domingo, 11 de outubro de 2020
Fornicar
Acumuladores
O relógio de Cortázar
sábado, 10 de outubro de 2020
Capítulo 19 – Sobre capítulos
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Livros para ler em um dia
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Capítulo 17.2 - Camus Pessoa
Capítulo 17 – Rua dos Poços
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
Capítulo 16 – A onda
terça-feira, 6 de outubro de 2020
Capítulo 15 – Ester
Capítulo 15 – Ester
O livro de Ester se lê em uma hora, no máximo em duas. A curta história pretende mostrar a vitória do povo judeu contra seus inimigos. Lá pelo ano 114 antes da Era Comum, o rei persa Assuero (mais conhecido como Xerxes) detinha poder sobre um grande império, que se estendia da Índia a Etiópia. O rei tem um conselheiro, Amã, um tipo de primeiro-ministro, que passa a odiar os judeus porque um deles, Mardoqueu – que trabalha no palácio – recusa-se a se prostrar quando da passagem do conselheiro. Amã pede ao rei para exterminar o povo judeu, e até se propõe a pagar por isso. Assuero dispensa o pagamento e diz que faça como lhe aprouver. Amã emite uma carta para todas as províncias, marcando o extermínio dos judeus para o décimo segundo mês daquele ano. A sobrinha de Mardoqueu, Ester – selecionada em um grande concurso de jovens virgens e belas – era a rainha – ou uma das rainhas do imenso harém, isso não fica claro na narrativa – e o rei não sabia de sua origem judaica, tampouco do parentesco com Mardoqueu. Nos aposentos do rei, ninguém podia entrar sem ser chamado, sob pena de morte. Ester, sob risco de ser condenada, se atreve a entrar e, posteriormente, a pedir ao rei que cancele a ordem dada na carta enviada por Amã, revelando sua origem judaica. O rei concede o cancelamento e Amã é enforcado na mesma forca que preparara para Mardoqueu. Este se torna o principal conselheiro. No dia antes marcado para o assassinato dos judeus, estes, com o apoio do novo edito real, matam setenta e cinco mil homens nas províncias, e oitocentos em Susa, a capital.
A carta de Amã, em nome de Assuero, ordenando a morte do povo judeu, é fabulosa: um espetáculo de ironia e hipocrisia.
O grande rei
Assuero, aos governadores das cento e vinte e sete províncias que vão da Índia
a Etiópia, e aos chefes de distrito, seus subordinados:
Colocado na chefia
de inúmeros povos e como senhor de toda a terra, eu me propus não me deixar
embriagar pelo orgulho do poder e sempre governar com grande espírito de
moderação e benevolência, a fim de outorgar a meus subordinados o perpétuo gozo
de uma existência sem sobressaltos e, já que meu reino oferece os benefícios
da civilização e a livre circulação entre as suas fronteiras, nele
instaurar o objeto do desejo universal, que é a paz. Ora, tendo ouvido
meu conselho sobre os meios de atingir esse fim, um de meus conselheiros, cuja
sabedoria entre nós é eminente, dando provas de indefectível devotamento e
inquebrantável fidelidade, e cujas prerrogativas vêm imediatamente após as
nossas, Amã, denunciou-nos, misturado a todas as tribos do mundo, um povo
mal-intencionado, em oposição, por suas leis, a todas as nações, e
constantemente desprezando as ordens reais, a ponto de ser um obstáculo ao
governo que exercemos para a satisfação geral.
Considerando,
pois, que o referido povo, único em seu gênero, acha-se sob todos os aspectos
em conflito com toda a humanidade; que dela difere por um regime de leis
estranhas; que é hostil aos nossos interesses e que comete os piores
delitos, chegando a ameaçar a estabilidade de nosso reino:
Por esses motivos
ordenamos que todas as pessoas que vos forem assinaladas nas cartas de Amã,
preposto às tarefas de nossos interesses e para nós um segundo pai, sejam
radicalmente exterminadas, inclusive mulheres e crianças, pela espada de
seus inimigos, sem piedade ou consideração alguma, no décimo quarto dia do
décimo segundo mês, isto é, Adar, do presente ano, a fim de que, uma vez
lançados esses opositores de hoje e de ontem no Hades num só dia, sejam
assegurada doravante ao Estado estabilidade e tranquilidade.
