domingo, 11 de outubro de 2020

Fornicar

Capítulo 20.1 – Fornicar

Fornicar significar por no forno. Fornicação: coloca-se a massa do pão no forno, pequenininha, a massa vai assando, fermento, crescendo, sai o pão douradinho, a crosta firmezinha, o interior macio, o cheiro apetitoso de pão novinho. É nisso que dá a fornicação.

Acumuladores

Capítulo 20

Todo mundo é um pouco acumulador. Guardam-se tantos pequenos objetos, ou grandes, pedacinhos de papel, cartões postais, livrinhos bonitinhos de propaganda de uma empresa ou do governo, porque são bonitinhos e faz pena, uma pedrinha de uma praia em que se esteve certo dia, fotografias desfocadas, bibelôs, lembrancinhas, o sapatinho da filha quando bebê. Vai tudo para a lixeira, assim que o dono morre.

Quando se exagera na acumulação, é uma doença, dizem os médicos. Há gente que entope a casa de objetos inúteis e lixo. Há gente que morre soterrada pelo que acumulou.

Contudo, Ordep descobriu que houve a possibilidade de ter se tornado um milionário. Leu no jornal que um cara ficou milionário assim. O irmão do cara era um acumulador e morreu. A casa inteira e duas garagens estavam tomadas de objetos os mais diversos. O irmão vivo ia mandar tudo para o lixo, mas pensou melhor e chamou uma empresa de leilões para selecionar o material. Deve ser um serviço pelo qual as empresas cobram uma pequena taxa, imagina-se. A tal empresa descobriu objetos valiosos, guitarras especiais, gibis raros e mais. O leilão rendeu milhões.

Certa vez, Ordep foi chamado para resolver o destino do lixo do tio, visto que era o parente mais próximo do sexo masculino. Sobrinhas não queriam meter a mão no lixo. O tio era um doido acumulador. Isolara-se de todos os parentes, vivia em condições terríveis em uma casa cheia de objetos.

Havia de tudo quando Ordep visitou a casa. Cães esfomeados e bravos, ratos por cima dos móveis, aparelhos eletrônicos, livros, papéis, caixas de papelão, máquinas quebradas. Os cães, ele chamou a prefeitura para recolher, não se conseguia nem entrar na casa. Depois, teve a paciência de separar um ou outro objeto que parecia mais novo e somente. Enojado, porque havia cocô de ratos sobre tudo. Não suportava o cheiro da casa e a imundície reinante.

Chamou uma empresa de lixo e mandou levar tudo, sem mais qualquer seleção. Saíram da casa três caminhões de porcarias.

Podia ter ficado rico, se tivesse tido paciência. Teria dado um chute na bunda dos patrões. A liberdade.

O relógio de Cortázar

Capítulo 19.1

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio, estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. [...] dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão a marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”

sábado, 10 de outubro de 2020

Capítulo 19 – Sobre capítulos

Capítulo 19 – Sobre capítulos 

Sim, pode-se criar aqui um capítulo como aqueles de Machado, um capítulo para declarar que hoje não há capítulo.

Porque o personagem não fez nada, porque o autor estava cansado após atividades burocráticas na rua – a mãe do autor chamava a cidade de rua, vou na rua, dizia – pagar impostos, reclamar em agências governamentais; porque o vazio se instalou na vida do personagem.

Solução: explodir uma bomba na vida dele: um câncer, um atropelamento e fuga, um terremoto, um desmoronamento, uma inundação, um ataque terrorista, um assalto à mão armada, uma invasão de domicílio, uma paixão, ao menos. 

O personagem comprou pão e a moça bonita comprou ovos. A cidade se divide entre os pânicos e os ovíparos. A moça bonita usava vestidinho branco, peitos pequenos bons de mamar. Certo, impossível existir um mundo de verdade total, mas imagine-se que os pensamentos pudessem ser vistos, como balões dos quadrinhos.

Ordep pensava gostosinha, razoável, peitinhos pequenos bons para mamar. A moça pensava na casa, no namorado, na preparação dos ovos para o café da noite e, na margem do balão, esse filho da puta está me olhando demais, tarado safado. Mas se todos lessem os pensamentos de todos, seria o mundo da verdade total.

Mas era bom um capítulo de respiração, branco.

Era bom um capítulo, também, em que o personagem não apenas comprasse pão, comprar pão não faz evoluir a narrativa, era bom um capítulo ativo, dinâmico, veloz. Coitado de Ordep: ele se denomina o coelho de Alice porque está sempre correndo, o relógio de algibeira na mão, sempre atrasado, sempre menos do que o mais que exigem dele.

Era bom um capítulo curto.

Era bom um capítulo de foda, também, muito sexo louco, com dedos e paus e mucos e línguas e bocetas e palavrões e tapas e algemas e o bom e velho entra e sai como escreveu o bom e velho Burgess.

Era bom.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Livros para ler em um dia

Capítulo 17.1

Este subcapítulo é somente uma lista que se pretende útil ao leitor e, quiçá, que se expandirá ao longo do tempo. Uma lista de livrinhos, ou seja, livros finos e relevantes e gostosos de ler, livros que podem ser lidos em algumas horas, em um dia ou, no máximo, em dois. Livrinhos fininhos que o autor do blog considera valiosos – uma opinião que, evidentemente, pode ser refutada com facilidade. Vamos à lista (provisória, como a vida). A quantidade de páginas anotada vai variar de acordo com a edição. Só listei livros que realmente li.

