sábado, 17 de outubro de 2020

Capítulo 26 – Desconexões

Capítulo 26 – Desconexões 

Em abril de 1954, Albert Camus leu O estrangeiro na Radio France 4 – foram 3 sessões na série Leituras à noite. No início do século XXI, as três sessões foram reunidas em três CDs, cada um com uma hora de duração. 

O estrangeiro, Albert Camus, 122 páginas na minha edição da Editora Record que comprei em 1990 por oito dólares (está anotado na folha de rosto), com tradução de Valerie Rumjanek. As pissoa não lê, as pissoa diz que não tem tempo de ler. É mentira. É preguiça. Um livro de 122 páginas pode ser lido em três horas, seguidas ou consecutivas. Tanta gente que gosta mesmo de leitura lê um livro por semana. 

Leona caminhou pela praia da cidade, mar de um lado e edifícios do outro, a maré estava baixa, muito baixa, era bom assim, a extensão de areia ficava maior, os prédios ficavam mais distantes, a abóbada parecia maior. Pedras que ela quase nunca via afloraram. Ela caminhava ao sol e pensamentos desconexos se conectavam. Meursault era um indivíduo doente, sofria de enxaqueca, a luz forte entrava em seus olhos e cérebro como lâminas. Meursault era um indivíduo do norte transplantado para a zona tórrida. Um moreno não seria afetado assim pelo sol a ponto de matar friamente por acaso. O mar afastava-se do continente. A Lua se afastava gradativamente da Terra. Quando não houver mais Lua, não haverá maré e o mar ficará sempre no mesmo nível. Em qual nível. Ela alimentava esperanças de que ficasse sempre no ponto mais baixo, assim, mais tranquilo, ela temia o mar e as ondas fortes. Cortázar escreveu uma historinha em que todos se tornam escritores e os livros findam por invadir toda a terra, e depois os oceanos, e os oceanos se tornam uma papa e depois solidificam e se pode caminhar sobre os antigos oceanos. Nabucodonosor, puto da vida com os povos inimigos, preparou um exército de cento e vinte mil homens, que mentira, e ordenou que matassem os inimigos em tal quantidade que os rios se encheriam de cadáveres e transbordariam. Coitado. 

Entrou no mar para fazer xixi, ondas fraquinhas e estava rasinho. Depois da caminhada, almoçou, tomou banho e dormiu um pouco, de tarde. 

O carro em que Camus estava, corria a cento e oitenta quilômetros por hora quando Gallimard perdeu o controle e espatifou o veículo contra uma árvore, depois outra, e Camus morreu tal morte absurda. Havia um cão no carro, mas ele não foi encontrado depois do acidente.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Capítulo 25.2 – A batalha da planície

Capítulo 25.2 – A batalha da planície 

Aconteceu no décimo-terceiro ano do reinado de Serguei Semionov, que reinou sobre os hepatitas, com capital em Raged, a grande cidade do norte. Por outra parte, Astargad reinava sobre os lotonas, com capital em Betina, a grande cidade do leste. Em torno de Betina, Astargad edificou muralhas com pedras cortadas e esculpidas de três metros de largura e seis de comprimento. A altura da muralha era de setenta metros e a largura de cinquenta. Havia cinco portas na muralha. Ladeando cada porta, levantou duas torres de cem metros de altura, com bases de sessenta metros de diâmetro. Fez as portas de madeira e ferro, com setenta metros de altura, quarenta metros de largura e três metros de espessura, para a passagem de seu potente exército de infantaria e da cavalaria. 

Foi naquele ano que o rei Serguei Semionov decidiu fazer a guerra contra o rei Astargad. Os exércitos inimigos se encontraram na grande planície, situada na província de Rugau, na fronteira entre os dois reinos, uma área que ambos disputavam desde séculos. Os habitantes das montanhas, os habitantes das margens dos rios, os habitantes das planícies de Coria, terra dos elmênidas, reuniram-se às tropas de Astargad, porque este rei governava com mais sabedoria. Outros povos, em menor número, associaram-se ao rei Semionov. Dessa forma, numerosos povos juntaram-se para a grande batalha da planície de Rugau.

Capítulo 25.1 – Camélias

Capítulo 25.1 – Camélias

 

“Sou da opinião de que só se pode criar personagens quando já se estudou muito os seres humanos, assim como só se pode falar uma língua na condição de tê-la aprendido a sério.