A leitura desse conto faz pensar na efemeridade dos impérios e das nações frente ao nosso grande inimigo e senhor: o Tempo. Assuero dominava “o mundo”, ou seja, grande parte do mundo conhecido, vivia entre fausto, poder e harém. A glória do mundo é transitória. Assuero é, hoje, apenas um verbete apagado da história.
Ademais, tem-se a vingança e a crueldade praticada por qualquer dos lados “inimigos”. Quem pode mais, em dado momento, dedica-se ao extermínio dos outros, dos diferentes, dos que pensam de forma diversa.
A carta de Assuero, que mostra um reino comparável à União Europeia – livre circulação, benefícios da civilização, paz universal – alega que, para manter tais pressupostos e a estabilidade e a tranquilidade, se faz necessário o extermínio de um povo mal-intencionado. Para manter a paz, faça-se a guerra.
Relevantes, também, alguns acontecimentos paralelos à narrativa principal.
Assuero vivia de forma luxuosa: renda, musselina, púrpura, linho, prata e alabastro. No terceiro ano de seu reinado, ofereceu um banquete aos nobres e governadores das províncias que se estendeu por cento e oitenta dias. Após esta festa, deu um banquete ao povo de Susa que durou sete dias. É dito que o rei e Amã esbanjavam em festas e bebedeiras. Por fim, após a ascensão de Mardoqueu, o rei Assuero impôs um tributo sobre todo o continente e as ilhas – evidentemente, um reflexo das despesas ilimitadas da corte.
No início da narrativa, conta-se que Mardoqueu, alto funcionário da corte, teve um sonho que ele interpretou como um aviso de que o rei Assuero seria assassinado. A suposta interpretação de Mardoqueu é bem enviesada e, aparentemente, ele queria mesmo era se vingar de dois guardas do palácio. A partir do sonho, Mardoqueu informou ao rei que os eunucos Bagatã e Tares planejavam matá-lo. Assuero aplicou a tortura aos eunucos que, surpresa!, confessaram e foram supliciados.
O
sonho de Mardoqueu é belo e pleno de símbolos apocalípticos, e o transcrevo
aqui:
Gritos e ruídos, ribomba o trovão, treme o chão, tumulto sobre toda a terra. Dois enormes dragões avançam, ambos prontos para o combate. Lançam um rugido; ao ouvi-lo, todas as nações se preparam para a guerra contra o povo dos justos. Dia de trevas e de escuridão! Tribulação, aflição, angústia e espanto caem sobre a terra. Transtornado de terror diante dos males que o esperam, todo o povo justo se prepara para morrer e invoca a Deus. Ora, de seu grito, como de uma pequena fonte, brota um grande rio, de águas caudalosas. A luz se levanta com o sol. Os humildes são exaltados e devoram os poderosos.
Os humildes, exaltados, devoram os poderosos. Nada de piedade quando os antigos humildes passam a deter o poder.
O
nome hebreu de Ester era Hadassa. O nome Ester pode vir da deusa
babilônica Ishtar ou do persa stareh, que significa estrela.
(A tradução utilizada foi a da Bíblia de Jerusalém).
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
Capítulo 14 – Ilha deserta
domingo, 4 de outubro de 2020
Estrangeiro
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Kafka e o inseto
O poço, filme espanhol, é uma metáfora do mundo. Chegamos aqui sem saber o motivo, caímos em um estrato bom e farto, sem motivo, ou em um estrato mediano, ou em um miserável, sem motivo. Não sabemos como a máquina do mundo funciona e porque os deuses lá em cima – se os há – nos amam ou nos odeiam ou são indiferentes a nós. É kafkiano porque o mundo é kafkiano. O final do filme poderia ser melhor, não sei como, mas acho que poderia. A presença de fantasmas não me agradou porque não existem no mundo, seja o real – kafkiano em si – seja no mundo-universo de Kafka.