A metamorfose – Franz Kafka – 90 páginas.
A história de um caixeiro-viajante. (Escrito em vinte dias). 

O estrangeiro – Albert Camus – 120 páginas.
A história de um empregado do comércio.

Macbeth – William Shakespeare – 130 páginas. 
A história de um general escocês. 

Bartleby – Herman Melville – 48 páginas. 
A história de um escrivão de escritório de advocacia. 

Histórias de cronópios e de famas – Julio Cortázar – 127 páginas. 
A história de cronópios e de famas. 

A contadora de filmes – Hernán Rivera Letelier – 112 páginas. 
A história de uma menina que conta a história dos filmes que assiste. 

O horla – Guy de Maupassant – 88 páginas. 
A história de um homem e um fantasma. 

O velho e o mar – Ernest Hemingway – 120 páginas. 
História de pescador. 

O estranho caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde – Robert Louis Stevenson – 130 páginas. 
A história de um médico maluco. (Escrito em seis dias). 

A morte e a morte de Quincas Berro d’Água – Jorge Amado – 120 páginas. 
A história de um cachaceiro. 

O alienista – Machado de Assis – 104 páginas. 
A história de um médico maluco. 

Relato de um náufrago – Gabriel García Márquez – 100 páginas. 
A história de um náufrago.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Capítulo 17.2 - Camus Pessoa

Capítulo 17.2 - Camus Pessoa

Tabacaria é um poema de Fernando Pessoa, escrito em 15 de janeiro de 1928, e publicado em julho de 1933. Pessoa atribuiu o poema a Álvaro de Campos, um de seus heterônimos. O estrangeiro é o livro mais famoso de Albert Camus, publicado em 1942. Considerando-se as datas, Camus poderia já ter conhecimento do poema quando escrevia seu romance. Há um trecho em O estrangeiro que guarda semelhanças com o poema de Pessoa.

Em Camus, a janela do quarto dá para uma rua movimentada, há uma menina que passa, a tabacaria do outro lado da rua, há o chocolate, o dono da tabacaria, uma cadeira e o cigarro. A impressão que se tem é de uma reconstrução do poema de Pessoa, talvez involuntária, talvez proposital. Em Pessoa, os elementos citados, presentes na origem e, fantástico, a sensação de que “tudo isto é estrangeiro”. Eis o trecho de Camus:

Meu quarto dá para a rua principal do bairro. A tarde estava bonita. No entanto, a rua parecia oleosa, as pessoas esparsas e, mais, tinham pressa. Primeiro, eram as famílias que passeavam, [...] uma menina com um grande laço cor-de-rosa e sapatos de verniz preto. [...]

Depois deles, pouco a pouco, a rua ficou deserta. Acho que os espetáculos tinham começado em todos os lugares. Só se viam nas ruas os comerciantes e os gatos. O céu estava puro, mas sem brilho, por cima dos fícus ao longo da rua. Na calçada em frente, o dono da tabacaria pegou uma cadeira, instalou-a diante da porta e sentou-se a cavalo, apoiando-se com os dois braços no encosto. Os bondes, há pouco cheios, estavam quase vazios. No pequeno Café Pierrot, ao lado da tabacaria, o empregado varria a serragem na sala deserta. Era realmente domingo.

Virei minha cadeira e coloquei-a como a do dono da tabacaria, porque achei que assim era mais cômodo. Fumei dois cigarros, entrei para buscar um pedaço de chocolate e voltei para comê-lo à janela. Pouco depois, o céu escureceu e achei que íamos ter uma tempestade de verão. Pouco a pouco, no entanto, o céu se foi desanuviando. Mas a passagem das nuvens deixara sobre a rua uma promessa de chuva que a tornou mais sombria. Fiquei muito tempo olhando o para o céu.

O poema de Pessoa é longo, não vou repeti-lo aqui; apenas destacar versos que contêm as semelhanças que vislumbro.

Janelas do meu quarto,
[...]
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
[...]
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
[...]
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
[...]
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
[...]
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
[...]
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
[...]
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
[...]
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
[...]
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
[...]

Quod erat demonstrandum.

Capítulo 17 – Rua dos Poços

Capítulo 17 – Rua dos Poços

Ruas de cidades antigas são estreitas, tortuosas, e as casas tendem a possuir de três a seis pavimentos. É essa, em geral, a evolução dos aglomerados urbanos. O estúdio de Ordep fica em uma rua assim, na parte medieval da cidade. O nome antigo da rua, Rua dos Poços, derivava de um poço de água que existia na esquina perto da casa dele e um outro poço mais distante. Hoje, ninguém nem nota o lugar dos poços – há somente uma placa que marca o local, os poços foram lacrados faz séculos. As ruas do entorno têm nome de santos e santas, embora quase ninguém mais frequente as igrejas. Uma delas, a Igreja de Santa Ana, foi transformada em galeria de arte municipal, deixou de ser solo sagrado.