Não tendo ainda atingido a idade em que se pode inventar, contento-me em relatar.

Exorto o leitor a se convencer da veracidade desta história, da qual todos os personagens, com exceção da heroína, ainda vivem.”


 

A dama das camélias,Alexandre Dumas Filho, 1848, tradução de Caroline Chang. 

Capítulo 23.2 – Das origens

Capítulo 23.2 – Das origens 

Xavier de Maistre, Julio Cortázar e Roland Barthes foram os inspiradores deste livrinho irrelevante. O autor não tem a ironia, a verve e o humor dos dois primeiros, tampouco o imenso cabedal de conhecimento do último. No entanto, atreveu-se a perpetrar tal crime contra a humanidade, contra as letras, contra a literatura. Um ser desprezível. 

Xavier de Maistre, com a Viagem ao redor do meu quarto, Cortázar com as Histórias de cronópios e de famas, e Barthes com os Fragmentos de um discurso amoroso, são os verdadeiros culpados do crime. 

De Cortázar, o autor chupou principalmente o formato, o capítulo curto, a diversidade de temas. De Maistre, a viagem em torno de si mesmo. De Barthes, a ausência de método disfarçada em método. Barthes escrevia sobre qualquer assunto que lhe interessava, partindo de seus gostos pessoais, e cercava essas escolhas de uma ilusão de método quando não havia método algum. Era lindo. 

Recordo aqui, porque quero recordar, a introdução de Maistre:

 

J’ai entrepris et exécuté un voyage de quarante-deux jours autour de ma chambre. Les observations intéressantes que j'ai faites, et le plaisir continuel que j'ai éprouvé le long du chemin, me faisaient désirer de le rendre public; la certitude d'être utile m'y a décidé. Mon cœur éprouve une satisfaction inexprimable lorsque je pense au nombre infini de malheureux auxquels j'offre une ressource assurée contre l'ennui, et un adoucissement aux maux qu'ils endurent. Le plaisir qu'on trouve à voyager dans sa chambre est à l'abri de la jalousie inquiète des hommes; il est indépendant de la fortune.

 

Est-il en effet d'être assez malheureux, assez abandonné, pour n'avoir pas un réduit où il puisse se retirer et se cacher à tout le monde? Voilà tous les apprêts du voyage.

 

Je suis sûr que tout homme sensé adoptera mon système, de quelque caractère qu'il puisse être, et quel que soit son tempérament; qu'il soit avare ou prodigue, riche ou pauvre, jeune ou vieux, né sous la zone torride ou près du pôle, il peut voyager comme moi; enfin, dans l'immense famille des hommes qui fourmillent sur la surface de la terre, il n'en est pas un seul;—non, pas un seul (j'entends de ceux qui habitent des chambres) qui puisse, après avoir lu ce livre, refuser son approbation à la nouvelle manière de voyager que j'introduis dans le monde.

 

Eu empreendi e executei uma viagem de quarenta e dois dias em volta de meu quarto. As observações interessantes que fiz, e o prazer continuado que experimentei ao longo do caminho, me fizeram desejar torná-la pública; a certeza de ser útil me fez decidir por isto. Meu coração experimenta uma satisfação inexprimível quando eu penso na infinita quantidade de infelizes aos quais ofereço uma solução segura contra o tédio, e um abrandamento das doenças que sofrem. O prazer que se obtém ao viajar em seu próprio quarto está ao abrigo da inveja inquieta dos homens; e é independente da fortuna.

 

De fato, há alguém tão infeliz, tão abandonado, que não tenha um reduto onde seja possível se retirar e se esconder do mundo? Aqui estão todos os preparativos para a viagem.

 

Estou seguro de que qualquer homem sensato adotará meu sistema, seja qual for sua personalidade e seu temperamento; quer seja avaro ou pródigo, rico ou pobre, jovem ou velho, nascido na zona tórrida ou perto do polo, ele pode viajar como eu fiz; enfim, na imensa família dos homens que formigam sobre a face da terra, não há um só – nem um só (entre aqueles que habitam quartos) que possa, depois de ter lido este livro, recusar sua aprovação à nova maneira de viajar que eu introduzo no mundo.

 

(Tradução canhestra do autor).