A atmosfera do filme me incitou, então pesquisei e anotei o famoso primeiro parágrafo de A metamorfose, tanto no original como em diversas traduções.
Franz Kafka (original em alemão):
Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt. Er lag auf seinem panzerartig harten Rücken und sah, wenn er den Kopf ein wenig hob, seinen gewölbten, braunen, von bogenförmigen Versteifungen geteilten Bauch, auf dessen Höhe sich die Bettdecke, zum gänzlichen Niedergleiten bereit, kaum noch erhalten konnte. Seine vielen, im Vergleich zu seinem sonstigen Umfang kläglich dünnen Beine flimmerten ihm hilflos vor den Augen.
Google,
tradução automática:
Quando Gregor Samsa acordou de sonhos perturbadores uma manhã, ele se viu transformado em um verme monstruoso em sua cama. Ele estava deitado de costas duras como uma armadura e, quando ergueu um pouco a cabeça, viu sua barriga arqueada e marrom, dividida por reforços arqueados, a cujo nível o edredom, pronto para deslizar completamente, dificilmente poderia ser preservado. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com seu tamanho normal, piscaram desamparadamente diante de seus olhos.
Modesto
Carone (Companhia das Letras):
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
No
site Domínio Público, sem identificação do tradutor (Universidade da Amazônia,
Unama, NEAD, Núcleo de Educação à Distância):
Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.
Marcus
Penchel (Editora Vozes):
Ao despertar de sonhos agitados certa manhã em sua cama, Gregor Samsa viu-se transformado em um inseto monstruoso. De costas sobre a dura carapaça, ergueu um pouco a cabeça e olhou a barriga marrom proeminente dividida em arcos reforçados, da qual toda a coberta já havia deslizado para baixo, sem poder puxá-la de volta. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em contraste com a corpulência geral, debatiam-se inutilmente ante seus olhos.
Cláudia
Abeling (Editora Melhoramentos):
Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se, em sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso. Deitado sobre suas costas duras como uma couraça, viu, ao levantar um pouco a cabeça, sua barriga abaulada, marrom, dividida em arcos rígidos, sobre os quais a coberta, quase escorregando de vez, mal se mantinha. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação ao volume do corpo, agitavam-se desesperadamente sob seus olhos.
No
site Domínio Público, sem identificação do tradutor:
Una mañana, tras un sueño intranquilo, Gregorio Samsa se despertó convertido em un monstruoso insecto. Estaba echado de espaldas sobre un duro caparazón y, al alzar la cabeza, vio su vientre convexo y oscuro, surcado por curvadas callosidades, sobre el que casi no se aguantaba la colcha, que estaba a punto de escurrirse hasta el suelo. Numerosas patas, penosamente delgadas en comparación con el grosor normal de sus piernas, se agitaban sin concierto.
Ian
Johnston (Malaspina University College Nanaimo, BC):
One morning, as Gregor Samsa was waking up from anxious dreams, he discovered that in bed he had been changed into a monstrous verminous bug. He lay on his armour-hard back and saw, as he lifted his head up a little, his brown, arched abdomen divided up into rigid bowlike sections. From this height the blanket, just about ready to slide off completely, could hardly stay in place. His numerous legs, pitifully thin in comparison to the rest of his circumference, flickered helplessly before his eyes.
Como grifei nos parágrafos selecionados, temos:
Sonhos perturbadores.
Sonhos intranquilos.
Sonhos inquietantes.
Sonhos agitados.
Sonhos intranquilos.
Sueño intranquilo.
Anxious dream.
Verme monstruoso.
Inseto monstruoso.
Gigantesco inseto.
Inseto monstruoso.