Sendo uma rua estreita de casas altas, os habitantes não dispõem de uma paisagem. Ordep, que ama seu estúdio, só consegue vislumbrar uma nesga de céu; e a paisagem que se estende da varanda a sua frente e para os lados é constituída pelas janelas e varandas dos vizinhos. Os habitantes da rua flutuam entre a aceitação e a recusa ao olhar dos outros. A maioria deles, inclusive Ordep, tenta não olhar para as casas dos outros, mas o olhar se perde, vez ou outra, e o olho penetra os ambientes. Em outros momentos, vizinhos se olham e se cumprimentam. Em outros momentos, as cortinas se fecham.

Há o casal jovem que gosta de fazer as refeições na varanda. O homem barrigudo, quarenta e poucos anos, peludo, que gosta de fumar, sem camisa, na mesinha da varanda. Raramente, a mulher dele se senta para lhe fazer companhia ou conversar – isto faz com que Ordep imagine um casamento que se arrasta. Outro homem, não possui varanda, abre a janela para fumar e olhar para cima, para a nesga de céu, todas as manhãs. O casal maduro que vive se beijando e agarrando – parecem casados de muitos anos, mas passam os dias arrulhando. O rapaz que passa horas e horas, a vida toda parece, no computador e nem olha pela janela, fones de ouvido.

Visto pelos vizinhos, Ordep é um solitário tranquilo, que senta na poltrona perto da varanda para ler, e que senta à mesa para comer de manhã, antes de sair, e de noite. De manhã, com café e um copo de suco de laranja de caixa. De noite, com um copo de vinho. Depois da ceia e em outros momentos livres em que está em casa, vê-se que usa a mesa para fazer anotações à mão, ou no computador portátil. Da janela dos vizinhos, dá para ver pedaço de uma estante que semelha infinita porque entra pelo apartamento até onde a vista alcança.

Vistos, todos, por um drone com câmera que percorresse a Rua dos Poços, pareceriam todos solitários, desamparados, intranquilos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Capítulo 16 – A onda

Capítulo 16 – A onda

A pessoa mais sem graça do mundo. Sem sabor, insosso, chocho, inodoro, sem sal, aguado, tedioso, insípido, apático, sem cor, enfadonho, monótono. É assim que ele se vê. É possível que o apego aos livros resulte dessa autoimagem: considera-se sem atrativos, tem dificuldades de relacionamento com os outros humanos, isola-se nas páginas de histórias sobre outros mais curiosos. Gosta de repetições. Uma colega de trabalho sugeriu que isso tem tratamento, ou seja, é uma doença. Um dia perfeito, para Ordep, é um dia completamente igual ao dia anterior. E assim sucessivamente, e assim sucessivamente, e assim. Nem de sábados e domingos ele precisaria, caso não existissem. Gosta de não ter trabalho no final de semana, de ter mais tempo para sua vida interior, como ele denomina. Mas sábado e domingo quebram a sequência de dias perfeitos, interferem na produção de pensamento, na aquisição de conhecimento. Porém, se o conhecimento adquirido não serve para comunicar aos outros, para se comunicar, para compartilhar, para aprimorar os relacionamentos, se esse conhecimento fica represado, só serve para o prazer de acumular conhecimento, então é um conhecimento vão. Ordep é um acumulador. Felizmente, não é um acumulador de objetos como se mostra na tevê. Um acumulador de conhecimento. Nem mesmo um acumulador de livros, pois se autoimpôs o limite na coleção. O limite físico da parede longa.

Faz exercícios físicos periodicamente. Odeia exercícios físicos porque retiram tempo das atividades mais elevadas, aquelas que ele considera mais elevadas. Faz os exercícios físicos para não morrer. Não tem medo de morrer. Até anseia morrer. Mas não quer definhar. Com a saúde mantida no estágio mais ou menos, pode se dedicar melhor ao intelecto. Faz caminhadas, também. É bom para pensar, o sangue circula no corpo e no cérebro, o cérebro ativa conexões. Gostaria de levar uma máquina fotográfica ou o telefone para tirar fotografias, mas não cabem nos poucos compartimentos da roupa de caminhar e, caso coubessem, fazem peso, e gosta de caminhar leve. Um pouco mais leve do que o peso da carne que carrega, já um pouco excessiva. Em uma caminhada de final de dia, foi se aproximando de uma imagem, era uma parede azul de um imóvel de esquina. Caminhava absorto, mas o olho e o cérebro enviavam sinais, faíscas, ordenavam que acordasse. Aproximava-se e não compreendia o desenho na parede azul, tampouco o motivo das faíscas cerebrais. Quase já passava da esquina quando a luz se fez. Era uma parede azul com um desenho em linhas brancas, e o desenho era de uma grande onda a ponto de quebrar. A seguir, entendeu que a onda, canhestramente retratada, era um simulacro de A grande onda de Kanagawa, a gravura famosa de Katsushika Hokusai. Desde pequeno gostava daquela onda. O imóvel era um tipo de restaurante japonês em um bairro periférico da cidade. O dono devia gostar de Hokusai. Ou alguém de marketing havia de ter sugerido o desenho. Não é de tão fácil assimilação pelo público daquele bairro. Onda gigante, onda de Hokusai, Japão, comida japonesa. Não sabia se funcionava tal associação. Queria ter tirado uma foto da onda periférica e colocá-la no computador ao lado da gravura. Comparar. No restante da caminhada, o pensamento se desviou para o dia em que viu a gravura ao vivo em um museu. Um dia nublado, de chuvisco constante. O museu havia acabado de adquirir um exemplar da gravura, e o estava expondo bem na entrada. Ele não sabia desse acontecimento. Entrara no museu por causa do chuvisco. Fora premiado. Um dia feliz.