 

Recordo aqui, porque me apraz, um trecho de Barthes:

 

3. Références

 

Pour composer ce sujet amoureux, on a « monté » des morceaux d'origine diverse. Il y a ce qui vient d'une lecture régulière, celle du Werther de Goethe. Il y a ce qui vient de lectures insistantes (le Banquet de Platon, le Zen, la psychanalyse, certains Mystiques, Nietzsche, les lieder allemands). Il y a ce qui vient de lectures occasionnelles. Il y a ce qui vient de conversations d'amis. Il y a enfin ce qui vient de ma propre vie. Ce qui vient des livres et des amis fait parfois apparition dans la marge du texte, sous forme de noms pour les livres et d'initiales pour les amis. Les références qui sont ainsi données ne sont pas d'autorité, mais d'amitié : je n'invoque pas des garanties, je rappelle seulement, par une sorte de salut donné en passant, ce qui a séduit, convaincu, ce qui a donné un instant la jouissance de comprendre (d'être compris ?). On a donc laissé ces rappels de lecture, d'écoute, dans l'état souvent incertain, inachevé, qui convient à un discours dont l'instance n'est rien d'autre que la mémoire des lieux (livres, rencontres) où telle chose a été lue, dite, écoutée. Car, si l'auteur prête ici au sujet amoureux sa « culture », en échange, le sujet amoureux lui passe l'innocence de son imaginaire, indifférent aux bons usages du savoir.

 

3. Referências

 

Para compor tal sujeito amoroso, foram “montados” pedaços de origem diversa. Há aqueles que vêm de uma leitura regular, tal como o Werther de Goethe. Há os que provêm de leituras insistentes (O banquete de Platão, o Zen, a psicanálise, certos místicos, Nietzsche, as canções alemãs). Há os que vêm de leituras ocasionais. Há aqueles que vêm de conversas com amigos. Há, enfim, aqueles que provêm da minha própria vida. Aqueles que vieram dos livros e dos amigos aparecem, por vezes, na margem do texto, sob a forma de nome para os livros e de iniciais para os amigos. As referências assim oferecidas não são de autoridade, mas de amizade: eu não invoco garantias, eu apenas recordo, como um tipo de saudação en passant, aquilo que seduziu, que convenceu, que ofertou um instante a alegria de compreender (de ser compreendido?). Deixaram-se tais recordações de leituras, de escuta, no estado frequentemente incerto, inacabado, que convém a um discurso no qual a instância não é mais que a memória de lugares (livros, encontros) onde tal coisa foi dita, lida, escutada. Portanto, se o autor empresta, aqui, ao sujeito amoroso sua “cultura”, em troca, o sujeito amoroso lhe passa a inocência de seu imaginário, indiferente aos bons usos do saber.

 

(Tradução canhestra do autor). 

Vê-se que Xavier de Maistre propõe, com alegria e ironia, que a viagem em torno do umbigo, que ele executou enquanto estava preso, traz interesse inestimável para toda a humanidade. Roland Barthes, por seu lado, enfeita e ilude com fumos de método, com artifícios de academia, aquilo que é unicamente a sua opinião, a sua observação e o prazer que ele encontrava em formatar um discurso sobre este ou aquele tema. Cortázar, em paralelo, fez um livrinho em que cada página é diversa das outras, livres, mas estranhamente coerentes no conjunto.


Abençoado ou amaldiçoado por tais mestres, exponho-me. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Capítulo 24 – Putifar

Capítulo 24 – Putifar 

Putifar significa levar uma pessoa, de qualquer gênero, a se tornar uma puta ou um puto, putificar, putiformar. A palavra tem origem no idioma caldeu, mais especificamente na antiquíssima tradição etíope das sacerdotisas da região de Putifar, que exerciam a prostituição sagrada. Por volta do ano 3.254, antes da Era Comum, existia o costume de, a cada semana, uma das sacerdotisas do templo de Nuxus, permanecer na entrada do templo e atender os interessados, em um anexo do templo, fossem habitantes, passantes ou viajantes, mediante pagamento. Este poderia ser feito em moedas – aceitava-se o metal egípcio, grego, romano, aramaico e dólar canadense – ou em bens e animais. Os recursos obtidos pelas prostitutas sagradas eram recolhidos ao tesouro do templo e utilizados na manutenção e na ampliação das glórias daquela instituição.


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Capítulo 23.3 – Vícios novos

         Capítulo 23.3 – Vícios novos

 

“Os progressos da civilização permitem a cada um manifestar qualidades insuspeitadas ou vícios novos que os tornam mais queridos ou mais insuportáveis a seus amigos.”