Inseto monstruoso.
Monstruoso insecto.
Monstrous verminous bug.
Barriga arqueada e marrom.
Ventre abaulado, marrom.
Arredondado ventre castanho.
Barriga marrom proeminente.
Barriga abaulada, marrom.
Vientre convexo y oscuro.
Brown, arched abdômen.
Costas duras como uma armadura.
Costas duras como couraça.
Dorso, tão duro que parecia revestido de metal.
Dura carapaça.
Costas duras como uma couraça.
Duro caparazón.
Armour-hard back.
Muitas pernas.
Numerosas pernas.
Inúmeras pernas.
Muitas pernas.
Muitas pernas.
Numerosas patas.
Numerous legs.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
Me faire casser le pot
No
Em busca do tempo perdido, o narrador (e personagem) se confunde com a
personalidade do autor. Sabemos que há inúmeras características comuns aos
dois. Em diversos momentos, o autor faz brincadeiras com esse campo de
interseção entre ambos. Ademais, percebe-se que o narrador é não confiável,
especialmente em relação a Albertine. Dela só saberemos por meio dele. Não
veremos Albertine com outras mulheres, tampouco outros homens, embora o
narrador suspeitoso afirme que ela tem o vício, como ele denomina, ou
seja, que ela já manteve relações carnais com mulheres.
No volume 5, A prisioneira, o autor fala da possibilidade de dar “ao narrador o mesmo nome do autor deste livro”, no momento em que Albertine diz, ao acordar, “Meu Marcel”, “Meu querido Marcel”. Isto incrementa, ainda mais, a zona cinzenta entre autor e narrador.
O narrador gosta de registrar palavras, frases, modos de falar, das várias pessoas com as quais convive. Ao mesmo tempo, parece ter chiliques com palavras que considera vulgares. Em certo momento, encontramos o seguinte:
Albertine, usando
da linguagem própria do meio vulgar de onde veio, ou do meio mais vulgar ainda
que frequentava: “Que gaiato você é! Eu sei bem que você não é ciumento.
Ademais, você já me disse antes, e então isso se vê, ora!”
Albertine, usant
du langage propre, soit au milieu vulgaire d’où elle était sortie, soit au plus
vulgaire encore qu’elle fréquentait : “ Quel chineur vous faites ! Je sais
bien que vous n’êtes pas jaloux. D’abord vous me l’avez dit, et puis ça se
voit, allez ! ”
A palavra vulgar que incomodou o narrador foi chineur. De acordo com os dicionários, chineur é de uso familiar e significa aquele que se diverte em zombar, em fazer mofa, em pregar peças. Não parece tão vulgar, mas, de qualquer forma, afetou a sensibilidade do narrador. Em português, podemos pensar em zombeteiro, palhaço, brincalhão, gaiato.
Ocasião
pior para o narrador ocorre quando, pela primeira e única vez, Albertine
explode com seu carcereiro. Isso acontece a partir de uma discussão sobre os
Verdurin, pois Albertine se sentia desdenhada pela família e sua camarilha. O
narrador diz a ela que lhe daria de boa vontade algumas centenas de francos
para que ela posasse de chique e convidasse os Verdurin para um belo jantar.
Considero tal proposta, de antemão, ofensiva, por conter a ideia de que a moça
não é chique, ela se faria de chique.
“ Mais, ma chérie,
je vous donnerais bien volontiers quelques centaines de francs pour que vous
alliez faire où vous voudriez la dame chic et que vous invitiez à un beau dîner
M. et Mme Verdurin. ”
Albertine fica extremamente zangada:
“Muitíssimo
obrigada! Gastar um tostão com aqueles velhos, eu preferia muito mais que você
me deixasse uma vez livre para que eu fosse dar...” Assim que disse
isso, seu rosto ficou vermelho, ela mostrava um ar de arrependimento, colocou a
mão diante da boca como se pudesse fazer voltar as palavras que acabava de
dizer e que eu não tinha compreendido totalmente. “O que você disse, Albertine?