terça-feira, 6 de outubro de 2020

Capítulo 15 – Ester

 Capítulo 15 – Ester

O livro de Ester se lê em uma hora, no máximo em duas. A curta história pretende mostrar a vitória do povo judeu contra seus inimigos. Lá pelo ano 114 antes da Era Comum, o rei persa Assuero (mais conhecido como Xerxes) detinha poder sobre um grande império, que se estendia da Índia a Etiópia. O rei tem um conselheiro, Amã, um tipo de primeiro-ministro, que passa a odiar os judeus porque um deles, Mardoqueu – que trabalha no palácio – recusa-se a se prostrar quando da passagem do conselheiro. Amã pede ao rei para exterminar o povo judeu, e até se propõe a pagar por isso. Assuero dispensa o pagamento e diz que faça como lhe aprouver. Amã emite uma carta para todas as províncias, marcando o extermínio dos judeus para o décimo segundo mês daquele ano. A sobrinha de Mardoqueu, Ester – selecionada em um grande concurso de jovens virgens e belas – era a rainha – ou uma das rainhas do imenso harém, isso não fica claro na narrativa – e o rei não sabia de sua origem judaica, tampouco do parentesco com Mardoqueu. Nos aposentos do rei, ninguém podia entrar sem ser chamado, sob pena de morte. Ester, sob risco de ser condenada, se atreve a entrar e, posteriormente, a pedir ao rei que cancele a ordem dada na carta enviada por Amã, revelando sua origem judaica. O rei concede o cancelamento e Amã é enforcado na mesma forca que preparara para Mardoqueu. Este se torna o principal conselheiro. No dia antes marcado para o assassinato dos judeus, estes, com o apoio do novo edito real, matam setenta e cinco mil homens nas províncias, e oitocentos em Susa, a capital.

A carta de Amã, em nome de Assuero, ordenando a morte do povo judeu, é fabulosa: um espetáculo de ironia e hipocrisia.

 

O grande rei Assuero, aos governadores das cento e vinte e sete províncias que vão da Índia a Etiópia, e aos chefes de distrito, seus subordinados:

 

Colocado na chefia de inúmeros povos e como senhor de toda a terra, eu me propus não me deixar embriagar pelo orgulho do poder e sempre governar com grande espírito de moderação e benevolência, a fim de outorgar a meus subordinados o perpétuo gozo de uma existência sem sobressaltos e, já que meu reino oferece os benefícios da civilização e a livre circulação entre as suas fronteiras, nele instaurar o objeto do desejo universal, que é a paz. Ora, tendo ouvido meu conselho sobre os meios de atingir esse fim, um de meus conselheiros, cuja sabedoria entre nós é eminente, dando provas de indefectível devotamento e inquebrantável fidelidade, e cujas prerrogativas vêm imediatamente após as nossas, Amã, denunciou-nos, misturado a todas as tribos do mundo, um povo mal-intencionado, em oposição, por suas leis, a todas as nações, e constantemente desprezando as ordens reais, a ponto de ser um obstáculo ao governo que exercemos para a satisfação geral.

 

Considerando, pois, que o referido povo, único em seu gênero, acha-se sob todos os aspectos em conflito com toda a humanidade; que dela difere por um regime de leis estranhas; que é hostil aos nossos interesses e que comete os piores delitos, chegando a ameaçar a estabilidade de nosso reino:

 

Por esses motivos ordenamos que todas as pessoas que vos forem assinaladas nas cartas de Amã, preposto às tarefas de nossos interesses e para nós um segundo pai, sejam radicalmente exterminadas, inclusive mulheres e crianças, pela espada de seus inimigos, sem piedade ou consideração alguma, no décimo quarto dia do décimo segundo mês, isto é, Adar, do presente ano, a fim de que, uma vez lançados esses opositores de hoje e de ontem no Hades num só dia, sejam assegurada doravante ao Estado estabilidade e tranquilidade.

A leitura desse conto faz pensar na efemeridade dos impérios e das nações frente ao nosso grande inimigo e senhor: o Tempo. Assuero dominava “o mundo”, ou seja, grande parte do mundo conhecido, vivia entre fausto, poder e harém. A glória do mundo é transitória. Assuero é, hoje, apenas um verbete apagado da história.

Ademais, tem-se a vingança e a crueldade praticada por qualquer dos lados “inimigos”. Quem pode mais, em dado momento, dedica-se ao extermínio dos outros, dos diferentes, dos que pensam de forma diversa. 

A carta de Assuero, que mostra um reino comparável à União Europeia – livre circulação, benefícios da civilização, paz universal – alega que, para manter tais pressupostos e a estabilidade e a tranquilidade, se faz necessário o extermínio de um povo mal-intencionado. Para manter a paz, faça-se a guerra. 

Relevantes, também, alguns acontecimentos paralelos à narrativa principal. 