 

“Les progrès de la civilisation permettent à chacun de manifester des qualités insoupçonnées ou de nouveaux vices qui les rendent plus chers ou plus insupportables à leurs amis.”

 

Marcel Proust, Sodomae Gomorra. 

O protagonista falava da recusa terminante de Françoise em usar a nova máquina, o telefone, e até de recusar aprender a usá-la. Verifica-se que as novíssimas tecnologias do século vinte e um também produziram e estão a produzir um sem-número de comportamentos, vícios novos, insuportáveis nos amigos e conhecidos. Entre os quais, a necessidade sempiterna de exibição: inumeráveis exibem continuamente suas mínimas e tediosas atividades, da hora em que acordam até a hora em que se deitam. Não basta viver uma vida tediosa, é necessário mostrar cada passo do tédio particular.

Fedra de Cabanel

Capítulo 23.1 – Fedra de Cabanel 

Instruções para observar Fedra de Cabanel, ao modo de Cortázar, sem a verve de Cortázar. 

Phèdre, 1880, óleo sobre tela, Alexandre Cabanel, Musée Fabre, Montpellier, altura: 194 cm, largura: 286 cm. 

Entrar no museu exclusivamente para visitar Fedra. A gente dirige horas de atenção a filmes e livros, mas não faz o mesmo com pinturas. Os museus, com suas centenas ou milhares de obras expostas, induzem o espectador a passar somente alguns segundos na frente de um quadro. Mais é melhor, mais paga o ingresso. Caso não possa visitar o museu, use a internet. 

Saber algo dos mitos: Fedra, filha de Minos, rei de Creta, foi dada em casamento ao herói Teseu, mas se apaixonou por Hipólito, filho dele com uma amazona. Hipólito detestava as mulheres e não correspondeu à paixão da madrasta. Fedra, temendo que Hipólito denunciasse ao pai o ardor com que ela o perseguia, preparou uma farsa. Acusou Hipólito de tentar seduzi-la; então, Teseu suplicou a Poseidon que fizesse morrer o filho, o que lhe foi concedido. Fedra enforcou-se, não conseguindo resistir ao desespero e ao remorso. (Dicionário da mitologia grega e romana, Pierre Grimal, esgotado). 

Tecer considerações próprias sobre a tela em questão. 

Não ler, ou ler por sua conta e risco, as minhas considerações. 

A representação de Cabanel não traz referências diretas ao mito, e assim parece estranha. A moça está nua, pensativa, deitada em seu leito, uma criada dorme sentada e outra observa a moça, aparentemente com uma lágrima no rosto. 

A cor da pele de Fedra difere grandemente daquela das criadas: Fedra é pálida, aquela pele que os livros antigos chamavam de alabastro. As criadas apresentam uma tez de bronze que se aproxima daquilo que se pode pensar sobre Creta, ilha solar no Mediterrâneo. A palidez do corpo de Fedra, embora comum na obra de Cabanel, prenuncia a morte que se aproxima. 

Fedra se cobre com um tecido transparente da cintura para baixo. O torso nu e o rosto conformam o centro da imagem. Destaca-se o corpo comum da moça, sem a perfeição que se nota na pintura dos séculos passados, e até em outros quadros do pintor: é famoso o seu Nascimento de Vênus que está no Musée d’Orsay. 

O seio direito está levemente prensado contra a cama e o esquerdo pende sobre o direito, parcialmente coberto pelo braço esquerdo. A moça tem longos cabelos ruivos e aquele nariz que se dizia grego. A carne do torso apresenta leves dobras, sente-se o peso do seio e da barriga, um corpo jovem, mas humano. 

A mão que apoia a cabeça, o rosto e o olhar, mostram a concentração do pensamento em algum projeto malévolo: há decisão e melancolia. A atmosfera simultaneamente tranquila e ansiosa, como antes de uma borrasca, anuncia a tragédia. 

A presença das criadas é misteriosa em sua inatividade. A criada que dorme está em uma posição que sugere não o sono, mas o suicídio. 

O braço direito de Fedra, para cima, indica as maquinações no cérebro da moça; o braço esquerdo caído e vertical aponta para o Hades. O capacete de Teseu, no alto à direita, com o olhar fixo para baixo, confirma o destino da moça, e sinaliza o luto diante das mortes precoces e indesejadas.






terça-feira, 13 de outubro de 2020

Neruda, Livro das perguntas

Livro das perguntas, Pablo Neruda (1974), tradução de Ferreira Gullar, ilustrações de Isidro Ferrer.

