa com Lorde Henry sobre o desaparecimento de Basil, o suicídio de Alan Campbell em seu laboratório. 

Capítulo XX. O retrato está mais e mais horrendo e há mais sangue. A decisão de Dorian de se tornar bom não afetava o retrato, a decisão era hipocrisia, vaidade, curiosidade. Dorian ataca o retrato com a faca. Um grito pavoroso. Os empregados sobem e veem o retrato esplêndido de um rapaz jovem e belo e, no chão, um homem morto com uma faca no coração, “seco, enrugado, com um rosto odioso. Só quando examinaram seus anéis reconheceram quem era.”