Assuero vivia de forma luxuosa: renda, musselina, púrpura, linho, prata e alabastro. No terceiro ano de seu reinado, ofereceu um banquete aos nobres e governadores das províncias que se estendeu por cento e oitenta dias. Após esta festa, deu um banquete ao povo de Susa que durou sete dias. É dito que o rei e Amã esbanjavam em festas e bebedeiras. Por fim, após a ascensão de Mardoqueu, o rei Assuero impôs um tributo sobre todo o continente e as ilhas – evidentemente, um reflexo das despesas ilimitadas da corte. 

No início da narrativa, conta-se que Mardoqueu, alto funcionário da corte, teve um sonho que ele interpretou como um aviso de que o rei Assuero seria assassinado. A suposta interpretação de Mardoqueu é bem enviesada e, aparentemente, ele queria mesmo era se vingar de dois guardas do palácio. A partir do sonho, Mardoqueu informou ao rei que os eunucos Bagatã e Tares planejavam matá-lo. Assuero aplicou a tortura aos eunucos que, surpresa!, confessaram e foram supliciados. 

O sonho de Mardoqueu é belo e pleno de símbolos apocalípticos, e o transcrevo aqui:

 

Gritos e ruídos, ribomba o trovão, treme o chão, tumulto sobre toda a terra. Dois enormes dragões avançam, ambos prontos para o combate. Lançam um rugido; ao ouvi-lo, todas as nações se preparam para a guerra contra o povo dos justos. Dia de trevas e de escuridão! Tribulação, aflição, angústia e espanto caem sobre a terra. Transtornado de terror diante dos males que o esperam, todo o povo justo se prepara para morrer e invoca a Deus. Ora, de seu grito, como de uma pequena fonte, brota um grande rio, de águas caudalosas. A luz se levanta com o sol. Os humildes são exaltados e devoram os poderosos. 

Os humildes, exaltados, devoram os poderosos. Nada de piedade quando os antigos humildes passam a deter o poder. 

O nome hebreu de Ester era Hadassa. O nome Ester pode vir da deusa babilônica Ishtar ou do persa stareh, que significa estrela.

(A tradução utilizada foi a da Bíblia de Jerusalém).

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Capítulo 14 – Ilha deserta

Capítulo 14 – Ilha deserta

A venda de bibliotecas particulares é um acontecimento melancólico. Demonstra a inutilidade de amar os livros, de ajuntar e cuidar. Morre-se e aos parentes próximos resta a obrigação de jogar fora a coleção. Vender, doar, tocar fogo, jogar no caminhão do lixo.

Ordep pensa nisso enquanto devolve à estante livros que consultou, enquanto acaricia uma fileira de volumes, quando rearruma e limpa prateleiras. Planeja, no futuro, meses antes de morrer, iniciar e concluir ele mesmo a doação dos livros. A dificuldade do plano é que não se consegue combinar uma data com a morte. Morre-se repentinamente e tudo fica pelo meio.

Alguns o consideram entre maluco e obsessivo, isso de ter um mil, oitocentos e cinquenta volumes, de manter a estante metodicamente organizada. Transtorno obsessivo-compulsivo, dizem. Ele afirma que saber a quantidade exata de volumes não é uma mania, é somente constatar o que cabe no estúdio e que, às vezes, há mais, outras menos. E a organização ajuda a encontrar o que se busca.

Ele sabe, ainda, que poderia viver com menos volumes e mesmo com um único livro. Aquela pergunta repetida que fazem aos escritores: “qual livro levar para uma ilha deserta”. Para ele, a escolha seria levar um único volume antológico, como a obra completa de Shakespeare, ou a Bíblia – que é uma inacreditável coletânea de estilos, poesia, erotismo, aventuras – ou Em busca do tempo perdido. Ou Metamorfoses, Ovídio, ou Dante, Homero, Virgílio.

Até um livrinho fino, cem páginas, por exemplo, poderia servir para o leitor isolado na ilha, desde que denso como O estrangeiro ou A metamorfose.

Ordep não se sente um maluco – mas os malucos não se sabem malucos, é o que parece. Ele tem certeza que, eliminada a hipótese absurda da ilha deserta, conseguiria, se necessário, viver com duzentos livros, cem livros, sessenta livros.

Poderia, até, deixar de ler. Se o mundo distópico dos filmes de ficção científica chegasse, a vida dele, único sobrevivente, se tornaria uma aventura de sobrevivência. Não haveria nem tempo para ler. Comida e água são muito mais relevantes.

domingo, 4 de outubro de 2020

Estrangeiro

Capítulo 13 – Estrangeiro 

Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile : « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier. 

Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, eu não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Nossos sentimentos.” Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. 

Albert Camus, O estrangeiro. Minha tradução. 

Desde a juventude, me afeiçoei ao livro de Camus. Reli algumas vezes ao longo da curta vida. Livro de cento e vinte e duas páginas, possível de ler em um único dia. Bem como A metamorfose, Kafka, cem páginas. Dois livros fundamentais que se pode ler em um dia, e que ficam com a gente para a vida toda.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Kafka e o inseto

 


O poço, filme espanhol, é uma metáfora do mundo. Chegamos aqui sem saber o motivo, caímos em um estrato bom e farto, sem motivo, ou em um estrato mediano, ou em um miserável, sem motivo. Não sabemos como a máquina do mundo funciona e porque os deuses lá em cima – se os há – nos amam ou nos odeiam ou são indiferentes a nós. É kafkiano porque o mundo é kafkiano. O final do filme poderia ser melhor, não sei como, mas acho que poderia. A presença de fantasmas não me agradou porque não existem no mundo, seja o real – kafkiano em si – seja no mundo-universo de Kafka. 