 

LXX

 

Qual é o trabalho forçado

de Hitler no inferno?

 

Pinta paredes ou cadáveres?

Aspira o gás de seus mortos?

 

Dão-lhe para comer as cinzas

de tantos meninos calcinados?

 

Ou desde sua morte lhe dão

sangue para beber num funil?

 

Ou lhe martelam na boca

os dentes de ouro arrancados?

 

LXXI

 

Ou o deitam para dormir

em cercas de arame farpado?

 

Ou lhe estão tatuando a pele

para as lâmpadas do inferno?

 

Ou o mordem sem compaixão

os negros mastins do fogo?

 

Ou deve ele, noite e dia,

Viajar sem trégua com seus presos?

 

Ou deve morrer sem morrer

eternamente de gás?

Drummond, Descoberta

Carlos Drummond de Andrade. 

Descoberta 

O dente morde a fruta envenenada

a fruta morde o dente envenenado

o veneno morde a fruta e morde o dente

o dente, se mordendo, já descobre

a polpa deliciosíssima do nada. 

Capítulo 22.9 – Sodoma e Gomorra

Capítulo 22.9 – Sodoma e Gomorra 

Sodoma e Gomorra, Marcel Proust. O protagonista já não amava Gilberte, depois de tanto sofrimento e ciúme. Os humanos não sabem o que é amor, amam a si mesmos amando, sofrem por si mesmos sofrendo, amam a imagem de si como seres amorosos, confundem amor e posse, confundem sexo, desejo, atração e amor. 

Je n'aimais plus Gilberte. Elle était pour moi comme une morte qu'on a longtemps pleurée, puis l'oubli est venu, et, si elle ressuscitait, elle ne pourrait plus s'insérer dans une vie qui n'est plus faite pour elle. Je n'avais plus envie de la voir ni même cette envie de lui montrer que je ne tenais pas à la voir et que chaque jour, quand je l'aimais, je me promettais de lui témoigner quand je ne l'aimerais plus. 

Eu não amava mais Gilberte. Ela era para mim como uma morta que se chorou por longo tempo, então o esquecimento veio, e, se ela ressuscitasse, não mais poderia se inserir em uma vida que não era mais feita para ela. Eu não tinha mais o desejo de vê-la, nem mesmo aquele desejo de mostrar a ela que eu não tinha o desejo de vê-la e que, a cada dia, quando eu a amava, eu me prometia de lhe testemunhar quando eu não a amasse mais. 

(Tradução do autor).

Capítulo 21.3 – Não era um besouro

Capítulo 21.3 – Não era um besouro 

Para Vladimir Nabokov, o inseto no qual Gregor Samsa se transformou era um besouro, porque a criada chama assim ao animal. Por duas vezes, ela usa a palavra alemã Mistkäfer quando se dirige ao inseto. Mistkäfer significa besouro do esterco, também conhecido como besouro rola-bosta. Nabokov considera que a criada estava sendo simpática e que o inseto é um besouro, mas não um rola-bosta. 

É irrelevante o tipo de inseto. Ora, a criada simpática chamou o bichinho por um nome qualquer; ocorreu-lhe o besouro rola-bosta, mas poderia ter dito barata ou percevejo. Reitere-se que não era relevante para Kafka o tipo de inseto que resultava da transformação: a palavra usada pelo autor para descrever o animal foi Ungeziefer, que pode ser traduzida como inseto, verme, animal daninho e repulsivo. Tal palavra é usada uma única vez no livro. A seguir, o autor descreve brevemente o animal; nem mesmo a quantidade de pernas foi definida na descrição. 

Para Nabokov, a história representa o gênio do artista rodeado pela mediocridade: “o isolamento e o afastamento da chamada realidade são aquilo que, em última análise, caracteriza constantemente o artista, o gênio, o descobridor. A família Samsa em torno do fantástico inseto nada mais é do que a mediocridade circundando o gênio.” 