– Não, nada, eu estava meio dormindo. [...]”
“ Grand merci !
dépenser un sou pour ces vieux-là, j’aime bien mieux que vous me laissiez une fois
libre pour que j’aille me faire casser… ” Aussitôt dit sa figure
s’empourpra, elle eut l’air navré, elle mit sa main devant sa bouche comme si
elle avait pu faire rentrer les mots qu’elle venait de dire et que je n’avais
pas du tout compris. “ Qu’est-ce que vous dites, Albertine ? – Non rien, je
m’endormais à moitié. [...]”
O narrador não entendeu a frase incompleta de Albertine e permanece tentando decifrar o enigma – casser, faire casser – e, ao mesmo tempo, insistindo para que Albertine complete e explique o que ia falar.
“Ora, ao menos
tenha a coragem de terminar a frase, você terminou com dar... – Oh! Não,
me deixe! – Mas por quê? – Porque isso é extremamente vulgar, eu teria muita
vergonha de dizer isso na sua frente. Eu não sei em que eu pensei; essas
palavras, eu nem sei mesmo o sentido e que eu tinha ouvido, um dia na rua,
ditas por gente muito grosseira, me vieram à boca, sem rima nem razão. Isso não
se refere nem a mim nem a ninguém, eu estava sonhando alto.”
“ Enfin, au moins
ayez le courage de finir votre phrase, vous en êtes restée à casser… –
Oh ! non, laissez-moi ! – Mais pourquoi ? – Parce que c’est affreusement
vulgaire, j’aurais trop de honte de dire ça devant vous. Je ne sais pas à quoi
je pensais ; ces mots, dont je ne sais même pas le sens et que j’avais entendus,
un jour dans la rue, dits par des gens très orduriers, me sont venus à la
bouche, sans rime ni raison. Ça ne se rapporte ni à moi ni à personne, je
rêvais tout haut. ”
Mas o narrador é persistente e continua a processar as palavras mentalmente enquanto conversa com a moça.
E de um golpe duas
palavras atrozes, as quais eu não teria jamais pensado, desabaram sobre mim: “o
caneco”. Eu não posso dizer que elas vieram de um só golpe, como quando,
por meio de uma longa submissão passiva a uma recordação incompleta, tentando
suavemente, prudentemente, ampliar a recordação, fica-se dobrado, colado a ela.
Et tout d’un coup deux
mots atroces, auxquels je n’avais nullement songé, tombèrent sur moi: “le
pot”. Je ne peux pas dire qu’ils vinrent d’un seul coup, comme quand, dans
une longue soumission passive à un souvenir incomplet, tout en tâchant
doucement, prudemment, de l’étendre, on reste plié, collé à lui.
Portanto, a mente do narrador se ilumina e ele descobre a expressão não pronunciada inteiramente por Albertine: me faire casser le pot. Literalmente, (me fazer) quebrar a panela, (me fazer) quebrar o pote. Tal expressão significa sodomizar, se fazer sodomizar, obter ou praticar a penetração anal, dito assim de forma mais escorreita, e de forma popular, em brasileiro, acredito que se pode usar dar o caneco, dar a bunda. É relevante notar que logo após apreender as palavras usadas pela moça, o narrador fala em longa submissão passiva.
Albertine, zangada e quase no final de sua paciência com todas as limitações que lhe impunha Marcel, disse, em resumo, que preferia dar a bunda do que gastar um tostão com os Verdurin. Em brasileiro e com raiva: Eu preferia dar a porra dessa bunda do que gastar um puto com os Verdurin.
O narrador se horroriza quando compreende o sentido da frase.
Horror! era isso
que ela teria preferido. Duplo horror! Pois mesmo a última das putas, e que
consente nisso, ou até o deseja, não emprega esta terrível expressão com o
homem que a isso se presta. Ela se sentiria muito aviltada. Com uma mulher, apenas,
se ela ama as mulheres, ela diz isso para se desculpar por se entregar daí a
pouco a um homem.