A atmosfera do filme me incitou, então pesquisei e anotei o famoso primeiro parágrafo de A metamorfose, tanto no original como em diversas traduções. 

Franz Kafka (original em alemão):

 

Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt. Er lag auf seinem panzerartig harten Rücken und sah, wenn er den Kopf ein wenig hob, seinen gewölbten, braunen, von bogenförmigen Versteifungen geteilten Bauch, auf dessen Höhe sich die Bettdecke, zum gänzlichen Niedergleiten bereit, kaum noch erhalten konnte. Seine vielen, im Vergleich zu seinem sonstigen Umfang kläglich dünnen Beine flimmerten ihm hilflos vor den Augen. 



Google, tradução automática:

 

Quando Gregor Samsa acordou de sonhos perturbadores uma manhã, ele se viu transformado em um verme monstruoso em sua cama. Ele estava deitado de costas duras como uma armadura e, quando ergueu um pouco a cabeça, viu sua barriga arqueada e marrom, dividida por reforços arqueados, a cujo nível o edredom, pronto para deslizar completamente, dificilmente poderia ser preservado. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com seu tamanho normal, piscaram desamparadamente diante de seus olhos. 



Modesto Carone (Companhia das Letras):

 

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. 



No site Domínio Público, sem identificação do tradutor (Universidade da Amazônia, Unama, NEAD, Núcleo de Educação à Distância):

 

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos. 



Marcus Penchel (Editora Vozes):

 

Ao despertar de sonhos agitados certa manhã em sua cama, Gregor Samsa viu-se transformado em um inseto monstruoso. De costas sobre a dura carapaça, ergueu um pouco a cabeça e olhou a barriga marrom proeminente dividida em arcos reforçados, da qual toda a coberta já havia deslizado para baixo, sem poder puxá-la de volta. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em contraste com a corpulência geral, debatiam-se inutilmente ante seus olhos. 



Cláudia Abeling (Editora Melhoramentos):

 

Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se, em sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso. Deitado sobre suas costas duras como uma couraça, viu, ao levantar um pouco a cabeça, sua barriga abaulada, marrom, dividida em arcos rígidos, sobre os quais a coberta, quase escorregando de vez, mal se mantinha. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação ao volume do corpo, agitavam-se desesperadamente sob seus olhos. 



No site Domínio Público, sem identificação do tradutor:

 

Una mañana, tras un sueño intranquilo, Gregorio Samsa se despertó convertido em un monstruoso insecto. Estaba echado de espaldas sobre un duro caparazón y, al alzar la cabeza, vio su vientre convexo y oscuro, surcado por curvadas callosidades, sobre el que casi no se aguantaba la colcha, que estaba a punto de escurrirse hasta el suelo. Numerosas patas, penosamente delgadas en comparación con el grosor normal de sus piernas, se agitaban sin concierto. 



Ian Johnston (Malaspina University College Nanaimo, BC):

 

One morning, as Gregor Samsa was waking up from anxious dreams, he discovered that in bed he had been changed into a monstrous verminous bug. He lay on his armour-hard back and saw, as he lifted his head up a little, his brown, arched abdomen divided up into rigid bowlike sections. From this height the blanket, just about ready to slide off completely, could hardly stay in place. His numerous legs, pitifully thin in comparison to the rest of his circumference, flickered helplessly before his eyes. 


Como grifei nos parágrafos selecionados, temos: 


Sonhos perturbadores.
Sonhos intranquilos.
Sonhos inquietantes.
Sonhos agitados.
Sonhos intranquilos.
Sueño intranquilo.
Anxious dream.

Verme monstruoso.
Inseto monstruoso.
Gigantesco inseto.
Inseto monstruoso.
Inseto monstruoso.
Monstruoso insecto.
Monstrous verminous bug.

Barriga arqueada e marrom.
Ventre abaulado, marrom.
Arredondado ventre castanho.
Barriga marrom proeminente.
Barriga abaulada, marrom.
Vientre convexo y oscuro.
Brown, arched abdômen.

Costas duras como uma armadura.
Costas duras como couraça.
Dorso, tão duro que parecia revestido de metal.
Dura carapaça.
Costas duras como uma couraça.
Duro caparazón.
Armour-hard back.

Muitas pernas.
Numerosas pernas.
Inúmeras pernas.
Muitas pernas.
Muitas pernas.
Numerosas patas.
Numerous legs.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Me faire casser le pot

No Em busca do tempo perdido, o narrador (e personagem) se confunde com a personalidade do autor. Sabemos que há inúmeras características comuns aos dois. Em diversos momentos, o autor faz brincadeiras com esse campo de interseção entre ambos. Ademais, percebe-se que o narrador é não confiável, especialmente em relação a Albertine. Dela só saberemos por meio dele. Não veremos Albertine com outras mulheres, tampouco outros homens, embora o narrador suspeitoso afirme que ela tem o vício, como ele denomina, ou seja, que ela já manteve relações carnais com mulheres.