Certo que A metamorfose inspira diversas possíveis leituras, mas a interpretação de Nabokov é enviesada e exagerada. Gregor Samsa é, ele próprio, medíocre. Nada há nele de genialidade: um caixeiro-viajante insatisfeito com o emprego, subjugado, pelas necessidades da família e por sua responsabilidade, a suportar o trabalho comezinho e desgastante. O sonho de Gregor é mudar de emprego daí a cinco anos, mas nem ele sabe para onde iria. As mulheres que o atraíam em sua versão humana eram “uma criada de quarto de um dos hotéis da província” e “uma balconista de uma loja de chapéus”. 

Outro aspecto irrelevante que interessava a Nabokov era a altura do inseto. Novamente, Kafka não demonstrou interesse nessa definição. Às vezes, o texto sugere que o inseto teria o tamanho humano normal, que ocupava toda a cama, que mal cabia em baixo do sofá e, às vezes, sugere que o inseto é muito menor que um ser humano, quando diz que ele abriu a fechadura com as mandíbulas.

       Kafka não queria um bicho definido estrita e precisamente, ele preferia a ideia do inseto repugnante, rasteiro, assustador, próprio de um pesadelo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A metamorfose, Franz Kafka (1915)

        Capítulo 21.2 – A metamorfose

        A metamorfose, Franz Kafka (1915). 

O famoso livro de Kafka pode ser resumido como a história de um homem que acorda transformado em inseto e das consequências que advêm da transformação. O que acontece se acordo transformado em inseto? O impacto na vida do novo inseto e na vida de sua família. Como decorrem os dias na nova situação e como tudo termina. Este tipo de pensamento deve ter guiado o autor na composição do livro. Rios de tinta já foram escritos sobre este livrinho de noventa páginas que pode ser lido em um dia ou dois e que foi escrito, diz-se, em vinte dias. Vou colaborar com o oceano acrescentando um filete de pensamentos que me ocorreram durante a releitura do livrinho. 

Símbolo, significado. O mundo é absurdo, nada tem explicação, somos seres incapazes de conhecer o sentido do mundo. O universo é infinito e, como tal, tudo pode acontecer, inclusive um homem acordar transformado em inseto. A transformação em inseto também pode significar que Gregor Samsa, o provedor da família composta por pai, mãe e Grete, a irmã de dezessete anos, desistiu, repentinamente, de continuar a ser o provedor. Gregor Samsa desistiu de participar da vida cotidiana, de pegar o trem nos mesmos horários, de trabalhar na mesma empresa detestada, para o mesmo patrão detestado. Tornou-se, deste modo, um pária, um inseto, um asqueroso, um insignificante, um nada. Imagine um pater familias que foge a seus deveres de provedor. Imagine um adulto que cai em depressão ou que perde o emprego. Imagine um adulto que adoece de forma incapacitante. A trajetória de tal indivíduo é de decadência, é para baixo sem apelação. Assim, Gregor vai de filho respeitado a inseto temido, até mesmo digno de cuidados, e depois a uma coisa jogada no quarto de despejos, empoeirada, doente, suja, a qual todos são indiferentes. Um peso morto que a família arrasta consigo. A morte do inseto é um alívio. 

O inseto e os sanguessugas. O trabalho não é normal. Em termos gerais, jovens e velhos não trabalham, portanto, um terço da humanidade trabalha. Quantas pessoas dependem de cada pessoa que trabalha? No caso de Gregor Samsa, três pessoas dependiam do esforço dele. Gregor quase não tinha vida própria e seus ganhos eram quase totalmente empenhados na sustentação da família. Os três familiares eram os insetos, naquela época, ou, pode-se dizer, sanguessugas, para continuar com animais invertebrados. No momento em que Gregor se torna incapaz de prover, os três elementos do grupo mostram que a inatividade anterior era opcional. Antes, o pai passava horas a ler os jornais durante a manhã, e ao anoitecer também lia o jornal em voz alta para a mãe – e havia até uma criada na casa. Quando Gregor chegava exausto, o pai estava “deitado, de pijama, numa cadeira de braços” e “não conseguia manter-se de pé e se limitava a erguer os braços para o saudar”. Depois do evento, o pai voltou à ativa, firme, “envergando urna bela farda azul de botões dourados”, e “brilhavam-lhe os olhos pretos, vívidos e penetrantes”. Assim, também a mãe e a irmã começaram a trabalhar. 