Horreur ! c’était
cela qu’elle aurait préféré. Double horreur ! car même la dernière des grues,
et qui consent à cela, ou le désire, n’emploie pas avec l’homme qui s’y prête
cette affreuse expression. Elle se sentirait par trop avilie. Avec une femme
seulement, si elle les aime, elle dit cela pour s’excuser de se donner tout à
l’heure à un homme.
Ora, no narrador, esse escândalo por conta da expressão vulgar, soa hipocrisia, visto que, nas relações carnais com Albertine, ambos usavam as palavras mais depravadas. Ademais, o narrador convive frequentemente com homens e mulheres depravados, ditos de Sodoma e Gomorra. No autor, pressuponho ironia: homossexual, não parece crível que Proust ficasse consternado com o uso da expressão.
Observo, ainda, que o narrador distorce uso da expressão usada por Albertine: na visão do narrador, tal expressão só seria utilizada entre mulheres homossexuais – o que intenta confirmar as acusações do narrador sobre a moça – pois até mesmo uma puta não usaria a expressão com um homem. É evidente que esse argumento não tem o mínimo fundamento. A distorção só favorece a narrativa obcecada de Marcel.
É curioso que Roland Barthes tenha caído na armadilha do narrador. Em Fragments d'un discours amoureux, Barthes faz relevantes considerações sobre como uma única palavra pode modificar um relacionamento, e usa como exemplo a passagem acima citada de A prisioneira. Todavia, Barthes erra ao relacionar a expressão exclusivamente com a homossexualidade feminina.
Alteração.
Produção rápida, no campo amoroso, de uma contra-imagem do objeto amado. Ao
sabor de incidentes ínfimos ou de indícios frágeis, o sujeito vê a boa Imagem
se alterar e se inverter repentinamente.
[...]
Frequentemente, é pela linguagem que o outro se altera; ele diz uma palavra
diferente, e eu ouço sussurrar, de um modo ameaçador, todo um outro mundo, que
é o mundo do outro. Albertine tendo soltado a expressão trivial “se faire
casser le pot”, o narrador proustiano fica horrorizado, pois é o gueto temido
da homossexualidade feminina, da cantada grosseira, que se revela
de um golpe: toda uma cena pelo buraco da fechadura da linguagem. A palavra é
uma substância química tênue que opera as mais violentas alterações: o outro,
mantido longamente no casulo de meu próprio discurso, faz ouvir, por uma
palavra que lhe escapa, as linguagens que ele recebeu por empréstimo, e que,
por consequência, outros lhe emprestaram.
Altération.
Production brève, dans le champ amoureux, d’une contre-image de l’objet aimé.
Au gré d’incidents infimes ou de traits ténus, le sujet voit la bonne Image
soudainement s’altérer et se renverser.
[...] Bien
souvent, c’est par le langage que l’autre s’altère ; il dit un mot différent,
et j’entends bruire d’une façon menaçante tout un autre monde, qui est le monde
de l’autre. Albertine ayant lâché l’expression triviale « se faire casser le
pot », le narrateur proustien en est horrifié, car c’est le ghetto redouté de l’homosexualité
féminine, de la drague grossière, qui se trouve révélé d’un coup : toute
une scène par le trou de serrure du langage. Le mot est d’une substance
chimique ténue qui opère les plus violentes altérations : l’autre, maintenu
longtemps dans le cocon de mon propre discours, fait entendre, par un mot qui
lui échappe, les langages qu’il peut emprunter, et que par conséquent d’autres
lui prêtent.
A
análise barthesiana da alteração súbita na imagem que se tem do outro pelo uso
inesperado de uma palavra ou expressão me parece verdadeira e densa, mas
reitero que a conexão entre “faire casser le pot” e homossexualidade
feminina não está na expressão, e sim na mente doentia do narrador.
(Todas as traduções são de Paulo Mendes).