No volume 5, A prisioneira, o autor fala da possibilidade de dar “ao narrador o mesmo nome do autor deste livro”, no momento em que Albertine diz, ao acordar, “Meu Marcel”, “Meu querido Marcel”. Isto incrementa, ainda mais, a zona cinzenta entre autor e narrador.

O narrador gosta de registrar palavras, frases, modos de falar, das várias pessoas com as quais convive. Ao mesmo tempo, parece ter chiliques com palavras que considera vulgares. Em certo momento, encontramos o seguinte:

 

Albertine, usando da linguagem própria do meio vulgar de onde veio, ou do meio mais vulgar ainda que frequentava: “Que gaiato você é! Eu sei bem que você não é ciumento. Ademais, você já me disse antes, e então isso se vê, ora!”

 

Albertine, usant du langage propre, soit au milieu vulgaire d’où elle était sortie, soit au plus vulgaire encore qu’elle fréquentait : “ Quel chineur vous faites ! Je sais bien que vous n’êtes pas jaloux. D’abord vous me l’avez dit, et puis ça se voit, allez ! ”

A palavra vulgar que incomodou o narrador foi chineur. De acordo com os dicionários, chineur é de uso familiar e significa aquele que se diverte em zombar, em fazer mofa, em pregar peças. Não parece tão vulgar, mas, de qualquer forma, afetou a sensibilidade do narrador. Em português, podemos pensar em zombeteiro, palhaço, brincalhão, gaiato.

Ocasião pior para o narrador ocorre quando, pela primeira e única vez, Albertine explode com seu carcereiro. Isso acontece a partir de uma discussão sobre os Verdurin, pois Albertine se sentia desdenhada pela família e sua camarilha. O narrador diz a ela que lhe daria de boa vontade algumas centenas de francos para que ela posasse de chique e convidasse os Verdurin para um belo jantar. Considero tal proposta, de antemão, ofensiva, por conter a ideia de que a moça não é chique, ela se faria de chique.

 

“ Mais, ma chérie, je vous donnerais bien volontiers quelques centaines de francs pour que vous alliez faire où vous voudriez la dame chic et que vous invitiez à un beau dîner M. et Mme Verdurin. ”

Albertine fica extremamente zangada:

 

“Muitíssimo obrigada! Gastar um tostão com aqueles velhos, eu preferia muito mais que você me deixasse uma vez livre para que eu fosse dar...” Assim que disse isso, seu rosto ficou vermelho, ela mostrava um ar de arrependimento, colocou a mão diante da boca como se pudesse fazer voltar as palavras que acabava de dizer e que eu não tinha compreendido totalmente. “O que você disse, Albertine? – Não, nada, eu estava meio dormindo. [...]”

 

“ Grand merci ! dépenser un sou pour ces vieux-là, j’aime bien mieux que vous me laissiez une fois libre pour que j’aille me faire casser… ” Aussitôt dit sa figure s’empourpra, elle eut l’air navré, elle mit sa main devant sa bouche comme si elle avait pu faire rentrer les mots qu’elle venait de dire et que je n’avais pas du tout compris. “ Qu’est-ce que vous dites, Albertine ? – Non rien, je m’endormais à moitié. [...]”

O narrador não entendeu a frase incompleta de Albertine e permanece tentando decifrar o enigma – casser, faire casser – e, ao mesmo tempo, insistindo para que Albertine complete e explique o que ia falar.

 

“Ora, ao menos tenha a coragem de terminar a frase, você terminou com dar... – Oh! Não, me deixe! – Mas por quê? – Porque isso é extremamente vulgar, eu teria muita vergonha de dizer isso na sua frente. Eu não sei em que eu pensei; essas palavras, eu nem sei mesmo o sentido e que eu tinha ouvido, um dia na rua, ditas por gente muito grosseira, me vieram à boca, sem rima nem razão. Isso não se refere nem a mim nem a ninguém, eu estava sonhando alto.”

 

“ Enfin, au moins ayez le courage de finir votre phrase, vous en êtes restée à casser… – Oh ! non, laissez-moi ! – Mais pourquoi ? – Parce que c’est affreusement vulgaire, j’aurais trop de honte de dire ça devant vous. Je ne sais pas à quoi je pensais ; ces mots, dont je ne sais même pas le sens et que j’avais entendus, un jour dans la rue, dits par des gens très orduriers, me sont venus à la bouche, sans rime ni raison. Ça ne se rapporte ni à moi ni à personne, je rêvais tout haut. ”

Mas o narrador é persistente e continua a processar as palavras mentalmente enquanto conversa com a moça.

 

E de um golpe duas palavras atrozes, as quais eu não teria jamais pensado, desabaram sobre mim: “o caneco”. Eu não posso dizer que elas vieram de um só golpe, como quando, por meio de uma longa submissão passiva a uma recordação incompleta, tentando suavemente, prudentemente, ampliar a recordação, fica-se dobrado, colado a ela.