O tempo. A marcação do tempo é relevante no desenvolvimento do romance e do protagonista. No início, Gregor se preocupa com minutos, o trem das cinco, a empresa que abre às sete, mais dez minutos e ele vai se levantar. Então, passa-se um dia, dois, e anota-se um mês, dois meses e três meses. Gregor esperava o Natal para anunciar a decisão de assumir mais despesas e colocar Grete no Conservatório. Não se registra o Natal, mas depressa chega a sensação da primavera e o autor nos anuncia que é março. Pode-se deduzir que se passaram seis meses, mas, para o inseto, o tempo deixou de existir, ele sequer sabe se o Natal já passou. O tempo e o trabalho são angústias do indivíduo que o inseto deixa para trás, gradativamente. 

Seres contraditórios. Gregor Samsa sentia-se vigiado pela empresa, não gostava do emprego e colocara um prazo máximo para permanecer ali, cinco anos. Todavia, pensava em assumir mais despesas com a educação da irmã. 

O processo. Os acontecimentos nos atingem e não conseguimos descobrir as causas. O caixeiro-viajante “é muitas vezes vítima de injustiças” quando regressa de suas viagens e sofre então “funestas consequências”, todavia “não consegue descobrir as causas originais”. Não controlamos a máquina do mundo, sequer a compreendemos.

       O alívio. A família vivia assoberbada e exausta enquanto Gregor passeava pelas paredes e teto e passava horas a olhar a rua pela janela. Enfim, como a pessoa doente e incapacitada que morre, como o filho desajustado que some no mundo para nunca mais, como o parente louco que faz o favor de morrer ou de se suicidar, o inseto morre e a família respira. Os três tiram um dia de folga, o mundo parece outro, mais luminoso e, agora, podem recomeçar a fazer planos. 

O inseto. Cabe destacar que Kafka se dizia irmão espiritual de Dostoiévski, e na obra do escritor russo encontramos a figura recorrente do inseto, uma possível gênese da história de Gregor Samsa. Em Os irmãos Karamázov, o tema do inseto surge quando o narrador define Fiódor Karamázov, o pai: “Profundamente corrompido e luxurioso até a crueldade como um inseto pernicioso, Fiódor Karamázov, nos momentos de embriaguez, experimentava uma angústia atroz.” Posteriormente, Dmitri, o primogênito, cita um poema em que um dos versos diz: “aos insetos, a lascívia”. E Dmitri acrescenta: “Eu sou esse mesmo inseto, não sou um inseto perverso? (...) Isso tudo ainda não é nada (...) embora o cruel inseto já tivesse crescido, já tivesse encorpado em minha alma.” Além desses exemplos, no livro Memórias do subsolo, o protagonista afirma: “Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me sequer um inseto. Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno.” 

É relevante notar que a palavra inseto (Ungeziefer, em alemão) somente aparece uma única vez no livro de Kafka. A gente lê a novela e nem percebe isso, parece que a palavra inseto é frequente, mas é somente a ideia do inseto, a imagem do inseto, instilada pelo autor em nossa mente no primeiro parágrafo, que contamina toda a narração – e nisto Kafka foi genial. Observa-se, também, que a criada chama o bicho de besouro de esterco (Mistkäfer), mas isso não significa que o inseto seja um besouro: é apenas a imagem mais próxima que se formou na mente da criada, que está sendo simpática com o bichinho.

A metamorfose é um livro fácil de ler e, ademais, intrigante, denso, e que proporciona um sem-número de interpretações, de leituras, de delírios, de pensamentos.

domingo, 11 de outubro de 2020

Castigo

Capítulo 20.2 – Castigo 

No fim e na essência, somos totalmente, absolutamente, completamente livres. Mas não acreditamos de verdade nisso. Podemos fazer qualquer coisa que quisermos, inclusive nos matar, a nós mesmos, e uns aos outros. De fato, já fazemos isso todos os dias.

Crime e castigo, Dostoiévski, explora essa ideia: o personagem afirma ser livre para matar sem qualquer motivo, mas não se revela a altura dos grandes pensamentos que o moveram ao crime; o remorso o corrói, ele sente necessidade de ser descoberto e castigado; consegue seu objetivo e termina na Sibéria com a insossa Sofia.

O conto O coração denunciador, Poe, segue o mesmo caminho: o homem mata sem motivo, mas o coração do morto, batendo e batendo nos ouvidos do assassino, fazem com que se entregue à polícia.

O estrangeiro, Camus, realiza melhor o projeto: não há arrependimento, viver ou morrer é igual, resta somente a indiferença – embora o personagem ainda espere, ao menos, o ódio de seus semelhantes no dia da execução da sentença.