 

Et tout d’un coup deux mots atroces, auxquels je n’avais nullement songé, tombèrent sur moi: “le pot”. Je ne peux pas dire qu’ils vinrent d’un seul coup, comme quand, dans une longue soumission passive à un souvenir incomplet, tout en tâchant doucement, prudemment, de l’étendre, on reste plié, collé à lui.

Portanto, a mente do narrador se ilumina e ele descobre a expressão não pronunciada inteiramente por Albertine: me faire casser le pot. Literalmente, (me fazer) quebrar a panela, (me fazer) quebrar o pote. Tal expressão significa sodomizar, se fazer sodomizar, obter ou praticar a penetração anal, dito assim de forma mais escorreita, e de forma popular, em brasileiro, acredito que se pode usar dar o caneco, dar a bunda. É relevante notar que logo após apreender as palavras usadas pela moça, o narrador fala em longa submissão passiva.

Albertine, zangada e quase no final de sua paciência com todas as limitações que lhe impunha Marcel, disse, em resumo, que preferia dar a bunda do que gastar um tostão com os Verdurin. Em brasileiro e com raiva: Eu preferia dar a porra dessa bunda do que gastar um puto com os Verdurin.

O narrador se horroriza quando compreende o sentido da frase.

 

Horror! era isso que ela teria preferido. Duplo horror! Pois mesmo a última das putas, e que consente nisso, ou até o deseja, não emprega esta terrível expressão com o homem que a isso se presta. Ela se sentiria muito aviltada. Com uma mulher, apenas, se ela ama as mulheres, ela diz isso para se desculpar por se entregar daí a pouco a um homem.

 

Horreur ! c’était cela qu’elle aurait préféré. Double horreur ! car même la dernière des grues, et qui consent à cela, ou le désire, n’emploie pas avec l’homme qui s’y prête cette affreuse expression. Elle se sentirait par trop avilie. Avec une femme seulement, si elle les aime, elle dit cela pour s’excuser de se donner tout à l’heure à un homme.

Ora, no narrador, esse escândalo por conta da expressão vulgar, soa hipocrisia, visto que, nas relações carnais com Albertine, ambos usavam as palavras mais depravadas. Ademais, o narrador convive frequentemente com homens e mulheres depravados, ditos de Sodoma e Gomorra. No autor, pressuponho ironia: homossexual, não parece crível que Proust ficasse consternado com o uso da expressão.

Observo, ainda, que o narrador distorce uso da expressão usada por Albertine: na visão do narrador, tal expressão só seria utilizada entre mulheres homossexuais – o que intenta confirmar as acusações do narrador sobre a moça – pois até mesmo uma puta não usaria a expressão com um homem. É evidente que esse argumento não tem o mínimo fundamento. A distorção só favorece a narrativa obcecada de Marcel.

É curioso que Roland Barthes tenha caído na armadilha do narrador. Em Fragments d'un discours amoureux, Barthes faz relevantes considerações sobre como uma única palavra pode modificar um relacionamento, e usa como exemplo a passagem acima citada de A prisioneira. Todavia, Barthes erra ao relacionar a expressão exclusivamente com a homossexualidade feminina.

 

Alteração. Produção rápida, no campo amoroso, de uma contra-imagem do objeto amado. Ao sabor de incidentes ínfimos ou de indícios frágeis, o sujeito vê a boa Imagem se alterar e se inverter repentinamente.

 

[...] Frequentemente, é pela linguagem que o outro se altera; ele diz uma palavra diferente, e eu ouço sussurrar, de um modo ameaçador, todo um outro mundo, que é o mundo do outro. Albertine tendo soltado a expressão trivial “se faire casser le pot”, o narrador proustiano fica horrorizado, pois é o gueto temido da homossexualidade feminina, da cantada grosseira, que se revela de um golpe: toda uma cena pelo buraco da fechadura da linguagem. A palavra é uma substância química tênue que opera as mais violentas alterações: o outro, mantido longamente no casulo de meu próprio discurso, faz ouvir, por uma palavra que lhe escapa, as linguagens que ele recebeu por empréstimo, e que, por consequência, outros lhe emprestaram.

 

Altération. Production brève, dans le champ amoureux, d’une contre-image de l’objet aimé. Au gré d’incidents infimes ou de traits ténus, le sujet voit la bonne Image soudainement s’altérer et se renverser.

 

[...] Bien souvent, c’est par le langage que l’autre s’altère ; il dit un mot différent, et j’entends bruire d’une façon menaçante tout un autre monde, qui est le monde de l’autre. Albertine ayant lâché l’expression triviale « se faire casser le pot », le narrateur proustien en est horrifié, car c’est le ghetto redouté de l’homosexualité féminine, de la drague grossière, qui se trouve révélé d’un coup : toute une scène par le trou de serrure du langage. Le mot est d’une substance chimique ténue qui opère les plus violentes altérations : l’autre, maintenu longtemps dans le cocon de mon propre discours, fait entendre, par un mot qui lui échappe, les langages qu’il peut emprunter, et que par conséquent d’autres lui prêtent.

 

A análise barthesiana da alteração súbita na imagem que se tem do outro pelo uso inesperado de uma palavra ou expressão me parece verdadeira e densa, mas reitero que a conexão entre “faire casser le pot” e homossexualidade feminina não está na expressão, e sim na mente doentia do narrador.

(Todas as traduções são de Paulo Mendes).